Hélio Schwartsman
O Natal de Bush
A captura de Saddam Hussein significa, sem sombra de dúvida, um ponto para o presidente George W. Bush. Parece-me, porém, um pouco precipitado considerar, como vêm fazendo alguns analistas, que o Iraque já não é um problema para os EUA e que o pequeno Bush já garantiu sua reeleição.
De fato, as chances de o mundo ter de conviver mais quatro anos com o atual presidente dos EUA são grandes, mas convém lembrar que os 11 meses que nos separam do próximo pleito constituem uma eternidade no calendário da política. Reforçam as incertezas inerentes à própria passagem do tempo a constatação de que o Iraque ainda está longe de ser um país estável, embora a prisão do ex-ditador possa contribuir um pouco para isso.
É preciso dizer, em primeiro lugar, que ninguém sabe ao certo o que acontecerá agora com os insurgentes que vinham impondo ataques diários às tropas de ocupação. Parece claro que o papel de Saddam como líder do movimento de resistência era muito pequeno para não dizer nenhum. Os rebeldes podem ser grosseiramente divididos em três grandes grupos: estrangeiros vinculados à rede terrorista Al Qaeda, estrangeiros e iraquianos com forte sentimento antiamericano e membros do antigo regime. A rigor, é apenas sobre esses últimos que o antigo tirano teria alguma ascendência. Ainda assim, o buraco em que Saddam foi encontrado sugere que eram nulas suas funções como comandante da guerrilha.
Em termos puramente militares, a captura do Carniceiro de Bagdá não altera o quadro. Em princípio, os ataques contra as forças invasoras podem continuar indefinidamente, como sugerem as primeiras ações pós-prisão. É claro, porém, que a detenção do ex-presidente iraquiano deverá resultar pelo menos em impacto psicológico sobre os membros da resistência. De algum modo, ao ter escapado dos exércitos que estavam em seu encalço, Saddam funcionava como um símbolo, e símbolos são importantes para manter o moral de combatentes, sejam eles regulares ou irregulares, idealistas ou venais.
Os que gostam de cenários mais sinistros podem seguir a análise do jornalista Patrick Cockburn, do "The Independent" britânico, para quem a prisão do tirano pode ser contraproducente para Bush. Embora haja uma certa torcida anti-Bush na avaliação do periodista, ela faz sentido: sem o espectro da volta de Saddam a atormentá-la, a população xiita, que durante duas décadas sofreu o diabo nas mãos do ditador, um sunita, poderá sentir-se livre para iniciar seus protestos --e eventuais rebeliões-- contra os EUA.
De fato, em algumas áreas específicas vêm crescendo o sentimento antiamericano dos xiitas, que representam 60% da população iraquiana. O histórico entre os seguidores desse ramo do islamismo e a família Bush não é dos melhores. Muitos xiitas não perdoam a George Bush pai o que chamam de traição. Em 1991, ao final da Guerra do Golfo, curdos e xiitas foram incentivados pelo então presidente norte-americano a rebelar-se contra Saddam. Fizeram-no, mas, por razões que não cabe aqui comentar, a Casa Branca preferiu não depor o ditador, suspendendo a movimentação de suas tropas. Para encurtar a história, Saddam sobreviveu, sufocou as revoltas curda e xiita e massacrou seus participantes com crueldade.
Voltemos, porém, ao Bush atual. Ao que tudo indica, ele tentará usar o julgamento de Saddam como uma justificativa "a posteriori" para a guerra. Ao revelar e pôr sob os holofotes os enormes crimes cometidos pelo tirano, o presidente tentará convencer os norte-americanos de que a invasão ao Iraque foi na verdade um favor prestado aos iraquianos e ao mundo.
Não contesto o fato de que o Iraque foi uma das mais sanguinárias ditaduras do planeta dos últimos 50 anos. O número de iraquianos assassinados por Saddam chega, nos cálculos da respeitada Human Rights Watch, a 290 mil, cifra que não inclui as várias centenas de milhares que morreram em consequência de guerras iniciadas pelo ditador. As acusações de genocídio e crimes contra a humanidade procedem. O que não dá para aceitar é que Bush se arrogue o papel de campeão dos povos, a quem é lícito derrubar unilateralmente governos que ele não considere democráticos. Se o critério fosse universalizado, mais da metade dos líderes mundiais teria de ser escorraçada do poder "manu militari". É claro que esse cenário jamais ocorrerá, pois grande parte das tiranias --passadas, presentes e futuras-- conta com a simpatia e às vezes apoio explícito da Casa Branca.
Saddam Hussein não foi uma exceção. Nos anos 80, o ditador iraquiano, depois que se engajou numa guerra insana contra o Irã dos aiatolás, recebeu apoio logístico dos EUA, então administrados por Ronald Reagan, cujo vice era George Bush pai. Informações obtidas por satélites norte-americanos permitiram a Saddam lançar armas químicas contra soldados iranianos. Os EUA, evidentemente, tinham conhecimento disso tudo. Os mimos endereçados a Bagdá não cessaram nem mesmo depois de Saddam ter utilizado gases contra curdos iraquianos, no tristemente célebre massacre de Halbja, em 1988.
Saddam, que ao longo dos anos 80 chegou a receber visitas de algumas altas autoridades norte-americanas que agora estão de volta ao governo incluindo o falcão da Defesa, Donald Rumsfeld, que, sorridente, apertou a mão de Saddam em Bagdá em 1983 conhece várias histórias comprometedoras. Não é impossível que, caso tenha uma tribuna livre em seu julgamento, resolva relatar essas relações promíscuas. O risco, porém, é calculado. Bush certamente tomará suas precauções, que poderão influir no desenho do juízo a que o tirano será submetido.
A captura de Saddam é um presente de Natal para Bush porque ele estava ficando sem ações e sem palavras no Iraque. Como em toda guerra de guerrilhas, a iniciativa está com os irregulares. São eles que decidem como e quando atacar. Mas, pior do que isso, a principal justificativa para a guerra brandida pelo presidente norte-americano havia se revelado uma fraude. Apesar de incessantes buscas, não foram encontradas as armas de destruição em massa que Washington afirmava existir. Assim, estava ficando patente, até para o público médio dos EUA, que o Iraque não constituía uma ameaça. Os soldados americanos haviam se metido no que já começava a parecer com um atoleiro e por razão nenhuma.
A prisão de Saddam talvez não altere muito o quadro militar e certamente não muda nada nas imposturas armadas pela Casa Branca para justificar a invasão, mas oferece a Bush uma chance de convencer a população dos EUA de que ele agiu bem ao lançar-se na guerra contra o Iraque. E os americanos, para o bem e para o mal, não costumam desconfiar muito de seus líderes. Mais ainda, o "timing" do julgamento, pelo que se fala, poderá coincidir com o auge da campanha eleitoral. Tudo isso num momento em que a economia vai entrando em rota de crescimento. Bush tem razões para declarar-se exultante. Resta saber se o mundo pode dizer o mesmo.
PS - Folgo na semana do Natal e trabalho dobrado na do Réveillon. Assim, nesse período, estarei impossibilitado de escrever a coluna, que retomo no dia 8 de janeiro. Bom ano a todos os que ainda insistem em me ler.
![]() |
Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
