Hélio Schwartsman
Terra sem fim
Há exatos 364 dias eu escrevia neste mesmo espaço algumas observações sobre o terremoto de Bam, no Irã, que deixou cerca de 40 mil mortos. Vejo-me hoje compelido a voltar a fazer considerações sísmicas, devido aos mortíferos tsunamis que devastaram o sul da Ásia, produzindo um saldo ainda provisório de mais de 150 mil mortos. Ambos os cataclismos ocorreram num 26 de dezembro, um dia após o Natal, e tiveram seus epicentros em países majoritariamente muçulmanos. Coincidência? Ira divina?
Não é só. Os dois desastres tiveram seus efeitos magnificados (ou pelo menos não reduzidos) pela pobreza e desorganização típicas do terceiro mundo. No caso iraniano, edificações de péssima qualidade, incompatíveis com áreas sujeitas a tremores, simplesmente se esfacelaram sobre as cabeças das pessoas. Na Ásia, as regiões costeiras hiperpovoadas não contavam com um sistema de alerta para tsunamis, que poderia ter preservado milhares de vidas. A culpa é do homem? Uma vingança da natureza contra a má ocupação do solo?
Se há um elemento comum nas duas "respostas" que procurei esboçar acima, é justamente a tentativa de apresentar-se como "resposta". De algum modo, precisamos encontrar explicações --e culpados-- que julguemos satisfatórias para tamanho desperdício de vidas. A idéia de que tanta destruição possa ser apenas fruto de um movimento aleatório e imprevisível não nos parece aceitável, daí que buscamos identificar padrões, sejam eles herméticos, como no caso da ira de Deus, ou plenamente racionais, como na hipótese de mau uso do terreno.
E, já que mencionamos padrões esotéricos, seria oportuno recordar a própria origem da palavra "padrão", que veio do termo latino "patronus, i", significando "protetor", "advogado", "arrimo". Nesse contexto etimológico, procurar um padrão torna-se algo como buscar segurança, apoio. Não sei se isso esclarece muita coisa, mas reforça a tese que estou procurando demonstrar, que é a da nossa (humana) incapacidade para lidar com o aleatório, principalmente quando provoca eventos de proporções maiúsculas. De algum modo, temos dificuldade para aceitar a subordinação de nosso mundo de dimensões confortavelmente humanas a perturbações randômicas que se apresentam em escalas geológicas.
É claro que eu defendo esforços de prevenção. A engenharia antitremor já foi posta à prova em regiões ricas e de alto risco de terremotos como o Japão e a Califórnia e demonstrou que funciona. Se um sismo semelhante ao que atingiu a região de Kobe, no Japão, em 1995 (6,9 na escala Richter) tivesse afetado uma parte pobre e densamente povoada da Índia, os 5.000 mortos registrados em terras nipônicas certamente se multiplicariam várias vezes.
Inversamente, se um tremor como o do oceano Índico tivesse ocorrido no Pacífico, onde existem mecanismos de previsão de tsunamis e populações informadas sobre como devem agir nessas situações, alguns milhares de vidas provavelmente teriam sido poupados.
Não se pode, porém, perder de vista a desproporção das escalas. Um terremoto de 9 graus Richter como o que provocou os tsunamis libera energia equivalente à da explosão de 31,8 bilhões de toneladas de TNT, segundo cálculos do US Geological Survey. A título de comparação, a bomba de Hiroshima tinha 15 mil toneladas. Feitas as contas, a energia equivalente a 2,12 milhões de bombas que devastaram a cidade japonesa foi liberada na forma de ondas gigantescas. Por mais preparada que parte da humanidade possa estar para ocorrências dessa natureza, é evidente que teria havido enorme destruição e perda de vidas a contar-se na casa de várias dezenas de milhares. A dimensão do abalo sísmico foi absolutamente inumana. Chegou a modificar a rotação da Terra e, em poucos segundos, deslocou até 20 metros porções da crosta a sudoeste da ilha de Sumatra. Normalmente, placas tectônicas movimentam-se à razão de poucos centímetros por ano. Gostemos ou não, o homem e suas cidades são menos que um mero grãozinho de areia diante de manifestações telúricas como essa. E, vale lembrar, a própria escala geológica é diminuta diante daquela em que se dão os eventos cósmicos.
Voltando ao problema humano, temos dificuldades para conceber --e mais ainda para admitir-- que forças assim tão formidáveis não sejam contidas por nenhum poder benigno, uma Providência divina. Mesmo quando queremos prescindir dela, agarramo-nos a razões terrenas como a ausência de um sistema de alerta para explicar o desastre. No limite, fazemos exatamente o que eu estou fazendo, que é, a partir da constatação de que a desgraça foi aleatória e sem propósito (benigno ou maligno), elaborar uma narrativa que, de algum modo, organize e procure dar sentido ao que não o tem.
Desconfio de que essa nossa necessidade teleológica de encontrar um desígnio --ou pelo menos um "responsável"-- para tudo tenha origem evolutiva. Cometo agora o que pode ser considerado uma heresia, mas que não será minha primeira nem (espero) a última.
É conhecido o argumento da aposta em Deus, do filósofo e matemático Blaise Pascal (1632-1662), exposto em seu magistral "Pensées" (Pensamentos). Pascal nos convida a considerar as vantagens e desvantagens de acreditar no Deus revelado do cristianismo. Vamos supor que eu não creia e leve uma vida concupiscente, sempre em busca do maior número possível de prazeres físicos. Se a religião é falsa e eu vivi como um devasso, tudo bem --gozei meus prazeres. Por outro lado, se ela for verdadeira, terei problemas, pois estarei condenado à danação. Na outra hipótese, eu aposto que a religião é verdadeira e levo uma vida regrada, segundo os bons preceitos cristãos. Se a religião for falsa, terei renunciado a uma vida com mais prazeres carnais, mas, se ela for verdadeira, terei ganhado a salvação eterna, um prêmio em muito superior aos prazeres passageiros. Assim, conclui Pascal, é de nosso interesse agir como se a religião cristã fosse verdadeira.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado à tendência humana à superstição e à busca por padrões onde eles não existem. No ambiente adverso em que viveram nossos ancestrais, o indivíduo que enxergasse regras e conspirações por todos os lados podia agir como um tolo a maior parte do tempo, mas, na hipótese provavelmente rara de a sua suposição ser acertada, ele sobrevivia e deixava descendentes para contar a história. Aquele que acreditasse que os trovões eram a manifestação da ira divina e permanecesse em sua caverna durante a tempestade corria menor risco de ser fulminado por um raio do que o cético que passeasse em campo aberto sob a chuva.
Crendices, apego a presságios, magia e outras manifestações religiosas primitivas já tiveram e possivelmente ainda tem valor adaptativo. Não interessa à seleção natural se agimos ou não racionalmente. O prêmio da sobrevivência em muito supera os eventuais "micos" que nossos antepassados possam ter pagado por acreditar em bobagens como não passar por baixo de escadas, não apanhar o sal com a mão esquerda etc. etc. (A lista de sandices é interminável). E bastava que a hipótese supersticiosa funcionasse uma vez para fazer a diferença entre viver e deixar descendentes ou morrer sem espalhar seus genes.
Milhares de anos de seleção genética que favoreceu a credulidade não se desfazem com poucos séculos de ambiente mais amigável para a abordagem racional dos problemas. Mesmo num contexto científico, em que sabemos por que terremotos acontecem e quais forças os provocam, ainda temos dificuldade para aceitar o caráter ao mesmo tempo aleatório e mortífero do fenômeno. Ao que tudo indica, seguiremos ainda por milênios em tentativas entre canhestras e ilusórias de extrair sentido daquilo que não o tem.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
