Hélio Schwartsman
Explicando a piada
_- Seu cara de xixi!
- Seu cara de cocô!
- Seu cara de barata!
(Risos desbragados)_
Esse diálogo, real, foi travado há poucos dias por meus filhos gêmeos, Ian e David, que estão agora com dois anos e oito meses. Observá-los a interagir e a rir tão sincera e gostosamente é uma das mais gratificantes experiências da dupla paternidade. Compensa as inúmeras vezes em que eu ou a mãe somos obrigados a desengalfinhá-los quando disputam o mesmo brinquedo ou a repreendê-los quando subtraem com uma dentada um pedaço ao irmão que não cedeu às suas extravagâncias.
Sim, eu admito, sou um pai coruja, mas ainda não perdi por completo a noção da realidade: Como o senso de humor deles pode ser tão ruim? Onde está a graça em chamar o outro "cara de + nome feio"?
Não sou o primeiro que se depara com os paradoxos ensejados pelo riso. O humor permanece, desde os primórdios, um desafio para filósofos e, mais recentemente, para neurocientistas. Na verdade, não sabemos direito por que rimos e muito menos por que rimos de bobagens.
Do ponto de vista fisiológico, rir é um reflexo, mais especificamente uma resposta do sistema nervoso autônomo --no caso, o vago parassimpático-- a um estímulo. O problema é que, ao contrário de outros reflexos, o riso não possui um propósito claro como tem, por exemplo, o fechamento dos olhos quando da aproximação de um objeto. Devemos admitir que o riso é importante ou a evolução não o teria preservado, mas não sabemos explicar bem por quê.
Rir também é o único reflexo que pode ser disparado por atividades altamente intelectualizadas como a leitura. O filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) em seu saboroso "Le Rire" (o riso) define o cômico como essencialmente humano. Mesmo quando rimos de um chapéu engraçado, não estamos rindo do pedaço de feltro ou palha, mas da forma que lhe foi dada pelo "capricho" de uma pessoa.
Sendo o humor mais um universal humano, ele deve obedecer a determinadas regras que explicam a um só tempo sua presença em todas as sociedades e a enorme variação de formas e estilos a que está sujeito. Na tentativa de lançar algumas luzes sobre essas normas, recorro ao verbete "Humour and Wit" (humor e espirituosidade), da "Encyclopaedia Britannica", elaborado por ninguém menos do que o escritor Arthur Koestler (1905-1983). Retomando a discussão sobre a "gramática" do humor, Koestler afirma que rimos quando percebemos um choque entre dois códigos de regras ou de contextos, todos consistentes, mas incompatíveis entre si.
Um exemplo: "O masoquista é a pessoa que gosta de um banho frio pelas manhãs e, por isso, toma uma ducha quente". Cometo agora a heresia de "explicar" a piada. Aqui, o fato de o sujeito da anedota ser um masoquista subverte a lógica normal: ele faz o contrário do que gosta, porque gosta de sofrer. Obviamente, a lógica normal não coexiste com seu reverso, daí a graça da pilhéria. Uma variante no mesmo padrão, mas com dupla inversão é: "O sádico é a pessoa que é gentil com o masoquista".
Outro bom exemplo é o do médico que conforta seu paciente dizendo: "Você está com uma doença muito grave. De cada dez pessoas que a pegam, apenas uma sobrevive. E você está com sorte, pois eu acabo de perder nove pacientes que tinham essa moléstia". O gozado aí emerge da oposição entre a abstração estatística e o a concretude do caso real do paciente. Sabemos que a estatística só vale se não a tentarmos aplicar a casos concretos. Também sabemos que as chances de um dado evento ocorrer independem de eventos anteriores. Embora o senso comum não acredite muito nisto, alguém que aposte nos números 1, 2, 3, 4 e 5 na loto tem as mesmas chances de ganhar que outro que jogue em números dispersos. A piada confunde todos esses planos.
Essa estrutura de choque de contextos excludentes entre si está presente em todas as pilhérias. Até no mais infame trocadilho, há um confronto inesperado entre o significado da palavra e o seu som: "A ordem dos tratores não altera o viaduto".
No caso dos impropérios-piadas trocados entre meus filhos, a oposição se dá entre a esfera das palavras e a da realidade. É porque o irmão não é uma barata nem excrementos --e ambos sabem disso-- que se torna "engraçado" (vá lá) chamar o outro por esses nomes.
Podemos agora traçar uma escala do humor, dos mais primitivos aos mais sofisticados. Bebês, que também são capazes de rir, deliciam-se com caretas e imitações. Garotos como os meus estão na fase em que adoram piadas escatológicas. Quanto mais cocô, xixi e xingamentos, melhor. Já adolescentes gostam especialmente de anedotas sexuais. À medida que crescem, vão --espera-se-- buscando formas mais sofisticadas e cerebrais.
Essa "gramática" dá conta da estrutura intelectual das piadas, mas há outros aspectos em jogo. O humor também encerra dinâmicas emocionais. Ele de alguma forma se relaciona com a surpresa. Kant diz que o riso é o resultado da "súbita transformação de uma expectativa tensa em nada" ("Crítica do Juízo", I, 1, 54). Rimos porque nos sentimos aliviados. É nesse contexto que se torna plausível rir de desgraças alheias. Não necessariamente estamos felizes pelo infortúnio do outro, mas sentimo-nos aliviados com o fato de não termos sido nós a vítima.
Mais ou menos na mesma linha caminha Sigmund Freud, que também é autor de um livrinho sobre o humor ("O Chiste e Sua Relação com o Inconsciente"). Para o pai da psicanálise, gracejos funcionam um pouco como os sonhos. Têm força orgásmica e também revelam impulsos inconscientes.
É o aspecto emocional, acredito, que torna muito freqüente no humor um elemento menos bonito: a crueldade. Como observa Bergson, muitas piadas exigem "uma anestesia momentânea do coração". Nos gracejos mais elaborados essa crueldade quase desaparece, mas ainda deixa algum traço, na forma de "malícia", "esperteza" ou mais simplesmente na suspensão da solidariedade para com a vítima (sim, piadas geralmente têm vítimas). Bergson vê o riso como um "gesto social". Para o filósofo, o temor de tornar-se objeto de riso reprime as excentricidades do indivíduo. É uma espécie de superego social portátil.
Na visão bergsoniana, o riso deixa assim de ser um movimento puramente estético, à medida em que visa também ao aperfeiçoamento da sociedade. Mas, ao mesmo tempo, conserva algo de puramente estético, porque os homens, quando já não se preocupam unicamente com sua sobrevivência individual e do grupo, podem "dar-se como espetáculo aos homens".
Aqui, talvez inadvertidamente, descobrimos um novo aspecto no humor. Apesar de cruel, muitas vezes de mau gosto e até chauvinista, o riso pode ser altamente criativo. Ele está na base não apenas de brincadeiras mas também das ciências e das artes. Como observa Koestler, a descoberta científica consiste em enxergar uma analogia onde ninguém vira nada antes. O feito de William Harvey foi ter visto o coração de um peixe como uma bomba mecânica, fazendo assim a primeira descrição científica do aparelho circulatório. O físico lorde Kelvin propôs um dos primeiros modelos atômicos da era moderna comparando a estrutura interna do átomo a um pudim de passas, sistema esse que foi celebrizado por sir Joseph John Thomson, o descobridor do elétron. Essa representação foi substituída por outra analogia, esta sugerida por Ernest Rutherford, que descreve a estrutura do átomo como planetas (elétrons) orbitando o sol (núcleo). Em todos esses casos o que temos é a sobreposição de duas lógicas originalmente incompatíveis, como preconiza a gramática do humor.
A arte também opera de modo análogo. As grandes tragédias gregas, por exemplo, brotaram do confronto entre dois sistemas que se excluem: a justiça dos deuses e a dos homens. A perdição de Édipo não é muito diferente da piada do masoquista, em que os homens, tentando ludibriar o destino, acabam empurrando o pobre herói para as garras daquele mesmo destino que tentavam evitar.
Ian e David vão ensaiando seus primeiros passos no intricado multiverso de lógicas incomensuráveis que habitam nosso mundo. O fato de fazerem piada é um sinal de que tentam assenhorar-se dessas complexidades. Eu mentiria se dissesse que não espero que eles se tornem um dia bons cientistas e/ou artistas. Mas a pedagogia ensina-me que devo estar atento para não projetar meus desejos nos meninos. Assim, eu me contentarei se eles pelo menos refinarem um pouco seu hoje péssimo senso de humor.
![]() |
Hélio Schwartsman, 44, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
