Pensata

Hélio Schwartsman

04/03/2004

O PT e o jogo

É extremamente fácil dizer bobagem no calor dos acontecimentos. Essa é a principal razão pela qual esperei a poeira baixar um pouco antes de me manifestar sobre o escândalo que tem como pivô o ex-assessor de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, Waldomiro Diniz, e que lança suspeitas sobre o ministro José Dirceu e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nunca fui dos que acreditaram na inviolabilidade ética do PT. Embora eu sofra de simpatias esquerdistas, creio numa natureza humana cujo retrato não é muito bonito. O homem é um animal que tem como imperativo --talvez até biológico-- satisfazer seus interesses próprios. Quando estes coincidem com o chamado interesse coletivo, estamos no melhor dos mundos possíveis. Quando não, a besta-homem freqüentemente busca recurso na força e no logro, que tendem a chocar-se com leis, convenções e princípios --com a ética, enfim.

Numa análise que fica entre o realismo "materialista histórico" e o cinismo, era apenas uma questão de tempo até que o PT --como a quase totalidade dos demais partidos-- fosse apanhado em flagrante delito de corrupção e fraude às regras de financiamento de campanha. Afirmar, como vem fazendo a tropa de choque petista, que Waldomiro enganou José Dirceu é um insulto à capacidade do ministro-chefe da Casa Civil. É até possível que Dirceu ignorasse detalhes como o 1% de "comissão privada" na falcatrua lotérica, mas parece incontestável que Diniz só estava no posto em que estava devido a sua capacidade de operar na agora célebre zona de amoralidade política. E isso, de alguma forma, basta para tornar o poderoso ministro oficialmente suspeito de fazer o que todos sabíamos que fazia: gerenciar o balcão do governo e, antes, o do partido.

Não vou dizer que lamento o ocorrido porque tudo aquilo que serve para desmitificar instituições e desfazer ilusões deve, em princípio, ser saudado. A iconoclastia é libertadora, ainda que, num primeiro momento, possa ofuscar e assustar os que, à maneira de Dante, perdem todas as suas esperanças.

E, já que mencionei a natureza humana, aproveito para fazer alguns comentários sobre a atividade que motivou toda a celeuma: o jogo.

Esclareço desde já que não estou na folha de pagamento de bicheiros, bingueiros ou traficantes de drogas, mas considero a medida provisória que proibiu os bingos e caça-níqueis um dos maiores erros filosóficos do PT nessa história toda. Quando o governo que antes defendia a regulamentação do setor reage de maneira tão desbragadamente oposta à sua tese anterior, apenas prova que sentiu o golpe político e demonstra que coloca as circunstâncias à frente das convicções --o que é uma falha moral.

Não tenho nenhuma dúvida de que o jogo é um problema, seja do ponto de vista da saúde pública seja o do combate ao crime organizado. Ainda assim, a esquerda não-moralista tem quase que o dever de propugnar pela liberação da atividade, assim como costuma interceder pelo direito ao aborto, pela regulamentação da eutanásia, pela legalização das drogas e por outras manifestações, ainda que extremas, da liberdade individual.

Comecemos pelos problemas. É conhecida a correlação entre oferta de jogo e o número de jogadores patológicos. Quem o diz é Rachel Volberg, uma conceituada especialista norte-americana na epidemiologia da ludomania. Tomemos o caso de Nevada. É lá que fica Las Vegas. Trata-se, é óbvio, de um dos Estados mais liberais com o jogo nos EUA. Bem, segundo trabalho de Volberg de 2000, a prevalência combinada de jogadores problema e de jogadores patológicos em Nevada é de 6,4%, a maior dos EUA. Em outros Estados, de acordo com estudos comparáveis realizados de 1995 a 2000, a prevalência varia de 2,1% em Dakota do Norte a 4,9% no Mississipi. A diferença não é desprezível. E o jogo compulsivo, a exemplo das dependências químicas, é uma patologia crônica e progressiva. Associa-se ainda a outras moléstias psiquiátricas, como alcoolismo, depressão e até ideações suicidas.

Financeiramente, o jogo também tende a ser um desastre para os compulsivos. São eles --uma minoria de menos de 10% da população-- que respondem pelo principal dos lucros dos donos de cassino e exploradores de jogos em geral. Trabalho de 2001 do Instituto Australiano para Pesquisas em Jogo mostra que 48,2% das receitas de caça-níqueis no país vêm de jogadores problema ou patológicos. O apostador comum, que gasta uns poucos trocados para eventualmente divertir-se numa noite, pode até estar fazendo um "investimento" razoável. O jogador habitual certamente está perdendo dinheiro, pois a única certeza probabilística é que, no longo prazo, os exploradores de jogos saem ganhando. É verdadeira a máxima segundo a qual a única forma de ganhar num cassino é sendo o dono dele.

Outro aspecto pernicioso do jogo é a sua capacidade de associar-se a atividades ilícitas. Las Vegas, é bom lembrar, foi fundada pela Máfia. A facilidade com que se lava dinheiro nessa atividade é a chave para o problema e funciona como um ímã de delitos. O acaso intrínseco ao jogo torna possível "explicar" ganhos repentinos que de outra forma seriam inexplicáveis. Todo traficante ou líder de quadrilha empreendedor deveria ter o seu bingo.

Depois de tantos argumentos contrários ao jogo, alguém poderia perguntar se eu estou em meu juízo perfeito quando defendo a sua liberação. A questão não está no mal que o jogo pode causar, que é grande, mas no papel que se acredita deve ser o do Estado. Se achamos que cabe ao poder público impedir a todo custo que as pessoas façam mal a si mesmas, jamais poderíamos defender a legalização ou mesmo a descriminalização das drogas. Encostou a mão num baseado, cadeia! Álcool e cigarros deveriam ser definitivamente proscritos. Carnes gordurosas e outros alimentos não-saudáveis teriam o mesmo destino. Comprar um tranqüilizante numa farmácia exigiria, além de receita médica em três vias, passar por um detector de mentiras. Correr 10 mil metros pela manhã todos os dias seria obrigação de todos os cidadãos.

Sei que há pessoas que acham que o caminho é quase esse, mas eu respeitosamente discordo. Se um cidadão maior de 18 anos decide gastar todo o seu dinheiro num bingo, esse é um direito que lhe assiste, ainda que a escolha possa afetar negativamente sua família. Como diziam os antigos romanos, "abusus non tollit usus" (o abuso não deve estorvar o uso). O Estado, é claro, pode e deve atuar, mas não autoritariamente proibindo o jogo. Seu papel deve ser o de regular a atividade, fechando o máximo possível de portas para a criminalidade e oferecendo apoio médico e psicológico aos jogadores patológicos que decidam tratar-se. Não duvido de que a melhor forma de fazê-lo seja através da estatização do jogo. Sim, defendo, ao lado da Narcobrás, a criação da Embrassino (Empresa Brasileira de Cassinos).

A vantagem da administração estatal sobre a particular é que o objetivo precípuo da atividade não estaria no lucro. As máquinas não precisariam ser programadas para tirar o máximo do apostador e alguns dos truques hoje usados para exacerbar a psicose do jogador --como o excesso de luzes e sons e a ausência de janelas-- poderiam ser repensados. Material educativo sobre os riscos do jogo e as possibilidades de tratamento também estaria disponíveis, ao lado da roleta. Essa, evidentemente, é uma "solução" ainda bastante imperfeita.

É claro que, quando chegar a hora, aconselharei meus filhos, agora com dois aninhos, a não se drogar e a não jogar a dinheiro. É claro também que eles não me ouvirão. Quase certamente experimentarão bebidas alcoólicas, algumas drogas da moda e passarão por cassinos. Se não tiverem azar, contudo, sobreviverão relativamente incólumes a essas experiências, que serão em algum sentido enriquecedoras. Viver é perigoso. Implica fazer continuamente apostas, muitas das quais se revelarão equivocadas, como podem atestá-lo José Dirceu e também o eleitor do PT desesperançado com o governo. Para dar uma moral existencialista a este texto, diria que a única regra é que o jogo só acaba quando morremos.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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