Pensata

Hélio Schwartsman

09/09/2004

A tragédia de Beslan e o amor às crianças

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Por que a tragédia da escola russa nos toca tão profundamente? Um primeiro esboço de resposta está contido na própria descrição dos acontecimentos.

A malta de terroristas invadiu a escola de Beslan, na Ossétia do Norte, Rússia, no primeiro dia de aula e também o mais festivo do ano, quando centenas de crianças acompanhadas de familiares prestam homenagens aos professores.

Os perpetradores tomaram cerca de 1.200 reféns, mantendo-os em condições desumanas. Sem água por mais de 50 horas sob o forte calor do verão no Cáucaso, algumas crianças beberam a própria urina para aplacar a sede.

Os seqüestradores puseram cargas explosivas no teto do ginásio da escola, onde estava parte dos civis, e ameaçaram executá-los caso as exigências políticas do grupo não fossem atendidas pelo governo russo. Cumpriram a ameaça. O saldo da ação foi funesto: 366 mortos, dos quais 156 crianças.

Alguém aqui poderia objetar que a desastrada intervenção das forças de segurança russas contribuiu para a tragédia. É verdade, mas não foram os soldados que invadiram uma escola, tomaram reféns e os colocaram no meio de uma barganha política que sabiam fadada ao fracasso. Por mais que desaprovemos a política de Putin para a Tchetchênia, a responsabilidade pela barbárie em Beslan é dos terroristas e não do governo russo, que, no máximo, demonstrou sua incompetência para lidar com situações dessa natureza.

É claro que essa história é pavorosa, mas quase todos os relatos de mortes de inocentes por mãos de terroristas o são. E, de algum modo, ficamos mais chocados com o infortúnio das crianças de Beslan do que com os 12 trabalhadores nepaleses assassinados --pelo menos um deles decapitado-- na mesma semana no Iraque ou com as pessoas que pereceram sob os escombros do World Trade Center em Nova York em 2001. É claro que o número de baixas e a forma de matar importam para o nosso sentimento de revolta, mas arrisco afirmar que, no caso, o que mais pesa é o fato de as vítimas serem crianças. Pior, o fato de os terroristas terem escolhido especificamente um alvo que resultaria em presas infantis.

A pergunta que se coloca, então, é por que a morte de crianças nos toca mais do que a de adultos? Parte da resposta está na biologia. Com efeito, o homem não é o único mamífero que parece ter um carinho especial por filhotes, da sua espécie e de outras. Cadelas, lobas e gatas freqüentemente adotam órfãos. Entre primatas, esse comportamento é ainda mais disseminado. Gorilas, chimpanzés e bonobos fêmeas chegam a fazer as vezes de babá umas para as outras para que a mãe possa dar uma "saidinha". Há até dois casos de bebês humanos que caíram em jaulas de gorilas em zôos americanos e foram socorridos por fêmeas dessa espécie.

Não é difícil vislumbrar a vantagem que a atitude benévola para com crianças traz para a espécie, mas difícil é compreender como chegamos a ela. Nunca é demais lembrar que genes não estão nem aí para a espécie.

Na verdade, também não estão nem aí para o indivíduo. Sua "preocupação" (estou usando linguagem figurada, nunca é demais ressaltar) é conservar a informação contida numa determinada seqüência de genes.

O sucesso se mede pela manutenção das características codificadas por esses genes através de sucessivas gerações. Acessoriamente, isso implica que o indivíduo sobreviva até a maturidade sexual, gere descendentes e, dependendo da espécie, ainda reserve um tempinho para cuidar da prole.

Nesse contexto fica mais fácil entrever a vantagem da generosidade com os bebês. Ela se inscreve no quadro geral do altruísmo e das estratégias cooperativas. Freqüentemente é melhor eu me dar bem com o meu vizinho do que tê-lo como inimigo. Ainda que possamos disputar alimentos e mulheres, juntos somos capazes de enfrentar ameaças às quais sucumbiríamos se agíssemos separadamente.

No caso infantil, se eu for generoso com os bebês alheios, posso esperar que os outros façam o mesmo com o meu --esta é a base da cooperação--, hipótese em que aumentam as chances de sobrevivência de meu filho (e de seqüências de genes que temos em comum) mesmo que eu morra.

O homem, porém, não é apenas animal. Para o bem e para o mal, ele apresenta uma dimensão cultural que vai além da biologia, ainda que ela permaneça a base de tudo. É no contexto da cultura que criamos para nós imagens da infância que sejam adequadas a nossa realidade social e econômica. Quem trabalhou muito bem esse tema foi o historiador francês Philippe Ariès, autor de algumas obras sobre o assunto.

De maneira muito esquemática, Ariès sustenta que o amor que hoje sentimos pelos nossos filhos é uma criação recente. Ele só surge a partir do final do século 18, quando as taxas de fecundidade e mortalidade começam a reduzir-se. Antes disso, expedientes como o infanticídio e a venda de crianças eram bastante comuns.

Numa leitura generosa para com nossos bisavós, pais não desenvolviam amor por seus filhos até como forma de defesa psicológica contra a alta probabilidade de os petizes morrerem.

Não sei se acredito muito nessa interpretação benévola. Se ela for verdadeira, teríamos de concluir que mães de regiões miseráveis do planeta gostam menos de seus filhos do que as de países prósperos, tese que jamais foi demonstrada e não creio que possa sê-lo.

Seja como for, Ariès apresenta "provas" convincentes de que a infância no "ancien régime" era vista de um modo muito diverso do de hoje. Uma criança não passava de um projeto de adulto, só que com algumas desvantagens. As últimas características que esses serezinhos desenvolviam eram a razão e a lógica, o que os tornava verdadeiros débeis mentais à espera do sopro da inteligência. Não é à toa que praticamente não aparecem na literatura clássica francesa.

A idéia de que houvesse alguma especificidade da infância soaria exótica. Pais não viam, por exemplo, nenhum inconveniente em fazer sexo diante de seus filhos de sete, oito anos em atitude que horrorizaria os educadores de hoje. Para Ariès, a função da família no antigo regime era basicamente a de perpetuar o patrimônio e os costumes. O amor aos filhos, tornado central para a família moderna, era perfeitamente dispensável então.

Não precisamos estar inteiramente de acordo com Ariès para perceber que o conceito de infância muda constantemente. A valorização da família burguesa a partir do século 19 coloca a infância, se não num pedestal, ao menos em lugar mais elevado do que se encontrava antes.

De algum modo, nosso imaginário transforma o que homem do "ancien régime" via como estupidez e irracionalidade em inocência e pureza. É claro que os estereótipos tendem a ser exagerados.

A inocência e a pureza são evidentemente relativas. Uma das razões pelas quais Freud chocou a sociedade "vitoriana" do início do século 20 foi afirmar que crianças têm sexualidade e a exercem. Ainda hoje, essa noção não é muito bem aceita.

Mais recentemente, aprendemos a ver --e admirar-- até mesmo o que identificamos como processos típicos da infância, como os descritos por Piaget. Agora nós não apenas valorizamos as crianças, mas também a idéia de infância.

De algum modo, características sociais e econômicas de nossa época e a própria ideologia do período nos levam a exacerbar o amor às crianças que, embora tenha base biológica, nem sempre se manifestou de forma tão inequívoca e disseminada por várias culturas.

É justamente pelo caráter muito disseminado do respeito à infância que os terroristas escolheram a Escola Nº 1 de Beslan para atacar. Numa era em que a informação chega instantaneamente a todas as partes do globo, surge também o terrorismo-espetáculo, no qual não basta difundir o medo, é preciso também que a ação seja a mais chocante.

Na tentativa de romper com toda negociação possível --com a idéia mesma de política--, os ideólogos do terror se lançam contra aquilo que a maioria considera inatacável: crianças, que, no imaginário, ainda são o protótipo da inocência.

Não creio que crianças sejam assim tão inocentes nem que o terrorismo seja a materialização da insânia --infelizmente, eles atuam de modo sombriamente racional. O que me parece fundamental é que os terroristas perderam aquela parcela da animalidade que faz com que até macacos percebam que a melhor forma de viver em sociedade é se relacionando politicamente --isto é, negociando-- com seus semelhantes e não os explodindo.

Hélio Schwartsman, 43, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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