Pensata

Hélio Schwartsman

15/04/2004

Os meninos e o lobo

Como freqüentemente ocorre depois de feriados prolongados em que passo a maior parte de meu tempo dedicando-me à puericultura, vejo-me sem outro assunto para comentar que não minhas descobertas em relação a meus filhos gêmeos, Ian e David, agora com dois aninhos. Interessam-me nesta coluna seus progressos com a linguagem.

O que salta aos olhos, nessa fase, é que eles falam pelos cotovelos. Dialogam, comentam, observam, obtemperam e, principalmente, exigem. É impossível fazer-lhes ouvidos moucos, hipótese em que o pedido rapidamente se torna uma súplica, a qual, mantida a negativa paterna, logo é substituída por um fremente berreiro.

Infelizmente, não sou obsessivo --e nem coruja-- o bastante para registrar metodicamente todas as gracinhas, bobagens e desatinos que eles proferem. Assim, para rabiscar essas linhas, fico limitado às inconstâncias da memória, caprichosa como só ela sabe ser.

Passar um tempo a ouvir os garotos proporciona, antes de mais nada, uma interessante reflexão sobre a linguagem, seus limites, suas virtudes e até alguns de seus perigos.

Correndo o risco de incorrer no vício conhecido como engenharia de obra feita, ouso dizer que basta observar o desenvolvimento dos meninos ao longo dos últimos meses para concluir que a racionalidade vem junto com a aquisição da linguagem e não antes. Embora isso hoje possa parecer meio óbvio, a noção só se fixou em meados do século 18, principalmente com os trabalhos de Étienne Bonnot de Condillac e Johann Gottfried von Herder. Antes deles, os filósofos estavam mais propensos a acreditar que o homem, já racional, desenvolvera a linguagem para poder expressar seus pensamentos.

Não há dúvida de que, quando os garotos falavam menos, seu mundo era mais pobre. À medida em que suas frases foram ficando mais longas, suas observações também se tornaram mais refinadas. Do "banho", que é como eles designavam a viagem ao litoral alguns meses atrás, até o hodierno "vamos à praia, na casa da vovó e do vovô, com papai, mamãe e Sofia [a irmã, de 11 anos]", há um pélago de diferença.

Não sei bem qual é o sentido das longas e repetitivas enumerações que eles gostam de fazer e de escutar, mas desconfio de que opera aqui, além dos mecanismos clássicos da apercepção descritos pela psicologia, a mais prosaica vontade de exibir-se. Eles parecem ter um certo orgulho de compor períodos mais extensos e complexos, como se tivessem uma veia proustiana.

É claro que, para cada Proust, existe também um García Márquez. Muitas vezes, as enumerações descambam para o terreno do "nonsense", com a inclusão de objetos inesperados. Sem aviso prévio, a banana ou o carrinho vêm-se somar à lista das pessoas presentes na sala, por exemplo.

Mais complicado é o caso do indefectível --e também temível-- lobo. Para que possamos prosseguir, devo fazer uma confissão da qual não me orgulho: "o lobo" é o objeto de pavor com o qual, contra todas as recomendações de pedagogos, nós os apavoramos na tentativa de torná-los mais dóceis e manobráveis. Não é raro que esse animal sub-repticiamente invada situações concretas.

Por vezes, tenho a sensação de que eles sabem que o lobo é uma espécie de alienígena, pertencente a uma categoria não muito real de seres, tanto que a inclusão do canídeo no rol de membros da família, por exemplo, sempre dá lugar a gostosas risadas. Acredito que haja aqui, na evocação do lobo e em sua subseqüente exorcização pelo riso, uma tentativa de tornar o que lhes causa pavor algo mais familiar, menos ameaçador. (Pensando bem, talvez eu deva parar de assustá-los tanto com a figura lupina).

Outras vezes, contudo, eles parecem tratar o lobo como um ser real e presente --principalmente quando isso lhes interessa. De algum modo, eles já desenvolveram a mentalidade do policial e já elegeram seus "suspeitos de sempre". Sempre que pergunto em tom de desaprovação quem é o responsável por determinada bagunça, Ian responde que é David, e David, ato contínuo, acusa Ian. Percebendo a aporia, um deles logo propõe o lobo como autor da traquinagem, com o que o outro facilmente concorda. Nesse caso, não há riso algum.

É claro que eles ainda não são capazes de diferenciar perfeitamente o reino do real do da fantasia. A rigor, nem nós, adultos e presumivelmente equilibrados, o somos. Se conseguissem fazer a distinção, as ameaças com a imagem do lobo não surtiriam nenhum efeito --e como surtem!

Também me encantam os tropeços que dão com as ambigüidades da linguagem. Outro dia, pedi a Ian que chamasse o elevador para que pudéssemos descer. Fi-lo apenas para que parasse de atormentar-me, pois ele ainda não alcança o botão do engenho. Ele, contudo, interpretou o termo "chamar" de outra maneira e simplesmente gritou: "elevador". Aqui, quem quebrou a cara fui eu, pois sua hermenêutica era, tanto quanto a minha, inatacável.

Uma faceta mais assustadora de seus primeiros passos com a linguagem está na expressão de atitudes e pensamentos violentos. Juro que não fui eu que lhes ensinei isto, mas, neste fim de semana, peguei-os várias vezes falando em "matar". Apanham um pedaço de pau que improvisam em espadas, bradam "en garde" (isso eu ensinei!) e se põem a ameaçar o outro de morte: "eu vou matar David, eu vou matar Ian, vou matar o cachorro, vou matar o carro". Como eles, também tenho meus suspeitos de sempre, e imagino que tenham aprendido essas coisas na televisão. No começo, até insistíamos para que eles só assistissem a programas supostamente educativos ou, pelo menos, não-violentos. Agora, contudo, que já aprenderam a apertar os botões do aparelho, noto que é com gosto que eles sintonizam aqueles desenhos mais antigos e bastante brutais, como "Tom e Jerry", "Pernalonga", "Patolino".

Também me parece grave a descoberta já feita de que palavras também podem ferir. Como bons gêmeos dizigóticos, eles brigam por quase tudo. Basta que um apanhe um dado objeto para que o outro também o reclame para si. Mesmo quando não disputam nenhum brinquedo, um (principalmente Ian) vive a atazanar o outro (normalmente David), dando-lhe pancadinhas ou apertando-lhe as bochechas. O desfecho ordinário para essas situações é David, de boca aberta, disposto a utilizar suas poderosas mandíbulas, saindo em frenética perseguição a Ian, que foge assustado. Por vezes, contudo, quando há um adulto a bloquear fisicamente a investida de David, ele tem de conformar-se com com agressões verbais. É aí que solta um sonoro: "Ian bobo!". Ao que o outro retruca: "não, Ian lindinho. Bibi [o apelido de David] bobo!". Após uma série de dois ou três xingamentos, um deles pode colocar-se a chorar ou sair em busca da proteção do pai ou da mãe, numa prova de que a ofensa pelas palavras também é efetiva.

Antes que o leitor considere que estou criando monstrinhos, futuros "pitt boys" ou "serial killers", devo dizer que, via de regra, eles rapidamente se reconciliam. Há poucas coisas mais enternecedoras do que assistir a um deles --ainda que por imposição paterna-- pedir desculpas ao outro e oferecer-lhe um abraço, que é prontamente aceito, e de boa-fé.

Após estafantes cinco dias de descanso com os gêmeos, fico mais convicto de que é a utilização, a cada dia mais proficiente, da linguagem que os vai moldando como seres humanos, com tudo o que isso traz de bom e de mau também.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca