Hélio Schwartsman
Sucumbindo ao terror
O problema do terrorismo é que ele não pode ser derrotado. O máximo que serviços de segurança conseguem fazer é dificultar a vida do terrorista. Por vezes, conseguem evitar um atentado e até desbaratar parte da organização que o preparava. Esses esforços, contudo, não bastam para impedir o próximo ataque. Uma hora, os perpetradores conseguirão cumprir seus desígnios homicidas. A assimetria do conflito reside no fato de que, para o terror, basta acertar de vez em quando. Não é preciso ter êxito em mais do que uma de cada 50, 100 ou 200 tentativas, enquanto, para as forças de segurança, qualquer resultado pior do que impedir a totalidade dos ataques concebidos --o que é uma impossibilidade prática-- já representa um fracasso.
Sim, reconheço, minha visão do fenômeno é um pouco sombria. Só não chego a afirmar que massacres como o de Madri, na semana passada, são uma inevitabilidade assim como terremotos, enchentes, avalanchas e outros desastres naturais, porque o terror guarda alguma correlação com atitudes tomadas por Estados. Eu não posso prever onde se dará o próximo grande terremoto ou explosão vulcânica, mas sou capaz de elaborar uma lista mais ou menos sucinta de países que correm maior risco de sofrer ataques: Reino Unido, Espanha, Itália, Portugal, para ficarmos apenas na Europa Ocidental. O que os une? Apoiaram de forma algo entusiasmada a invasão ao Iraque liderada por George W. Bush.
Não estou, com essa constatação, justificando o terrorismo ou atribuindo-lhe uma racionalidade que ele não tem. Em minha opinião, não há ato mais covarde, condenável e infame do que explodir uma enorme quantidade de semelhantes, escolhidos ao acaso, para tentar fazer valer uma reivindicação política. Terroristas são homicidas insanos. Operam sob um código patologicamente distorcido, mas, ainda assim, atuam segundo uma lógica. Ela é ignominiosa, abjeta e detestável, mas, ainda assim, é uma lógica. Dificilmente veremos o pessoal da Al Qaeda mandando pelos ares o metrô de São Paulo, por exemplo. Não estou, aqui, afirmando que jamais atacariam no Brasil, mas, se o fizerem, quase certamente será visando a um alvo norte-americano ou de algum aliado próximo, como fizeram com o consulado britânico em Istambul (Turquia), no ano passado, ou com a casa noturna freqüentada por cidadãos australianos em Bali (Indonésia) em 2002.
O que se pode fazer contra o terrorismo? Embora nosso campo de ação seja limitado, eu não diria que é nulo. O Reino Unido, por exemplo, conseguiu a duras penas resolver o problema do IRA (Exército Republicano Irlandês) com uma negociação política. Apesar de idas e vindas, avanços e retrocessos, o cessar-fogo vem sendo observado desde que foi firmado em 1997.
Mesmo o ETA, o grupo terrorista basco inicialmente acusado pelas autoridades espanholas pelo massacre de Madri, teve sua atividade bastante reduzida nos últimos anos. Dois fatores contribuíram para isso. Houve a forte repressão promovida pelo governo de José María Aznar, mas, principalmente, houve uma brutal perda de prestígio do ETA no próprio país basco. No início dos anos 90, metade dos bascos apoiava a secessão com Madri. Hoje, menos de um terço defende a independência. De algum modo, a "causa" basca está perdendo fôlego, o que tende a privar os "etarras" de seu oxigênio vital. O que aconteceu? Ao longo desses anos, cresceu a autonomia do País Basco dentro da Espanha, e o próprio papel do governo central de Madri foi relativizado pela criação e aperfeiçoamento de instituições supranacionais da União Européia. Nesse contexto, faz menos sentido reclamar independência --e muito menos explodir pessoas para consegui-la. Depois do 11 de Março, a tendência é a de que os próprios bascos coloquem pressão para que o ETA encerre suas atividades terroristas.
Devemos agora nos perguntar se soluções desse tipo se aplicam ao terror islâmico. Antes de prosseguir, é preciso distinguir entre os vários tipos de extremismo praticados por grupos muçulmanos. Não há duvida de que um acordo de paz razoavelmente justo entre israelenses e palestinos tenderia, se não a acabar, pelo menos a arrefecer o ânimo dos homens mulheres-bombas que hoje, em ritmo quase semanal, se fazem explodir em ônibus, restaurantes e lugares públicos de Israel.
Em relação ao Iraque, a coisa é um pouco mais complexa. Não vejo, no futuro próximo, a perspectiva de uma retirada das forças estrangeiras do país. E, enquanto elas lá permanecerem, serão um alvo tentador para alguns dos grupos que disputam o poder no país, numa situação que não está muito longe da guerra civil.
Bem mais difícil, reconheço, é tentar conceber uma "solução política" para os débeis mentais da Al Qaeda. É difícil até saber o que eles concretamente pleiteiam. Para além da retirada das tropas americanas da Arábia Saudita --um processo que, aliás, já está em curso--, eles parecem queixar-se da corrupção moral gerada pelo Ocidente no islã e da decadência do wahabismo (a versão, para nós, radical, do islamismo observada na Arábia Saudita), que estaria contaminado por valores estrangeiros impuros. De fato, esse grupo, ou pelo menos sua cúpula dirigente, pretende lutar por conceitos quase etéreos. Desconfio até que, para eles, infligir perdas aos EUA e seus aliados tornou-se um fim em si mesmo, já pouco vinculado a propósitos políticos palpáveis.
Como conter esses doidos? A única resposta que me ocorre é: com camisas-de-força. O problema é que, para fazê-lo, é necessário antes capturá-los.
Mesmo nesse quadro pouco alentador, seria possível tentar equacionar as questões políticas reais que favorecem o surgimento de jovens muçulmanos dispostos a entrar para a Al Qaeda. Sem pretextos como a injustiça cometida contra os palestinos ou a conivência dos EUA para com governos árabes corruptos, talvez fosse menor o fluxo de candidatos a mártir islâmicos, que são a matéria-prima mesma da Al Qaeda.
Infelizmente, porém, a guerra contra o terrorismo promovida pelo pequeno Bush vem caminhando no sentido exatamente inverso. Ela apenas faz aumentar o sentimento de humilhação e ódio de populações muçulmanas. Se acertadamente classificamos como execrável o assassinato de 2.749 civis inocentes no World Trade Center, como devemos qualificar a morte de vários milhares de civis muçulmanos nas intervenções militares lideradas pelos EUA no Afeganistão e no Iraque? Será que os civis afegãos e iraquianos mortos pelas bombas perdidas eram menos inocentes do que os norte-americanos no WTC? É claro que Bush, diferentemente de Osama bin Laden, não deslanchou suas ofensivas com vistas a sacrificar inocentes, mas ele assumiu o ônus de provocar essas mortes. E isso, é claro, gera enormes ressentimentos. Eu, mesmo com todo meu suposto iluminismo, talvez também me tornasse um fanático em busca de vingança, caso uma bomba "inteligente" mal disparada tivesse matado toda a minha família. Incidentes como esse ocorreram aos borbotões tanto no Afeganistão como no Iraque. Levam o curioso nome de "danos colaterais".
Se Bush tivesse planejado criar uma incubadeira de terroristas, dificilmente teria elaborado um plano tão bom. Espero que o ignominioso massacre de Madri ao menos sirva para levar a Europa a lançar uma estratégia menos tola de combate ao terror --o pouco que está em nossas mãos fazer.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
