Pensata

Hélio Schwartsman

25/11/2004

Salvem as baleias

Como faz a cada quatro anos, a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) divulgou a sua "lista vermelha" das espécies ameaçadas. O relatório enumera 15.589 tipos de ser vivo em perigo de extinção. Destes, 7.266 são animais, e 8.323 vegetais e liquens. Figuram nas categorias "gravemente ameaçados", "ameaçados" ou "vulneráveis". Há um aumento de 3.000 espécies em relação ao estudo de 2000.

Tudo isso é, evidentemente, muito aproximativo. Na verdade, nem ao menos sabemos quantas são as espécies que habitam o planeta. Até as estimativas variam bastante, ficando entre 3,5 milhões e 150 milhões. Um intervalo menos exuberante de 10 milhões a 100 milhões é o mais freqüentemente citado. Até agora, foram descritos cerca de 2 milhões.

A lista da IUCN é o que há de mais confiável nesse campo algo pantanoso. Ela é elaborada com a ajuda de 10 mil especialistas de 180 países. A classe que corre maior perigo é a dos anfíbios, entre os quais 21% do total de espécies estão "ameaçados" ou "gravemente ameaçados". Em relação aos mamíferos, a cifra é de 10%. Para os pássaros, 5%.

O Brasil ocupa lugar de destaque no relatório da IUCN, pois está --ao lado da Austrália, do México, da China e da Indonésia-- entre os cinco países que abrigam mais espécies sob algum tipo de risco. É óbvio que essa posição não implica que tratemos outros seres pior do que as demais nações. Ela é conseqüência de o Brasil ser o detentor da maior biodiversidade do planeta.

Entre as principais causas de pressão ambiental contam-se a superexploração de recursos naturais, a destruição de habitats, a competição com animais e vegetais estranhos a um ecossistema e que nele foram introduzidos pela ação humana, além de mudanças climáticas antropogênicas.

Deixemos agora a "lista vermelha" de lado e coloquemos a questão fundamental: por que devemos proteger outras espécies. A eventual desaparição de um mosquito ou até de um mamífero mudaria a natureza do mundo?

Há duas ordens de argumentos para defender a preservação. A primeira é essencialmente prática, egoísta até. Desequilíbrios mais profundos podem afetar o homem, suas lavouras e rebanhos. Mais, é possível que algum animal ou planta produza uma proteína ainda não descoberta que tenha interesse para a indústria farmacêutica. Com a extinção de um sapo da Amazônia, por exemplo, poderíamos inadvertidamente estar dando adeus a uma chave bioquímica para a cura do câncer.

São raciocínios interessantes, mas que não bastam para explicar, por exemplo, o amor de alguns de nossos companheiros humanos pelas baleias. Apesar de muito simpáticos, nossos amigos cetáceos não são fundamentais para o equilíbrio do ecossistema global. Baleias estão no topo da cadeia alimentar e o número de seus indivíduos já é reduzido. O eventual desaparecimento de alguma espécie dificilmente daria lugar a uma perigosa reação em cadeia que afetasse profundamente os oceanos e, portanto, o homem. Nós também já as retalhamos bastante e conhecemos relativamente bem seu organismo. É muito improvável que guardem em seu proteinoma a cura de moléstias graves para humanos

Na verdade, se levarmos o argumento utilitarista às últimas conseqüências, deveríamos propugnar abertamente pela extinção de algumas espécies, como mosquitos do gênero Anófele, vetor da malária. Não por acaso, "anôphelés" em grego significa inútil, nocivo. A rigor, poderíamos dizer o mesmo de todos os micróbios patógenos ou de seres que sirvam de elo de transmissão para doenças que nos afetam. Não há muita dúvida de que o mundo seria um lugar mais convidativo para nós humanos sem algumas bactérias e vírus (consideremo-los seres vivos aqui) que se especializaram em azucrinar e até destruir nossas vidas.

A outra linha de raciocínio em defesa da preservação da fauna e da flora é moral. Na versão caricata, bichos, como os homens, teriam direitos. Numa variante mais sofisticada, como a defendida pelo filósofo Peter Singer, a humanidade vem ao longo da história expandindo seu círculo de solidariedade moral. Nos primórdios, o homem ligava apenas para si mesmo e, às vezes, para a sua família. Com o decorrer do tempo passou a preocupar-se também com seus vizinhos, compatriotas irmãos de fé e, por fim, com todo o gênero humano, incluindo, categorias que até hoje despertam alguma polêmica, como criminosos, combatentes inimigos, deficientes mentais e embriões. Agora, alguns de nós começam a pensar em outros seres, principalmente aqueles em que reconhecemos algum grau de consciência. A perspectiva de extinção dos chimpanzés nos inquieta mais do que o desaparecimento de um obscuro tipo de besouro.

O argumento é obviamente limitado. Nossa solidariedade jamais poderá expandir-se para todos os seres vivos, a menos que aprendamos a alimentar-nos de pedras. E, se o fizéssemos, o que nos impediria, no futuro, de tentar abarcar também os minerais na comunidade de entidades titulares de direitos? O próprio Singer, controverso bioeticista australiano sobre cujas idéias já fiz uma coluna, tornou-se vegetariano, mas, ao que consta, não tem planos de converter-se em faquir ou freqüentar clínicas para o tratamento da anorexia.

A evidente finitude do círculo moral não o torna menos real. Só a crença moralista nos direitos dos animais explica a virulência e o fervor religioso com que grupos de ativistas atacam humanos que eles julguem estar violando a ordem cósmica ao maltratar bichos. Que o digam as mulheres que ousaram a aparecer vestindo casacos de pele em determinados eventos ou baleeiros noruegueses e japoneses que tentavam garantir o sustento de seus filhos. É meio estúpido, mas conseguimos envolver até outras espécies na estultícia que sempre cercou as guerras de religião.

Antes que me tomem por um inimigo dos animais e defensor da pavimentação da floresta amazônica, devo esclarecer que sou, sim, um preservacionista, embora não ache que estejamos autorizados a empregar a violência contra homens sob pretexto de salvar bichos. Antes de expandir o círculo de solidariedade para outros seres, precisamos aplicá-la mais universalmente aos de nossa própria espécie.

Cabe agora indagar pela base do círculo moral. A crer na sociobiologia, corrente da qual o próprio Singer é tributário, estratégias cooperativas não são de modo algum estranhas à flora, à fauna e à própria humanidade.

Numa hermenêutica rigorosa, como a proposta por Steven Pinker em seu "Tabula Rasa", elas constituem o fundamento mesmo da evolução. Foram elas que levaram moléculas de DNA a agrupar-se em cromossomos, organelas a juntar-se em células, células a aglomerar-se em organismos complexos e estes a formar sociedades mais ou menos organizadas. Quando procuramos preservar outras espécies estamos de algum modo nos impondo a disciplina de não abusar tanto do ambiente, algo que tende a reverter em benefício, se não de nós mesmos, ao menos de gerações futuras.

São considerações que talvez expliquem a importância de tentarmos evitar a extinção do maior número possível de espécies, mas, por outro lado, elas nos lançam diante de um novo problema, filosófico, mais difícil de resolver: se o que nos move para a solidariedade é o auto-interesse, já não faz sentido falar em solidariedade. O gesto desinteressado se torna uma impossibilidade, e nós nos tornamos pouco mais do que monstros sensíveis apenas a nossos impulsos egoístas.

Aqui, a melhor maneira de evitarmos a armadilha é não confundir a causa última, o auto-interesse que está na base do sentimento de solidariedade, com sua causa próxima, isto é, com os diversos estímulos que podem disparar o mecanismo psíquico do altruísmo que indubitavelmente carregamos conosco. No limite, tudo o que somos capazes de fazer e sentir tem o propósito último de nos manter vivos e copulando. Isso não torna menos reais os nossos sentimentos. Em outras palavras, não é porque neurologicamente apenas pensamos que pensamos que deixamos de de fato pensar.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca