Hélio Schwartsman
Tragédia em Embu-Guaçu
É inominável o assassinato do casal de namorados Liana Friedenbach e Felipe Caffé. Quando uma pessoa gravemente doente se vai, por mais querida que seja, sempre podemos racionalizar sua morte como o fim do sofrimento. De modo análogo, não temos dificuldades para atribuir um sentido à morte do policial que tombou no cumprimento do dever ou do piloto de corridas que perde a vida numa curva, mas excelendo naquilo que escolheu fazer. E atribuir um sentido, ainda que não resolva a dor de parentes e amigos, é o primeiro passo para deixar os fantasmas partirem. Ainda que com sofrimento, as pessoas acabam até por aceitar a morte de seus avós e pais. Estas pelo menos estão de acordo com uma suposta ordem natural das coisas.
O que choca no caso do crime de Embu-Guaçu é o completo despropósito das mortes. Não havia sentido algum em dois jovens promissores perderem suas vidas por terem escolhido passar um fim de semana na mata, assim como não havia sentido algum em os assassinos tirarem-lhes as vidas. A crer nas primeiras informações divulgadas pela polícia, as pessoas que cometeram o crime nada lucraram. Ao contrário, deverão agora ser processadas por duplo homicídio qualificado e passar uns bons anos encarceradas, se tiverem a sorte de não ser mortas antes na cadeia e na Febem.
Diferentemente, porém, do que tenho lido por aí, não acho que esse selvagem episódio seja emblemático do grau de barbárie a que chegamos, da falência do sistema de segurança pública nem de nada parecido. É verdade que, até onde chegaram as apurações, os suspeitos decidiram abordar os jovens para assaltá-los. Mas esse é o único traço de uma criminalidade com método em toda a história. O que se seguiu --o assassinato de Felipe e, dias depois, o de Liana-- não se explica com base em comportamentos e expectativas racionais, que é como age a maioria dos bandidos. Eu quero dizer é que esse é o tipo de crime que poderia ter ocorrido em qualquer lugar do mundo em qualquer época. Se formos à crônica policial, certamente encontraremos histórias igualmente escabrosas de adolescentes assassinados nas florestas do Oregon por lenhadores ensandecidos ou mortas por maníacos sexuais nas encostas dos Alpes. Estamos aqui diante do crime em sua forma mais bruta, em que ele surge como resultado de uma conjunção de forças que se moveram de forma mais ou menos fortuita. É o tipo de delito praticamente imprevenível, daí a possibilidade de que ocorra mesmo onde a sociedade não seja especialmente violenta e a polícia se mostre sempre eficiente.
Esse elemento aleatório contribui para conferir ao crime de Embu-Guaçu um caráter ainda mais trágico. Antes de prosseguir, convém explorar melhor o sentido de "tragédia". A maioria das definições de dicionários faz referência aberta ou velada à "Poética" de Aristóteles, onde o filósofo a descreve como "imitação de uma ação séria e completa, dotada de extensão, em linguagem condimentada para cada uma das partes, por meio de atores e não mediante narrativa e que opera, graças ao terror e à piedade, a purificação de tais emoções" (1449b). A chave aqui são as palavras "terror" ("phóbos") e "piedade" ("éleos"). A encenação de uma tragédia instila, na audiência, terror e piedade. E não há a menor dúvida de que foram esses os sentimentos que a maioria de nós experimentamos ao ler, nos jornais, os meandros do caso Friedenbach-Caffé. O terror, porque logo pensamos que os acontecimentos funestos poderiam ter ocorrido conosco ou com alguém de nosso círculo. A piedade, porque rapidamente nos identificamos com a dor jovens assassinados, de seus pais e amigos. Apesar do embrutecimento geral, permanecemos humanos e capazes de compaixão.
Passemos agora à caracterização do herói trágico. Para Aristóteles, este é "um homem, não virtuoso ou justo ao extremo, cuja desdita recai sobre ele, não por vício ou depravação, mas por algum erro [de juízo]" (1453a). De novo, a definição se aplica ao jovem casal de namorados. A palavra-chave aqui é "erro" ("hamartía"). Ao que tudo indica, eles eram adolescentes comuns, nem virtuosos demais nem de menos. Podem ter cometido erros. Se traduzirmos "hamartía" como "pecado", bem ao gosto das igrejas, poderíamos ficar tentados a concluir que o problema dos jovens foi ter dado uma escapadela para namorar ou ter mentido para seus pais. Discordo dessa interpretação. Querer namorar e mentir para os pais na adolescência são fatos absolutamente ordinários que fazem parte do processo de crescimento. O jovem assexuado ou que conta aos pais tudo o que vai em sua cabeça é que tem um problema.
Prefiro, portanto, traduzir "hamartía" como "erro de juízo", algo apenas um pouco mais forte do que "engano". A comparação que cabe é com Édipo. Seu "crime", que está na origem da tragédia de Sófocles, foi ter matado Laio, o rei de Tebas, que por acaso era seu pai. Só que Édipo ignorava esse fato. Objetivamente ele cometeu o parricídio, mas seria vão tentar imputar-lhe a carga moral contida nesse crime. Parece-me mais correto compreender a saga de Édipo como uma armadilha dos deuses ou do destino. Se há um traço que caracteriza o herói trágico, é o de que ele não é o único e nem mesmo o maior responsável por sua queda. O erro de Liana e Felipe foi ter decidido acampar no lugar errado, no fim de semana errado, no país errado. Em suma, como não tinham presciência das coisas, agiram de modo absolutamente normal.
Por fim, não podemos falar em tragédia sem voltar à idéia de "purificação" ("cátharsis"), que é, a um só tempo, o objetivo e a justificação das tragédias. Aristóteles, ao contrário de Platão, não precisa banir o artista de sua cidade ideal porque este, ao conformar e dar sentido para a realidade, transforma particulares em universal. A tragédia, afirma Aristóteles, tem o dom de levar "da ignorância para o conhecimento" (1452a).
No caso de Liana e Felipe, uma peça que não se encaixa: não estamos no teatro; não estamos diante de uma "imitação", mas de um caso real, que não nos é apresentado "por meio de atores" e "em linguagem condimentada", mas que aconteceu de verdade. Se a tragédia tem o dom de ensinar algo e purificar, para esses dois adolescentes já é tarde demais.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
