Hélio Schwartsman
Cultura da violência
Não sou um especialista em psicologia de massas, mas é preciso reconhecer que o crime de Embu-Guaçu mexeu com forças profundas da sociedade. Prova-o o fato de que vozes comprometidas com os direitos humanos, como as de dom Aloísio cardeal Lorscheider e Zilda Arns, tergiversaram e admitiram a redução da maioridade penal e o agravo das sanções a menores, respectivamente. O caso mais grave foi o do rabino Henry Sobel, da Congregação Israelita Paulista, que, num desatino, chegou a defender a pena de morte, posição de que, felizmente, acabou recuando.
Já deixei claras as minhas posições sobre o tema, ao qual dediquei minhas duas últimas colunas. Acho, contudo, que vale a pena insistir no assunto, agora sob um ângulo filosófico-biológico: está o homem condenado à violência e a guerra? Será que o ímpeto de avançar sobre o próximo para fazer valer nossa vontade está inscrito em nosso DNA ou em nossos hormônios?
Para tentar responder a essa questão, que nada tem de trivial, apóio-me sobre o belo texto da escritora e jornalista Natalie Angier, "A Guerra é Nosso Destino Biológico?", publicado no "The New York Times" no último dia 11. Infelizmente, o texto agora só está disponível mediante pagamento.
Numa abordagem histórica, ficaríamos tentados a concluir que a violência é de fato a regra. Arqueólogos e antropólogos encontraram evidências de militarismo em 95% das culturas que examinaram. Mesmo grupos outrora tidos como exceções, a exemplo dos maias, dos kungs do deserto de Kalahari ou dos samoanos, revelaram-se, após uma avaliação mais minuciosa, tão violentos quanto o resto de nós, se não mais.
É verdade que certas regiões já experimentaram períodos mais dilatados de paz. O mais extenso deles foi registrado na Antártida. Só que o continente gelado --e desabitado-- não nos serve de exemplo por razões óbvias. A civilização minóica, que floresceu em Creta e adjacências entre 3000 a.C. e 1100 a.C. passou 1.500 anos sem travar nenhuma guerra. É verdade que a principal causa da bonança era a existência de uma poderosa marinha que nenhum outro povo ousava desafiar. De modo análogo, o que foi provavelmente o único momento de paz "mundial" (na Europa e partes da Ásia e da África), entre 100 d.C. e 200 d.C., esteve baseado no incontestável poderio das legiões romanas.
Antes de sucumbir e nos render à inelutabilidade da violência no gênero humano, convém perguntar se os exemplos que analisamos têm significância. A crer no professor David Sloan Wilson, da Universidade Binghamton, de Nova York, não. Como ele declarou a Angier, "Quando você considera que foi a apenas 13 mil anos atrás que nós descobrimos a agricultura, e que praticamente toda tudo o que chamamos de história humana ocorreu desde então, você verá que tivemos um período de tempo muito curto para trabalhar pela paz global".
A idéia que subjaz ao raciocínio de Wilson e de outros pesquisadores é a de que, um dia, a guerra será universalmente condenada e se tornará rara. De modo análogo, poderíamos apostar que também o crime tende a diminuir com o progresso material e político das sociedades. As taxas de criminalidade já são significativamente menores na maioria dos países desenvolvidos. Mesmo no Brasil, os desmandos de bandidos não se comparam ao que faziam os bandoleiros na Idade Média e na Antiguidade. Admito que esse ponto de vista pode parecer ingênuo e excessivamente positivista, mas ele encontra algum apoio em teorias respeitáveis.
Antes de prosseguir, façamos uma visita a nossos parentes chimpanzés (Pan troglodytes), cujo material genético é coincidente com o humano em 98%. Como nós, eles parecem "curtir" uma guerra. Grupos de machos fazem expedições contra seus vizinhos. Quando os encontram, promovem uma verdadeira carnificina. A violência é tamanha que a proporção de fêmeas para machos na população adulta é de 2 para 1. Além das invasões, chimpanzés cometem infanticídio e canibalismo. Resta saber se esse é um comportamento natural ou cultural.
Visitemos, portanto, uma outra tribo de grandes primatas, os bonobos (Pan paniscus), até há pouco tidos como uma subespécie dos chimpanzés. Os bonobos têm algo de hippies. Combates entre machos são raros e praticamente nunca resultam em mortes. A "ratio" entre os sexos é de 1 para 1. Infanticídio e canibalismo jamais foram observados. Fêmeas podem se casar com machos de outras tribos, o que não se verifica entre os chimpanzés. Aparentemente, os animais aliviam suas frustrações através de complexos jogos amorosos. Os bonobos são sexualmente muito mais ativos do que os chimpanzés. Ao contrário de seus primos, entre os bonobos não se registram casos de machos martirizando fêmeas. Quando algum bonobão tenta se impor, as fêmeas rapidamente se unem contra ele.
A hipótese dos pesquisadores para explicar o comportamento mais igualitário e pacífico dos bonobos em relação aos chimpanzés está na reduzida competição entre os indivíduos, proporcionada pela abundância de alimentos em seu habitat. Seja como for, a comparação entre as duas espécies parece um claro indicativo de que a violência não é uma fatalidade genética, pelo menos não entre os grandes símios do gênero Pan, o que sugere que primatas simiiformes do gênero Homo também podem não estar condenados à violência.
Se admitimos essa premissa, precisamos agora de uma hipótese não-genética para explicar a virtual onipresença de comportamentos violentos entre os homens. O problema talvez esteja na excessiva valorização das castas guerreiras. Grande parte das culturas humanas reservou o melhor tratamento para seus "defensores". Eram eles que recebiam o melhor quinhão dos alimentos e eram eles que copulavam com mais mulheres. Como relata Angier em seu texto, descobriu-se neste ano que Gêngis Khan, o imperador mongol do século 13, gerou tamanha prole que, hoje, 16 milhões de homens asiáticos seriam seus descendentes. Isso equivale a 0,5% da população masculina mundial.
Evidentemente, não será fácil desenraizar dezenas de milhares de anos de cultura para a violência, que segue presente em muitos filmes, seriados, desenhos e até livros a que nossos filhotes se submetem desde a mais tenra infância.
Pesquisadores no campo da teoria dos jogos, porém, sustentam que seres humanos são capazes de estabelecer sem grandes dificuldades redes cooperativas com seus semelhantes. Mais do que isso, as estratégias cooperativas atingem rapidamente o ponto de fixação. Talvez esteja aí uma das explicações para um comportamento que sempre me surpreendeu: dada a virtual impunidade reinante num país como o Brasil, como ainda não nos tornamos todos criminosos? Na verdade, apesar de a polícia e a Justiça funcionarem muito mal, levando a uma situação em que o comportamento delituoso, muitas vezes, compensa, a esmagadora maioria dos brasileiros permanecemos teimosamente honestos na maior parte do tempo.
Antes, porém, que eu e o leitor saiamos por aí entoando cânticos à paz e à comunhão universal dos homens, convém recobrarmos um pouco daquele saudável ceticismo que garantiu a sobrevivência da espécie até aqui. Embora eu realmente acredite que possamos, não acabar com guerras e crimes, mas pelo menos torná-los relativamente raros, esse é um processo, na hipótese mais otimista, para séculos, se tudo der certo. Se, com os conflitos e a violência já presentes acrescidos de nossas trapalhadas na área ambiental, não tornarmos o planeta inabitável, talvez os netos dos netos de nossos netos possam viver num mundo melhor. Isso, é claro, se não sobrevier nenhuma catástrofe natural, como vírus assassinos, megaexplosões vulcânicas ou cometas errantes.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
