Hélio Schwartsman
Versões, fatos e guerras
Assassinato seletivo ou ação de autodefesa legítima? O xeque Ahmed Yassin e Abdel Aziz Rantissi, chefes do grupo palestino Hamas mortos por forças de segurança israelenses nas últimas semanas, são mais bem descritos como pérfidos terroristas ou como líderes de um movimento de resistência nacional?
O grande problema do Oriente Médio é que versões são tomadas como fatos, o que sempre dá lugar a uma série interminável de desentendimentos e incompreensões, as quais freqüentemente culminam em explosões de violência.
Na minha visão pessoal dos acontecimentos --que não pretendo erigir em verdade revelada, mas tomo como mais uma versão, entre tantas possíveis--, as ações israelenses contra lideranças do Hamas são, sim, uma forma de assassinato, pois constituem uma eliminação extrajudicial, o que é inconcebível num Estado de Direito. Ao agir dessa forma, Israel de algum modo se iguala aos terroristas. É claro que um judeu indignado poderá argumentar que existe uma diferença entre atingir um ônibus repleto de criancinhas, como fazem os homens-bomba palestinos, e acertar um carro onde se encontram o suposto chefe dos terroristas e seus guarda-costas presumivelmente também terroristas. Embora eu veja uma diferença entre a escolha aleatória de alvos, típica do terror, e a seleção com base em suspeitas concretas, ambas as ações têm em comum o desprezo pela lei, pelo rito judicial, que, gostemos ou não, é o que distingue a Justiça da rixa. (E o conflito israelo-palestino degenerou-se, se quisermos, numa grande vendeta, na qual, de parte a parte, vingar as injúrias sofridas no passado tornou-se um fim mais importante do que encontrar a paz).
Não afirmo, com essa minha veemente condenação dos assassinatos seletivos, que Israel deva ficar de mãos atadas e aceitar passivamente os odiosos atentados terroristas palestinos. Embora eu não entenda nada de táticas militares, acredito que, assim como foi possível para o competente Exército israelense localizar seus alvos humanos e atingi-los com mísseis de precisão, teria sido também factível para um comando da Sayeret Duvdevan (unidade de contraterrorismo do Exército) ou algum outro grupamento de forças especiais interceptá-los, capturá-los e levá-los a julgamento. Nessa hipótese, o que Israel classifica como gesto de autodefesa seria inequívoca e incontestavelmente uma atitude de resguardo. Atuando assim, o Estado hebreu poderia pretender possuir uma superioridade moral no conflito, um pleito que, se fazia sentido até algumas décadas atrás, hoje não passa de uma velha memória.
Com efeito, Israel tornou-se um Estado invasor, que ocupa território palestino. E é evidente que não pode haver uma ocupação moral. Essas minhas observações me forçam a recuar um pouco no tempo. Acho que todos --exceto, por razões óbvias, parte dos israelenses-- consideram a presença de Israel nos territórios palestinos ilegal. De fato, não é possível, nos dias de hoje, considerar a guerra como um meio legítimo de aquisição de território, ainda que esta fosse a regra no passado. Mas o melhor caminho para não entender nada do que se passa no Oriente Médio é repetir o velho chavão de que a ocupação israelense é ilegal e exigir o imediato cumprimento das resoluções da ONU que determinam sua retirada. Eu creio, é claro, que Israel tem de sair das áreas palestinas, mas, para compreender o que se passa na chamada Terra Santa, é preciso olhar um pouco mais detidamente para a história.
Para não ter recuar a Abraão e a Ur, na Caldéia, parto do pressuposto de que o mais perto que podemos chegar de uma "solução justa" é algo semelhante à partilha da Palestina estabelecida pela ONU em 1947. Embora não seja muito difícil hoje identificar os palestinos como vítimas, é oportuno lembrar que, quando tudo começou, foram justamente os árabes que, rejeitando a determinação das Nações Unidas, iniciaram em 1948 uma guerra para tentar expulsar os judeus. Mesmo o conflito de 1967, a célebre Guerra dos Seis Dias, pela qual Israel conquistou a Cisjordânia (Jerusalém oriental inclusive) e a faixa de Gaza, pode ser ainda interpretado como um ato de defesa. Os principais países árabes estavam prestes a iniciar uma megaofensiva para varrer o Estado hebreu do mapa e atirar os judeus no Mediterrâneo, à qual o Exército israelense se antecipou com estrepitoso sucesso.
De 1967 para cá, contudo, já se passaram quase 40 anos, durante os quais a presença militar israelense em terras palestinas teve muito pouco a ver com defesa contra uma ameaça militar iminente. Ao contrário, a ocupação converteu-se no principal motor do conflito. É em busca do objetivo (legítimo) de livrar seu território de um invasor estrangeiro que os palestinos justificam suas ações contra Israel, tanto as legítimas, como a intifada (a rebelião com paus e pedras) ou os ataques a patrulhas de soldados, como as veementemente condenáveis, a exemplo dos atentados contra alvos civis em território israelense.
Sim, é preciso considerar as ações palestinas, mesmo aquelas com bombas, contra soldados legítimas, ou não poderíamos tampouco julgar justas as operações da resistência francesa contra o nazismo ou dos guerrilheiros russos contra Napoleão. A verdade é que não são fixos ou evidentes os limites entre ações justificáveis de guerrilha e atentados terroristas. É claro que, em casos como o de ônibus escolares, a dúvida nem se coloca, mas como classificar o ataque contra um grupo de colonos israelenses, cuja meta assumida é permanecer para sempre em território palestino?
Começo, porém, a enredar-me no erro que denunciei há pouco, que é o de ficar olhando para as injúrias cometidas no passado pelas partes em vez de centrar-me no presente, em especial nas pequenas chances que ainda existem para a retomada do diálogo.
Uma vez que esse conflito desafia toda e qualquer lógica econômica, acho que é uma questão de tempo até que ele seja resolvido. Infelizmente, os ódios acumulados já são tantos que qualquer atitude de aproximação maior do que um mero cessar-fogo deverá ficar para as próximas gerações.
E mesmo obter a trégua não será fácil. O premiê israelense, Ariel Sharon, vem seguindo uma política que considero insana, que poderá, no máximo, atrasar em mais algumas décadas o processo de paz. Ao que tudo indica, esse general da linha dura, que nunca foi um entusiasta do diálogo, desistiu de vez da mesa de negociação e agora procura reduzir ao máximo as áreas de contato entre israelenses e palestinos. É nesse contexto que se inserem o plano de retirada unilateral de Gaza e a construção da cerca na Cisjordânia. Os assassinatos seletivos e a idéia de perenizar alguns assentamentos judaicos na Cisjordânia surgem como moeda de troca política. Para convencer a ala mais à direita de seu próprio partido, o Likud, a aderir ao plano, Sharon toma medidas mais enérgicas contra o Hamas e acena com concessões para os religiosos, os grandes cultuadores das colônias. É também digno de nota que Sharon toma essas atitudes metido em sérios apuros com a Justiça israelense. Ele é acusado de estar envolvido num escândalo de corrupção que poderá custar-lhe o cargo, principalmente se a situação política não lhe for favorável.
Ainda que se considerassem legítimos os assassinatos seletivos, há dúvidas de que ele são úteis a Israel. Aparentemente, as mortes levam a uma desarticulação passageira da capacidade operacional do Hamas, mas nem os serviços de segurança israelenses acham que esse fenômeno é mais do que transitório. Outro de seus efeitos é o aumento do prestígio do grupo extremista entre a população, em detrimento das facções palestinas mais moderadas, com as quais seria possível negociar um acordo de paz.
Não sei se Sharon o faz intencionalmente ou não, mas, ao isolar completamente o líder da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Iasser Arafat, e ao fortalecer seus rivais do Hamas e de outros grupos extremistas, como o Jihad Islâmico, o governo israelense aposta no impasse. Arafat cometeu muitos e vários erros, a começar pela rejeição de um acordo definitivo de paz em Camp David (EUA) em 2000, mas a ANP pelo menos reconhece o Estado de Israel, enquanto Hamas e Jihad têm o declarado propósito de destruí-lo.
No mais, a estratégia de Sharon de retirada unilateral de Gaza e, mais adiante, de áreas da Cisjordânia, comete o grave equívoco de simplesmente ignorar os palestinos, tentando impor-lhes um fato consumado. Há aqui até mesmo uma incongruência lógica, pois a paz, por definição, só pode ser celebrada em acordo com o inimigo. Sem a anuência do adversário, a única paz possível é a paz dos cemitérios, que nenhum lado será capaz de impor ao outro.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
