Pensata

Hélio Schwartsman

27/05/2004

Que me perdoem as amebas

Começo a coluna de hoje com um duplo pedido de desculpas, às amebas e aos leitores. Às primeiras, por tê-las insultado em minha crônica da semana passada. Aos segundos, por ter deixado de responder a todas as mensagens que recebi por conta do famigerado texto. Meu ateísmo ainda não chegou ao estágio de comprometer a boa educação. Não dei satisfações a todos os que me escreveram por absoluta falta de condições objetivas. Se fosse retorquir à centena de e-mails que recebi, provavelmente ainda o estaria fazendo. Dito isso, ensaio uma resposta coletiva, comentando alguns pontos que, acredito, não ficaram suficientemente claros.

Comecemos pelo começo, isto é, pela acusação que me foi imputada de que trato a ciência exatamente como os religiosos tratam seus deuses: com fé. A comparação é indevida. Embora seja possível prestar culto à ciência, coisa que os primeiros positivistas faziam, é preciso atentar para algumas diferenças fundamentais entre sistemas religiosos e o método científico. Enquanto os primeiros se pretendem mensageiros de uma verdade acabada e imutável, o segundo prevê seu próprio erro e tenta criar mecanismos de autocorreção.

Uma religião é um pouco como um contrato de adesão: ou você crê e compra o "pacote" inteiro, ou não crê e fica de fora. Não é possível --ou não deveria ser-- escolher partes do Catolicismo para acreditar (e.g. a salvação) e outras para rejeitar (e.g. os sacramentos). Quem o faz --e estes são muitos-- ou não acredita tanto assim ou conta com a infinita misericórdia de Deus para conseguir um lugarzinho no céu, apesar das faltas.

Com a ciência não existe "pacote", até porque não há uma escatologia. Ela se contenta com pequenas verdades provisórias, que só são consideradas como tal por falta de explicação melhor. E mesmo essas "verdadezinhas" com "v" minúsculo devem ser prontamente rejeitadas como erros caso surjam evidências que as contradigam. (Um cientista individual até pode crer religiosamente em sua teoria, mas o sistema não chancela essa confiança cega). E, convenhamos, para a maioria dos pesquisadores é difícil fazer uma profissão de fé em algo que quase certamente vai mudar amanhã. Seria como passar um cheque em branco a um comerciante pouco confiável, se é lícito recorrer a metáforas bem ao gosto presidencial.

Nesse sentido, é preciso dar razão a alguns de meus opositores quando afirmam que o conceito de evolução darwiniano é apenas uma "teoria", isto é, que ela ainda não foi "provada". Acato a objeção desde que tenhamos em mente que tudo em ciência é apenas "teoria". A rigor, a ciência não oferece garantias nem mesmo de que o sol vai nascer amanhã. Suas "verdades" são, na verdade, meras hipóteses heurísticas. Existem, é certo, alguns indícios indiretos de que essas suposições são corretas. Como escrevi na semana passada, o fato de o forno de microondas que eu crio com base nas minhas "verdadezinhas" científicas funcionar já significa que nem toda a minha física é um delírio. Pode-se dizer o mesmo da teologia? Isto é, ela é capaz de produzir conjecturas falseáveis ou instrumentos que funcionem?

(Antes que me tomem por um positivista raivoso, devo dizer que eu próprio me incluo entre os que apreciam uma boa crítica das ciências, entre os que consideram que o raciocínio lógico-dedutivo não é o único --nem necessariamente o melhor-- com que o homem foi dotado. Atesta-o numa coluna que escrevi já há algum tempo, mas que não repudio).

A precariedade aletológica das ciências não nos autoriza de modo nenhum a encontrar, nas frestas do darwinismo, um Deus projetista que teria desenhado as espécies. Os que defendem a teoria do design inteligente se servem do método científico quando lhes interessa e o rejeitam quando ele já não atende a seus interesses. Como tudo o que é ciência, o darwinismo suscita inúmeras questões que ainda não foram bem respondidas. Só que alguém realmente comprometido com o método científico não inferiria Deus a partir das primeiras dificuldades, mas procuraria encontrar hipóteses terrenas para os problemas encontrados. Vale aqui a navalha de Ockham, o princípio segundo o qual, para explicar os fatos, não devemos multiplicar desnecessariamente as entidades.

Deixemos, porém, de lado esse blablablá epistemológico e passemos a outras críticas que julgo importante responder. Discordo radicalmente da tese de que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas fossem mais religiosas, o que já justificaria aulas da disciplina. Não estou aqui emitindo um juízo de valor sobre a fé de ninguém, mas apenas atentando para o fato de que dedicar-se à transcendência não é garantia de nada. Israel já cometeu esse mesmo erro, quando, nos anos 70 passou a incentivar os jovens palestinos a participar de fraternidades religiosas. O cálculo do governo era o de que, enquanto a garotada estivesse nas mesquitas, voltada para Meca, estaria longe da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Bem, para encurtar a história, os grupos religiosos estimulados por Israel acabaram se tornando o embrião do Hamas e do Jihad Islâmico, as milícias extremistas que hoje explodem ônibus em Tel Aviv e Jerusalém. Se a religiosidade acrescentou alguma coisa, foi o fenômeno dos homens-bomba. Diferentemente de um terrorista laico, o religioso não teme a morte; ao contrário, entrega-se triunfante a ela.

Não estou aqui, é evidente, afirmando um parentesco necessário entre religiosidade e fanatismo ou violência. Mas tampouco assevero o contrário. A forma como cada um lida com suas crenças é algo pessoal e intransferível. Há desde religiosos insuspeitos, cuja passagem pelo planeta nos faz, por alguns instantes, julgar a humanidade viável, até aqueles cuja contribuição tem sido massacrar semelhantes por não concordar com o modo como rezam.

Alguns leitores me perguntaram por que eu, que me declaro ateu, dedico tanto tempo a questões ligadas ao divino. Quanto a isso, devo dizer que a inexistência (ou existência, tanto faz) de Deus não o torna um problema filosófico-sociológico menos interessante. Aproveito agora o ensejo para dizer que eu nada teria contra o ensino de história das religiões numa perspectiva filosófico-antropológica pela rede pública. Eu próprio tive aulas inesquecíveis com o magistral professor Flávio Vespasiano di Giorgi. É evidente, contudo, que esse tipo de ensino faria sentido no ciclo médio e não no fundamental e desde que se tomassem as devidas cautelas para evitar o proselitismo e a estultice.

E, por falar em estupidez, voltemos ao criacionismo. Não é impossível que uma pessoa fique com Deus e a ciência. Embora cientistas tendam a ser ateus e agnósticos numa proporção superior à da população comum, vários excelentes pesquisadores crêem em forças superiores. O próprio Albert Einstein, ao que consta, era religioso. Existem até mesmo aqueles que seguem fielmente os ritos de seus credos sem, com isso, tornarem-se esquizofrênicos. Eles precisam apenas renunciar a interpretar literalmente as Escrituras, notadamente os mitos cosmogônicos. Isto é, um cientista pode acreditar que Deus criou o Universo, mas dificilmente acreditará que isso ocorreu 5.764 anos atrás, como sugere a tradição judaico-cristã. Pode achar que há algo de divino no homem, mas pouco provavelmente considerará que a mulher foi gerada depois de seu homólogo masculino, especialmente não a partir de um pedaço de costela.

O primeiro homem que na Pré-História identificou o trovão com um deus foi um verdadeiro gênio. Revelou uma notável capacidade de abstração e uma incrível intuição sociológica, ao estabelecer as bases do que mais tarde daria o sentido de comunidade a grupamentos humanos. Já quem, em pleno século 21, segue achando que cada manifestação de um fenômeno natural é a expressão de um estado de espírito divino demonstra que não tem nenhuma capacidade de abstração e não passa de um néscio. O meu receio é o de que o ensino do criacionismo na escola pública ajude a formar mais gente desse calibre.

Errei - Na coluna passada cometi a bobagem de afirmar que a paradinha a que Deus submeteu o Sol e a Lua descrita em Josué, 10, 12 levaria a Terra à destruição. É verdade, como escrevi, que o planeta não resistiria à interrupção de sua órbita em torno do Sol, mas, para parar o dia, o que se suspende é o movimento de rotação da Terra e não sua translação. E a rotação poderia ser interrompida sem comprometer a integridade física do astro. Não se deve concluir, a partir de meu erro, que eu agora acho plausível que Deus tenha parado o Sol para que os judeus pudessem massacrar os amorreus. Agradeço ao leitor Clovis Maia por ter me alertado para a asneira em que incorri.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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