Pensata

Hélio Schwartsman

19/02/2004

Bush em baixa

Não morro de amores por George W. Bush, mas considero precipitadas as análises que já o dão como carta fora do baralho no pleito de novembro. Não faço mais do que repetir uma obviedade quando digo que os ventos da política são inconstantes. Em meados de dezembro, isto é, apenas dois meses atrás, quando da captura de Saddam Hussein, muitos dos analistas que agora vêem o presidente como derrotado o colocavam como candidato imbatível à reeleição. A verdade é que nos nove meses que nos separam de novembro tudo pode ocorrer --e também o seu contrário.

É claro que Bush está com problemas. A medida dessas dificuldades é dada pela recente pesquisa de intenção de voto patrocinada pelo jornal "The Washington Post" e pela rede de TV ABC que coloca o virtual candidato democrata, John Forbes Kerry, com 51% da preferência do eleitorado, à frente de Bush, com 43%. A liderança de Kerry está além da margem de erro, que é de três pontos percentuais para mais ou para menos.

É claro que esses números precisam ser relativizados. Kerry aparece a todo instante na mídia arrebatando os delegados democratas de mais um Estado para a sua candidatura. Num desempenho de fato impressionante, o senador por Massachusetts venceu 15 das 17 prévias estaduais que já ocorreram. Com sua imagem sempre associada à da vitória, seria notável se não aparecesse bem em pesquisas. (Eu diria mesmo que se, com toda essa mídia favorável, estivesse abaixo de Bush, seria um candidato inviável).

Numa análise mais política do que numérica, a sociedade norte-americana está dividida em partes mais ou menos iguais entre republicanos e democratas. Esse fenômeno não vem de hoje, já ocorrendo há algumas décadas. Vence o candidato que consegue fazer o chamado centro pender para o seu campo. Também é importante tentar, se não entusiasmar, ao menos não desagradar demais aos eleitores de sua própria facção. Norte-americanos podem ficar preguiçosos na hora de votar e isso pode influir nos resultados. Foi o que ocorreu no último pleito, a fatídica eleição que terminou por levar George W. Bush ao poder.

Neste ano, porém, tudo indica que o comparecimento deverá ser alto. Os democratas, ao menos, estão mobilizados. As prévias vêm contando com recordes de participação. Não porque Kerry desponte como um líder especialmente carismático, mas simplesmente porque os simpatizantes democratas estão entrevendo a possibilidade de escorraçar Bush da Casa Branca. É razoável supor, portanto, que o mesmo venha a ocorrer nas hostes republicanas, para tentar manter George W. como inquilino do número 1.600 da avenida Pennsylvania.

Voltando a Bush, seu ponto fraco, no momento, parece ser o Iraque, mais especificamente aquilo que não havia no Iraque, as famosas armas de destruição em massa que Saddam possuiria aos borbotões. A pesquisa do "Post" dá que 54% dos entrevistados acham que Bush deliberadamente exagerou as informações disponíveis sobre os armamentos. Não é preciso pós-graduação em lingüística para perceber que "exagerar deliberadamente" é um eufemismo para mentir. Mesmo que admitamos que nem todos os norte-americanos pensem tão cartesianamente, parcela considerável dos eleitores acha que o presidente mentiu, pecado considerado grave em terras protestantes. Não há muitas dúvidas de que o problema iraquiano esteja entre as razões que levaram a popularidade de Bush, que já esteve acima dos 90%, cair a 51% agora.

E, do Iraque, exceto por um possível julgamento de Saddam Hussein, no qual os promotores enumerariam todos os hediondos crimes do ditador, Bush não deve esperar boas notícias. Os atentados contra soldados da coalizão e contra civis iraquianos continuam e não dão sinais de estar se esgotando. Nas últimas duas semanas assistimos até a uma intensificação das bombas e das emboscadas.

Mesmo o plano de Bush de entregar o comando do país a um governo provisório iraquiano já a partir de julho, embora faça sentido e pareça a coisa certa, pode trazer algumas surpresas desagradáveis para o presidente. Ao passar o comando da administração aos iraquianos, os EUA não ficarão livres para repatriar suas tropas. A segurança ainda deverá continuar bastante precária e nem o Pentágono fala em sair do país em menos de um par de anos. Isso significa que Washington ainda terá de responder politicamente pelos atentados e ataques e já não terá a soberania total sobre o Iraque. É claro que o governo provisório não será um regime de oposição aos EUA, mas pontos de vista discordantes poderão evidenciar-se, o que não é bom em ano eleitoral.

No "front" interno, a situação do presidente é melhor, mas não chega a ser cor-de-rosa. A recuperação econômica está decididamente em curso e tende até a ser acentuada. O problema é que muitos economistas --ortodoxos e heterodoxos-- projetam um crescimento sem grande geração de empregos. E são principalmente os empregos que geram votos.

Também na economia, o déficit público produzido pelas políticas de Bush anda exacerbando os críticos, em especial os conservadores. Aos sempre crescentes custos da segurança pós-11 de Setembro e das guerras no Afeganistão e no Iraque, o presidente foi em frente com seus planos de cortar impostos, numa atitude que muitos no próprio Partido Republicano vêem como irresponsabilidade fiscal.

Outro campo de possíveis problemas para Bush é o seu vice, Dick Cheney. Visto como um dos principais "falcões" que cercam o presidente, Cheney e seu gabinete são investigados pelo vazamento do nome de uma agente da CIA cujo marido criticou a política dos EUA no Iraque. Como na América divulgar o nome de espiões é crime, um pequeno escândalo poderá surgir daí. E esse escândalo pode ficar ainda maior se outras investigações em curso ligarem Cheney a um caso de corrupção em contratos para a reconstrução do Iraque e o governo dos EUA nos anos 90, quando o atual vice comandava a empresa Halliburton. E nunca é demais recordar que a Halliburton, agora formalmente sem Cheney, continua metida em contratos para a reconstrução do Iraque --maiores e mais lucrativos-- e segue suspeita de envolvimento em casos superfaturamento, favorecimento ilícito e outras falcatruas.

Para temperar tudo isso, a virtual disputa Bush x Kerry fez com que se recolocasse em questão o serviço militar do presidente. Enquanto Kerry é um herói da Guerra do Vietnã várias vezes condecorado, Bush deu um jeito de escapar ao conflito servindo numa base aérea da Guarda Nacional no Alabama. Agora surgem as suspeitas de que ele nem sequer cumpriu integralmente o serviço militar na segura posição que conseguiu. Essa história requentada talvez nem fosse um problema se, recentemente, Bush não tivesse se autoproclamado um presidente da guerra.

A leitura dos últimos parágrafos pode dar a falsa sensação de que em breve o mundo se livrará do pequeno Bush. As coisas não são assim tão simples. Para começar, por mais enfraquecido que esteja, o presidente que tenta a reeleição é sempre um adversário considerável. Historicamente, a maioria dos que tentaram obteve o segundo mandato, embora Bush pai se conte entre os que perderam. Depois, diferentemente de Kerry, que vive o que possivelmente será um dos melhores momentos de sua campanha, Bush ainda não saiu com sua máquina e a do Partido Republicano às ruas. E ele já conta com um fundo de pelo menos US 200 milhões para gastar em publicidade.

Eu até gostaria de ser mais otimista, mas, mesmo que Kerry se sagre vencedor, os piores estragos provocados pela administração Bush não desaparecerão. O Iraque, por exemplo, seguirá invadido e continuará sendo um país de difícil administração, praticamente em guerra civil. O sentimento antiamericano deflagrado no Oriente Médio (e em menor escala no resto do mundo também) por ações unilaterais dos EUA não será revertido pela assunção de um novo chefe. Nem as instituições multilaterais tão maltratadas por Bush se recuperarão na noite para o dia.

Duvido que as fortes emoções proporcionadas pela última eleição presidencial norte-americana se repitam (é uma quase impossibilidade estatística), mas este pleito, pelo que está em jogo e pelas paixões que o pequeno Bush fez eclodir, promete ser pelo menos muito interessante.

PS - Estarei trabalhando dobrado (com metade da equipe) no Carnaval, motivo pelo qual não poderei escrever a coluna do dia 26/2. Retomo-a, portanto, em março.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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