Pensata

Hélio Schwartsman

25/03/2004

Paixão e preconceito

Não vi e não gostei. É mais ou menos isso o que acho do filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson. Antes, porém, que me tachem de preconceituoso, esclareço que pretendo assistir à película, depois que as filas amainarem. Interessa-me a reconstituição do latim e do aramaico falados no longa-metragem.

Quanto à acusação principal, de que o filme é anti-semita, corroboro-a mesmo sem tê-lo visto. Se o enredo se baseia nos Evangelhos, como parece ser o caso, não há como o resultado não ser uma peça de propaganda antijudaica, pois essa é uma marca muito forte em todos os quatro relatos da vida de Cristo que se tornaram canônicos.

Antes de prosseguir é preciso deixar claro que a simples idéia de que o Jesus histórico poderia ter algo contra os judeus é absurda. O rapaz judeu conhecido pelo nome aramaico de Jeshua e seus primeiros seguidores jamais pretenderam ser mais do que bons judeus. Jesus fazia-se chamar de "Rabbi" (rabino) e jamais contestou os fundamento da lei mosaica ou da Torah, a Bíblia hebraica. Mesmo do ponto de vista da ortodoxia judaica, nada do que Jesus fez ou disse podia ser considerado herético. Ele era temido por fariseus e saduceus (castas de sacerdotes ultra-ortodoxos) por seu potencial subversivo. Mas o povo, como sempre acontece, se dividia entre os muitos que apreciavam e os poucos que desgostavam de mais aquele pregador, como os havia às dezenas na efervescente Israel do 1º século.

Mesmo depois da morte de Jesus, seus partidários, liderados por Tiago, seu irmão, e por Pedro, o apóstolo, se diziam plenamente judeus, constituindo mais uma das inúmeras seitas de então. Eram conhecidos por vários nomes como nazarenos, ebionitas, Seguidores do Caminho, Filhos da Luz e galileus. O termo cristãos só aparece um pouco mais tarde, no meio do século 1º e na Antióquia (Síria).

As origens do anti-semitismo religioso --que difere bastante do antijudaísmo racial de Hitler e seus sequazes-- remontam a um judeu: Paulo de Tarso. Também conhecido por seu nome hebraico Saulo, ele era um judeu da diáspora. Nascera na cidade de Tarso, na Cilícia (hoje Turquia), era filho de um cidadão romano e falava o grego. Diferentemente de Tiago, Pedro e dos nazarenos, Paulo pregava para não-judeus: gregos, egípcios, romanos e persas --o que, como veremos, fez toda a diferença.

Dizem que Paulo converteu-se ao cristianismo após uma visão na estrada para Damasco. Quanto a isso, eu não sei, mas sei que o homem tinha uma excelente cabeça para o marketing, no que era muito competente. Experimente trazer alguém para uma religião exigindo que o candidato a fiel renuncie radicalmente a todas as suas crenças anteriores, se automutile numa parte que costuma ser cara aos homens e pare de comer as comidas que sempre apreciou. Difícil? Paulo também achou. A fim de tornar o judaísmo cristão mais palatável para os gentios, foi procedendo a uma série de modificações. Era preciso acabar com algumas especificidades do judaísmo que o tornavam uma religião pouco vendável, como a circuncisão, as proibições alimentares e até sua intolerância para com outros credos. Foi assim que o hoje santo proclamou que a antiga aliança (a lei mosaica) havia sido substituída pela nova, cujas exigências não eram tão draconianas. Havia espaço até para o culto a Maria, a mãe virgem de Deus. A idéia pareceria estranha a judeus de Israel, criados numa forte tradição anicônica e antiidólatra, mas era absolutamente essencial para trazer novos fiéis vindos de religiões repletas de adorações a deusas, virgens e não-virgens.

Paulo, com seu notável senso de marketing, dera o passo fundamental para tornar o cristianismo uma religião com pretensões universais, mas, inopinadamente, também estabelecera a linha que um pouco mais tarde separaria judeus e cristãos definitivamente, lançando as bases das fogueiras da inquisição espanhola e dos "pogroms" russos.

As pequenas diferenças teológicas estabelecidas por Paulo logo deram lugar a disputas cristológicas mais pesadas que, dentro em breve, degenerariam em forte rivalidade política. Vieram a guerra contra os romanos (66-70) e a destruição do Templo de Jerusalém. Foi um golpe decisivo. O grupo dos judeus cristãos foi duramente perseguido pelas autoridades e quase dizimado. Já os cristãos das comunidades fundadas por Paulo, na diáspora e mais integrados ao império, sobreviveram para contar a história. Foram eles que escreveram os Evangelhos canônicos, que já nascem sob o signo do antijudaísmo. Com os ânimos acirrados, distanciar-se de suas origens judaicas passou a ser questão de sobrevivência.

É assim que os Evangelhos diminuem a culpa dos romanos na crucificação de Jesus e a atiram explicitamente sobre os judeus. No Evangelho de Marcos, Pôncio Pilatos, que ordenou a execução de Jesus, tenta ser simpático para com o condenado e propõe libertá-lo, no que é impedido por uma turba de judeus. Em Mateus, que parece especialmente anti-semita, a horda de judeus sanguinários escolhe libertar o bandido Barrabás, e Pilatos lava suas mãos dizendo "Sou inocente do sangue deste justo" (Mt, 27:24) Ao que a multidão responde: "O seu sangue caia sobre nós, e sobre nossos filhos" (Mt, 27:25). Em João, o último dos Evangelhos, a palavra "judeus" já aparece como um termo genérico para "inimigos de Cristo". Vale notar que, entre os Evangelhos apócrifos, existem vários com visões bem menos antipáticas dos judeus.

Esse anti-semitismo já pronunciado das vidas de Cristo canônicas é ainda uma brincadeira de criança perto da virulência demonstrada alguns séculos mais tarde pelos chamados pais fundadores da igreja. Em minha modesta opinião, o campeão é João Crisóstomo (344-407), que, para os cristãos ortodoxos, é um santo e, para os católicos, leva o título de Doutor da Igreja. Bem, Crisóstomo, nome que em grego significa "boca de ouro" escreveu, em suas "Homilias contra os Judeus", coisas como: "Os judeus sacrificam suas crianças a Satã... eles são piores do que bestas selvagens. A sinagoga é um bordel, um buraco da escória, um templo de demônios devotados a cultos idólatras, uma assembléia criminosa de judeus, um ponto de encontro dos assassinos de Cristo, uma casa de má fama, um abrigo de iniqüidades, um abismo de perdição".

Em outra passagem "picante", o bispo de Constantinopla escreveu: "Os judeus caíram para uma condição inferior à do mais vil dos animais. Depravação e embriaguez os trouxeram para o nível do bode luxuriento e do porco. Eles só sabem uma coisa: satisfazer seus estômagos, ficar bêbados, matar e bater uns nos outros como vilões e cocheiros". Para o Doutor da Igreja, a degeneração dos judeus se deve "ao odioso assassinato de Cristo, crime para o qual não há expiação possível, não há indulgência, não há perdão, e pelo qual eles sempre permanecerão um povo sem uma nação, suportando uma servidão sem fim". São termos bastante semelhantes aos que Hitler usou no "Mein Kampf".

Não se trata, infelizmente, de opiniões isoladas de um único personagem. Até pensadores mais refinados, como Agostinho, guardaram palavras pesadas para os judeus, numa atitude que, até muito poucos anos atrás, representava a posição oficial da Igreja Católica.

É curioso que mesmo teólogos experimentados não tenham percebido --ou tenham preferido ignorar-- que os judeus não poderiam, dentro da própria lógica católica, ser condenados pelo assassinato de Cristo, uma vez que a teologia considera a morte do filho unigênito de Deus como "necessária" e "predestinada".

A "Paixão" de Gibson, filme a que ainda não assisti, é inegavelmente anti-semita, porque baseado nos Evangelhos. Trata-se, porém, quase de um carinho feito aos judeus quando comparado a outros escritos --e atos-- incorporados à história da igreja.

Por essas e outras acho que o mundo seria um lugar bem melhor se não houvesse religiões. Nessa hipótese, as pessoas se matariam apenas por motivos concretos como cobiça, inveja, ciúme, raiva, e não por fanatismo religioso. Seria um tímido avanço e, como bônus, eu não precisaria assistir à "Paixão" de Gibson.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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