Hélio Schwartsman
Uma boa idéia?
Não pretendia comentar o caso Lula X "The New York Times", pois julgava que a fraca reportagem publicada pelo prestigioso diário norte-americano teria em poucos dias o destino da grande maioria dos textos jornalísticos: o esquecimento. Mas a decisão do governo brasileiro de expulsar o jornalista Larry Rohter mudou a minha avaliação.
O Planalto, mais uma vez, meteu os pés pelas mãos. Deu ao episódio uma dimensão que ele não tinha nem merecia ter. Tratou um problema privado do presidente da República com o jornal e o jornalista norte-americanos como uma questão de Estado e, de quebra, ainda arranhou a liberdade de imprensa no Brasil. Se o governo temia que a matéria do NYT pudesse provocar danos à imagem externa do país, agora pode ter certeza de que a truculenta expulsão, se de fato ocorrer, o fará. A sensação --não resisto à piada_ é a de que quem optou pela cassação do visto do jornalista ou estava de porre ou reagiu com o fígado.
Perceba o leitor aqui que eu não estou afirmando que o Brasil se tornou uma ditadura e suspendeu a liberdade de imprensa, mas é evidente que o Planalto, ao punir um jornalista por não ter gostado do que ele escreveu, age autoritariamente e adota um comportamento típico de republiquetas de Terceiro Mundo.
Eu julgava que a reportagem de Larry Rohter não merecia uma reflexão mais detida porque mesmo presidentes da república têm direito à tal da intimidade, esfera em que lhes é dado fazer o que bem entendem, inclusive encher a cara. Precisam, é claro, um pouco mais do que cidadãos particulares, zelar pelas aparências. Não fica bem o primeiro mandatário exibir-se publicamente em estado de embriaguez.
Alguém poderia argumentar que ter um presidente alcoólatra representa uma ameaça ao país. A minha resposta é tucana: pode ser que sim, pode ser que não. Como bem colocou o insuperável José Simão (cito de memória), Winston Churchill se afogava diariamente em gim e salvou o mundo do nazismo; George W. Bush parou de beber e está pondo fogo no mundo. É claro alguém nos últimos estágios do alcoolismo teria dificuldades para exercer a Presidência, mas nem o Brizola falando a Rohter sugeriu que fosse esse o caso de Lula.
Não há dúvida de que o presidente bebe. Há inúmeras fotografias a prová-lo. A questão --que a reportagem do NYT não conseguiu elucidar-- é se ele o faz além da medida. O texto do diário nova-iorquino se limita a captar fofocas que circulam nas redações e em certas esferas da elite e a reproduzir declarações de fontes politicamente suspeitas como Leonel Brizola. A qualidade técnica da matéria é sofrível. Pior, ela foi até um pouco sensacionalista em suas conclusões, pois, pelo menos até a data da publicação, a relação de Lula com o álcool não era em absoluto uma "preocupação nacional". Considero o NYT um excelente jornal e acho estranho que uma reportagem assim fraca tenha sido publicada com tanto destaque. Rejeito, porém, as teorias conspiratórias, segundo as quais tudo isso foi orquestrado pela Casa Branca. Essa tese talvez se tornasse verossímil se o veículo escolhido fosse a Fox News ou um congênere. Quem pensa o contrário deveria ler os editoriais do NYT com ferozes críticas ao governo norte-americano e ao próprio presidente George W. Bush.
Outro ponto sutil para o qual quero chamar a atenção do leitor é que, ao desqualificar a matéria, eu não estou automaticamente afirmando que Lula não tenha problemas com o álcool. Eu francamente não sei. Embora tudo o que foi publicado até aqui não passe de um amontoado de zunzunzuns, vale lembrar que a psiquiatria costuma valorizar rumores acerca dos hábitos etílicos de uma pessoa quando se trata de avaliar sua possível dependência. É evidente, contudo, que esse é apenas um entre muitos outros critérios. Isoladamente, ele não significa nada senão exatamente o que ele é: fofocas.
O lamentável nessa novela é que o governo, atuando com uma lógica primária, que tenta fazer apelo ao mais tosco dos nacionalismos, transformou um pequeno aborrecimento que não deveria durar mais do que dois ou três dias numa questão nacional. O pior é que Lula vinha se saindo relativamente bem no episódio. Os mais diversos setores da sociedade saíram a apoiá-lo e a criticar a matéria do jornal. Agora, é bastante provável que muitas das vozes que o defendiam passem a atacá-lo. Para resumir todo o "imbroglio" numa única e elegante expressão latina, a expulsão foi uma "defaecatio maxima".
Bem, já que comecei a falar mal do governo, continuo a coluna na mesma senda, o que faço, registre-se, com dor no coração. Mas, convenhamos, o governo vem, até aqui, se saindo bem pior do que a encomenda. Não estou me referindo a detalhes, que podem até ser altamente reveladores do caráter da gestão, como o caso NYT, mas que são, ainda assim, fatos menores na vida de uma Presidência. Tampouco me reporto aos ciclos normais de popularidade/impopularidade de um governo. Um ano e meio é uma fase que costuma ser negativa: como regra, a administração já é velha o bastante para ser responsabilizada pelos problemas do país, mas ainda não teve tempo de ver seus projetos --se é que ela os tem-- frutificarem. (De resto, por razões que talvez a psicobiologia explique, sempre julgamos a crise presente pior do que as passadas; esquecemo-nos muito facilmente de que, na adversidade anterior, que pode ter ocorrido apenas alguns meses antes, éramos capazes de jurar nunca ter visto um período tão ruim como aquele).
O que me assusta no atual governo é a sensação que ele dá de total ausência de projeto, algo que, admito, eu não imaginava fosse possível no PT, legenda que, na oposição, passou 20 anos a apontar --e corretamente, diga-se-- erros de gestões situacionistas. É claro que eu não esperava que as sapiências técnicas do PT tivessem pronto um plano qüinqüenal para a pesca no alto Solimões, por exemplo, mas acreditava que os educadores do partido soubessem pelo menos aonde ir, assim como julgava que os sanitaristas tivessem projetos factíveis, baratos e até testados para combater problemas crônicos na área. O que se vê, contudo, é quase uma abulia.
Compreendo, é claro, as tais das dificuldades orçamentárias. O governo anterior literalmente quebrou o país, mas a administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu perseverar no mesmo modelo macroeconômico. E isso quando tinha obtido nas urnas legitimidade para tentar uma outra fórmula. Não afirmo com todas as letras que Lula fez a opção errada --promover uma moratória é sempre uma decisão complicada, sobretudo no quadro de crise aguda nos mercados financeiros no início de 2003--, mas o fato é que ele fez essa escolha e ela não pode servir eternamente como pretexto para a inação.
Não ignoro, também, que muito do que diz a oposição, quando está confortavelmente instalada na oposição, são bravatas. Mas mesmo fanfarronices precisam ser levadas parcialmente a sério. Não se pode passar impunemente 20 anos pregando uma coisa e, chegando ao governo, passar automaticamente a defender o contrário. Eu até compreenderia --teoricamente, é claro-- que um partido revolucionário mentisse descaradamente para conquistar o poder e, lá se instalando, revelasse sua verdadeira face ao tentar implementar seu projeto de sociedade. A menos que consideremos a ampliação do ajuste fiscal e a manutenção das metas de inflação como atitudes revolucionárias, seremos forçados a concluir que esse não é o caso do PT. O que ele de mais revolucionário fez até aqui foi substituir um número enorme de quadros funcionais mais ou menos permanentes por gente do partido, o que explica em parte a ineficiência da gestão.
O partido fracassou até em tentar implantar algumas de suas bandeiras históricas no plano do Legislativo, algo que não implica custos financeiros e serviria para demonstrar algum vínculo entre o velho e o novo PT. Como já escrevi aqui antes, o PT bem que poderia ter trazido a debate temas como aborto, eutanásia, direitos dos homossexuais e discriminação das drogas, entre tantas outras discussões polêmicas. Não imagino, é claro, que conseguiria transformar todas as teses progressistas em lei. O Brasil ainda é um país extremamente conservador em muitas matérias. Ainda assim, por que não assinar uma medida provisória ou propor um projeto de lei modernizando nossa arcaica legislação num desses itens?
O que se vê, para meu lamento, é exatamente o contrário. Na tentativa infantil de livrar-se do fantasma do caso Waldomiro Diniz, o governo assinou uma MP proibindo os bingos, atividade cuja regulamentação defendia até a véspera. (Como já escrevi numa outra coluna, não sou a favor do jogo, mas defendo que as pessoas tenham o direito de escolher o que fazer de suas vidas, assim como defendo o direito do presidente da República beber, se ele assim o desejar). Pior, há indícios de que o Congresso vai proibir no país as tão necessárias pesquisas com a chamada clonagem terapêutica, e o governo ainda não afirmou que, nessa hipótese, usaria de seu poder de veto para impedir que tamanho crime contra a ciência e a saúde pública seja cometido. Até no plano internacional, no qual a atuação do governo era até há pouco aplaudida, o Brasil retirou da ONU uma proposta de resolução que condenaria a discriminação contra homossexuais. Ao que consta, fê-lo por pressão da Igreja católica e de países árabes.
Nunca fui ingênuo a ponto de imaginar que, no poder, o PT não se transfiguraria. Esperava, porém, algum esforço da cúpula do partido para pelo menos sugerir que algo do antigo ideário, no qual votaram milhões de brasileiros, ainda restava.
O meu receio é o de que o governo tenha se colocado numa posição de refém dos resultados macroeconômicos, que, de fato, apresentaram melhora desde o final da administração anterior. Ele espera um alívio econômico para começar a investir em planos que tragam resultados sociais --e eleitorais. Ocorre que os avanços no campo da grande finança são precários. A atual turbulência nos mercados mostra o quão frágil é essa tese. Em poucos dias de crise, com a subida do dólar, o país empenhou o equivalente a dois meses de penoso superávit fiscal. Não sei se há uma saída para essa armadilha. Sei, contudo, que o capital político do presidente Lula, que ainda é respeitável, tende a decair com o tempo. No pior cenário, que considero improvável, temos uma situação do tipo Argentina sob Fernando de la Rúa. No melhor --e é isso o que me preocupa-- teremos um governinho medíocre, não não conduz a nação a lugar algum, mas reage, às vezes histericamente, aos acontecimentos.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
