Hélio Schwartsman
Chupeta e razão
Ansiedade, irritabilidade, explosões de choro, distúrbios de humor e sonhos vívidos são sintomas psiquiátricos clássicos da chamada síndrome de abstinência, que ocorre quando privamos alguém de uma droga com a qual seu corpo se habituou. Quem já parou de fumar sabe bem do que estou falando. Meus filhos gêmeos Ian e David, agora com pouco menos de dois anos e meio, também. Eles estão passando por tudo isso.
Antes que me tomem por um pai depravado que transformou seus bebês em dependentes de nicotina ou de coisas ainda piores, devo esclarecer que os garotos estão sofrendo é com a retirada da chupeta. A mãe, médica conscienciosa, decidiu que já passava da hora de interromper-lhes a fase oral e, como efeito colateral, poupar-nos as futuras faturas de fonoaudiólogos e ortodondistas. Optamos pelo método radical.
Tudo foi meticulosamente planejado. Dois domingos atrás, levamo-los ao circo, tendo antes os advertido de que os ingressos seriam pagos com as "mimis", o nome com que eles próprios batizaram as tão queridas chupetas. O espetáculo foi ótimo. Havia tigres, cavalos, trapezistas, equilibristas e os indefectíveis palhaços, tudo escoltado por guloseimas variadas. Depois do show, já no caminho de volta para casa, quando o balançar do carro entorpece mesmo o mais elétrico infante, veio o pedido que tanto temíamos: Dá a "mimi"! Resistimos bravamente e explicamos que o precioso objeto havia sido surrupiado pelo palhaço. Fazendo-se de compreensivo, David acrescentou que fora o palhaço pequeno --um artista-mirim que devia ter, como eles, uns dois ou três aninhos-- o autor da façanha.
Não levou muito tempo até que a afetada maturidade desse lugar a prantos, lamentos e súplicas. Ian pedia que comprássemos "mimis" novas. David sugeriu até que a mãe fosse trabalhar para obter o dinheiro que alegávamos faltar para a aquisição. Era de partir o coração vê-los sofrer daquela maneira. David, que parece ter sentido mais os efeitos da abstinência, chegou a passar algumas horas prostrado. Embora não tenhamos observado distúrbios neurológicos ou somáticos, meu impulso foi o de aliviar-lhes os sintomas com um benzodiazepínico (Valium), projeto sabiamente vetado pela mãe.
Antes de perder-me nesse longo intróito, minha intenção era utilizar um caso relativamente prosaico para recordar-nos da fragilidade daquilo que nós, humanos, consideramos nosso principal dom: a inteligência. Não discuto que somos mais espertos do que nossos primos macacos e principalmente mais do que besouros e taturanas. Ainda assim, o cérebro humano precisaria ser melhorado. Se o responsável por nosso design é um ser inteligente --um Bill Gates eterno--, ele esqueceu alguns "bugs" em nossa programação que atrapalham bastante a vida das pessoas.
Não é difícil perceber a utilidade do instinto de sugar entre mamíferos. Ele poupa a mãe de ter de ensinar o bebê a alimentar-se, o que parece especialmente interessante quando se considera que os filhotes dessa classe de animais não nascem lá muito maduros. Trata-se, assim, de uma compulsão inata comum a todos os bichos que se alimentam de leite nas primeiras fases da vida. No caso humano, a mania de sorver surge ainda no útero, lá pela 29ª semana do feto --é o seu comportamento mais complexo--, e se prolonga até o bebê completar seus primeiros 12 meses.
O problema que leva à má utilização da chupeta é que o responsável pela circuitaria cerebral se esqueceu de pôr a chave para desligar mecanismos como instintos depois que eles deixam de ser úteis e se tornam contraproducentes. A semelhança dos sintomas da abstinência de drogas e da saudade da chupeta não é gratuita. Tanto a cocaína como as mais inocentes "mimis" mexem com os centros de recompensa do cérebro. Depois que nossos neurônios se acostumam ao prazer proporcionado por esses adjuvantes, não querem perdê-los nem por decreto e reagem às tentativas de retirada.
É claro que as drogas possuem uma série de princípios ativos que desencadeiam reações eletroquímicas que a chupeta parece incapaz de provocar. Não se deve subestimar o poder dessas substâncias nem seu potencial para provocar danos à saúde. Mas apenas a química externa não explica casos como a dependência em jogos de azar ou o mais exótico vício por cenouras, já descrito na literatura médica. Ainda não está claro se o betacaroteno, o, por assim dizer, princípio ativo das normalmente saudáveis cenouras, tem potencial aditivo ou se a dependência teria explicação mais psicanalítica, em mecanismos de ritualização --o que parece mais verossímil. De todo modo, o cérebro é perfeitamente capaz de produzir ele próprio as substâncias que viciam. São os opióides endógenos, que levam o nome de endorfinas ("endogenous morphine"). Numa metáfora um pouco forçada, a glândula pineal (hipófise), já apontada por filósofos como a sede da alma, seria na realidade um idílico campo de papoula.
É claro que a inteligência humana, cuja mais importante manifestação é a racionalidade, constitui-se na principal diferença entre nós e nossos parentes mais próximos. De algum modo, as variações mínimas nos pares de bases nitrogenadas do DNA que nos distinguem dos chimpanzés permitiram que "nossos rapazes" produzissem a "Ilíada" e a "Nona Sinfonia" enquanto os deles mal conseguem limpar-se. Mas não se pode perder de vista que a notável faculdade do ser humano de avaliar, julgar e ponderar idéias universais reside apenas na crosta de nosso cérebro. O miolo (não resisto ao trocadilho) permanece essencialmente animalesco, terreno para instintos, impulsos e todo gênero de bestialidades. (Aliás, o privilégio de viver com uma médica intensivista e ouvir os relatos do dia-a-dia de uma UTI da rede pública me deu uma nova consciência do peso da fisiologia em nossas vidas --e do acaso em nossas mortes). O caráter animal não chega a ser uma surpresa, afinal, nem para Kant --o pai do Iluminismo alemão-- o ser humano era inteiramente racional. A ambivalência racional-animal é, contudo, ainda, a melhor explicação para algumas das escolhas que gostaríamos de não ter feito..
Encerradas as filosofices, peço permissão para contar o final da história de Ian e David. Eles ainda andam meio tristonhos com a falta das "mimis". Outro dia, um deles encontrou uma moedinha no parque e convidou o outro para comprar chupetas. Mas, aos poucos, vão se conformando com a perda e com a nova realidade de suas vidas. A título de compensação e cedendo aos insistentes apelos de minha enteada, Sofia, de 11 anos, adquirimos uma cachorrinha que deverá estorvar nossas vidas pelos próximos dez ou 12 anos. Ver a alegria estampada nos rostos dos três quando foram apresentados à cadelinha no último sábado já valeu a empreitada. Depois da chegada do animal, os meninos praticamente não falaram mais nas "mimis". De resto, a cachorrinha também se revelou um trunfo inesperado. Agora, quando preciso que os garotos me obedeçam, basta ameaçar levar embora a Bis --o nome que Ian tirou não sei de onde para batizá-la. Sei que esse tipo de chantagem é cruel, condenável e antipedagógico, mas funciona. E eu uso. Deve ser o meu lado bestial.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
