Hélio Schwartsman
Do direito de mentir
Atendendo ao desafio lançado pelo leitor Gustavo Santos, do Laboratório de Ciências da Computação do MIT (Massachusetts Institute of Technology), proponho-me a escrever sobre um assunto de que não entendo para provar uma tese da qual nem estou tão convicto. Minha idéia aqui é comentar os avanços no campo da detecção de mentiras, mais especificamente a tecnologia conhecida como "brain fingerprinting" (impressões digitais do cérebro), para concluir que não confio muito nesse conceito.
Diferentemente dos polígrafos tradicionais, que procuram distinguir respostas verdadeiras de falsas através da expressão fisiológica de alterações emocionais próprias de quem mente, a técnica de impressões cerebrais devassa diretamente as memórias do possível enganador.
Como ensina o doutor Larry Farwell, que desenvolveu --e patenteou-- a técnica, a diferença entre o culpado de um crime e o inocente é que o perpetrador guarda em seu cérebro detalhes do delito de que outros não têm conhecimento. O que o novo equipamento promete fazer é detectar a presença ou a ausência dessas memórias.
Você apanha o suposto criminoso, enche sua cabeça de eletrodos ligados a um eletroencefalógrafo especial e o apresenta a uma série de estímulos, alguns relacionados ao crime e outros neutros, para controle. As respostas cerebrais são então analisadas para determinar se a informação relevante se encontrava ou não na mente do suspeito. O pressuposto aqui é o de que existe um padrão de mobilização de memórias quando o cérebro reconhece algum objeto, pessoa, ambiente, etc.
Essa reação imediata, que seria expressa por uma onda conhecida como p300, ocorre em frações de segundos automática e involuntariamente. Não seria, portanto, possível para um inocente simulá-la ou para um criminoso suprimi-la. Mais detalhes de como funciona a tecnologia podem ser encontrados no site brainwavescience, mas já advirto de que se trata de uma página comercial, voltada a promover as "maravilhas da nova técnica".
Apesar de meu tom levemente irônico, não deve o leitor julgar que estamos aqui diante de brincadeiras como os analisadores de voz vendidos pela internet que prometem "revelar todos os segredos". Pesquisas com a onda p300 ocorrem desde os anos 60, e a tecnologia do doutor Farwell vem sendo objeto de artigos científicos publicados em "journals" de boa reputação. Mais do que isso, o sistema já foi considerado admissível pela Suprema Corte do Estado norte-americano de Iowa. Atualmente, Farwell tenta tirar do corredor da morte um condenado por duplo homicídio em Oklahoma cujo teste sugere inocência.
Qual é o problema então com as impressões cerebrais? Bem, para começar, está longe de ser um consenso entre pesquisadores que já possamos detectar padrões precisos de onda p300 a partir dos quais possamos inferir verdades e mentiras. Mesmo que o doutor Farwell já tenha conseguido isso, seu sistema ainda precisa ser mais bem experimentado.
O próprio site da empresa que vende a técnica fala em testes com mais de 200 indivíduos. Isso é muito pouco. Afiguremo-nos que exista uma mutação genética em certas pessoas que altera as proteínas envolvidas com a fixação de memórias no hipocampo, gerando diferenças no padrão da onda p300. Imaginemos ainda que essa mutação ocorra numa taxa de 1 para cada 100 mil nascimentos. Bem, para descobrir essa anomalia --que bastaria para invalidar a tecnologia como prova conclusiva em juízo-- precisaríamos testar algumas centenas de milhares de indivíduos.
Essa, contudo, não é a minha principal objeção. Até admito que a idéia de confrontar o suspeito com suas memórias é engenhosa e poderá --quem sabe-- no futuro revelar-se uma ferramenta auxiliar útil no campo da ciência forense, a exemplo da PCR (reação em cadeia da polimerase) e dos testes de DNA. O que me incomoda com as impressões cerebrais é a concepção nela embutida de que existem uma mentira e, conseqüentemente, uma verdade prontos a serem identificados no fundo de nossas almas.
Receio que as coisas sejam um pouco menos simples do que isso. Para além das óbvias dificuldades para definir o que seja verdade, a verdade é que nós, homens, mulheres e crianças, mentimos para os outros e para cada um de nós o tempo todo. Mais do que uma compulsão, a mentira, e o auto-engano em particular, é uma estratégia de sobrevivência, uma segunda natureza.
Uma bela explanação desses mecanismos está em "Auto-Engano" (Companhia das Letras), do Eduardo Giannetti, obra que já abordei numa coluna antiga.
O atributo não é exclusivamente humano. Do camaleão que muda de cor para confundir predadores à cobra que simula ser peçonhenta, a natureza é pródiga na mentira. (Não resisto aqui a um parêntese teológico. Se tudo emana de Deus, a exuberância do embuste no mundo natural nos levaria a concluir que o Criador tem lá sua quedinha pelo logro, o que poderia constituir um leve embaraço para a prova ontológica, que procura deduzir o Ser Supremo de sua perfeição, afugentando assim a hipótese do gênio maligno de Descartes).
Voltando às mentiras humanas, já está tudo em Piaget: "A tendência à mentira é uma tendência natural [...] ela faz parte do pensamento egocêntrico da criança [...] ainda aos seis anos ela não sente realmente nenhum obstáculo interior à prática da mentira [...] mente mais ou menos como inventa ou brinca". E, pelo menos no gênero humano, mentirá melhor (e terá mais sucesso) aquele que acreditar na própria ilusão. Assim, não chega a ser um despropósito que, de alguma forma, Dom Juan acredite em suas palavras ao jurar amor eterno a cada uma de suas amantes e que apesar do clichê o gordo esteja verdadeiramente disposto a iniciar sua dieta na "próxima segunda-feira".
O auto-engano é vital para a nossa sobrevivência e, no caso dos namoradores compulsivos, para a transmissão de genes. Não fosse por nossa capacidade de nos iludir, construindo-nos uma auto-imagem aceitável, a vida seria insuportável. Uma apreciação objetiva de todos os nossos defeitos e erros tenderia a levar-nos ao suicídio. Ninguém com algum senso moral conseguiria conviver com o crápula que às vezes pode ser.
A pergunta que fica é se as impressões cerebrais, ao pretender fundar uma dicotomia neuronal entre verdade e mentira, dão conta desse universo mais amplo. Não estou afirmando que a onda p300 não poderá, em determinadas circunstâncias, ajudar na elucidação de crimes --embora isso ainda esteja por ser provado--, mas daí a sugerir que a Verdade com V maiúsculo esteja escondida sob nossos neurônios vai uma grande distância.
Não tanto porque a técnica seja falha, mas porque essa Verdade simplesmente não existe. Se há uma característica que nos constitui como seres humanos, ele é justamente a mentira, a ilusão, a impostura, a fraude, o engano. Fomos nós que criamos a idéia de mentira e dela nos utilizamos cotidianamente, mesmo que não tenhamos consciência disso. Eliminar o logro de nossas vidas --como os neopolígrafos insinuam poder fazer-- seria apagar traços constitutivos de nossa própria humanidade.
PS: Agradeço ao leitor Weyler Galvão, da psicobiologia da Unifesp, a ajuda na elucidação de minhas dúvidas ao escrever esta coluna. Os prováveis erros são de minha inteira responsabilidade.
![]() |
Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
