Hélio Schwartsman
...Poucos, mas bons
Contrariando as práticas do bom jornalismo, que recomenda sempre começar os textos relatando a notícia nova, inicio a coluna de hoje com um pedido de desculpas a todos os leitores que me escreveram por conta do artigo da semana passada, intitulado "Universidade para Poucos", e não obtiveram a merecida resposta. É que eu simplesmente não consegui dar vazão ao volume da correspondência. A maioria das mais de cem mensagens que recebi era de apoio às minhas idéias, inclusive a de vender diplomas universitários em papelarias e casas lotéricas por apenas R$ 10,00. Agradeço-as todas. Interessam-me aqui, contudo, os e-mails com críticas, a cujos missivistas também manifesto minha gratidão.
A principal objeção, como não poderia deixar de ser, foi ao tom elitista do texto, que afirmava que nem todos estão talhados para a vida acadêmica e que a Universidade deve ser reservada a poucos. "Pauci sed boni" (poucos, mas bons), como assevera a máxima latina.
Acredito que possa ter ocorrido uma confusão terminológica. Quando falo em "Universidade", penso no modelo acadêmico clássico, que pressupõe professores-pesquisadores e alunos com ambições de também tornarem-se cientistas ou intelectuais --e preparo para tanto. Isso não implica que pessoas que não preencham esses requisitos devam fugir da escola. É até um truísmo afirmar que, quanto mais alguém estude, melhor. Só que o tipo de educação deve ser bem dirigido. Deve servir para ampliar os horizontes de conhecimento do aluno sem, entretanto, exigir-lhe metas irrealizáveis, que geram custos monetários e anímicos meio idiotas, pagos pelo próprio estudante ou, no que concerne à parte financeira, pelo Estado em projetos como o ProUni (Programa Universidade para Todos).
Eu defendo que se multipliquem as oportunidades de cursos superiores --mas não necessariamente em Universidades. O Brasil tem muito a avançar nesse terreno. Nossa taxa de escolarização no terceiro grau é de ridículos 16,5%, quando a média para os países em desenvolvimento (isto é, pobres, mas não paupérrimos) é de 26,7%. Nas nações desenvolvidas, o índice médio é de 51%. Precisamos, portanto, manter faculdades privadas, mas é preciso que o ensino oferecido apresente níveis mínimos de qualidade, ou estaremos apenas manipulando as estatísticas --hipótese em que a venda de diplomas em papelaria seria mais eficaz.
É fundamental também que ampliemos a oferta de ensino técnico. É principalmente aí que o país tem a ganhar em termos de qualificação de mão-de-obra, o que tende a significar crescimento econômico. Nem as faculdades honestas nem o ensino superior técnico, contudo, devem confundir-se com a Universidade, voltada não apenas para a transmissão do conhecimento, mas para sua produção. Aqui, só devem ter lugar os melhores.
Imaginando ter esclarecido esse ponto, proponho uma outra questão: como promover maior igualdade através do ensino? Precisamos, antes de mais nada, admitir que as pessoas não são iguais. Devido a uma combinação de causas genéticas e ambientais --evito aqui entrar nas intermináveis polêmicas sobre o peso de cada uma delas--, alguns mostram mais aptidão que outros para a vida acadêmica. É sobre as causas ambientais que o poder público pode --e deve-- agir. Por maior que seja o potencial genético de uma criança, ela entra em enorme desvantagem no sistema se teve a infelicidade de nascer num lar miserável, com pai e mãe analfabetos, e no qual passa fome. Numa situação dessas é quase uma fatalidade que ela não possa desenvolver-se segundo suas potencialidades.
Cumpre, assim, analisar onde e como o Estado pode atuar com eficiência para tentar reduzir as desvantagens ambientais. É evidente que o processo precisa ter início na pré-escola e não apenas nas fases finais, como procuram fazer as cotas e o ProUni, por exemplo. Peço agora licença para citar o interessantíssimo livro "A Ignorância Custa um Mundo" (W11 Editores), de meu amigo Gustavo Ioschpe, riquíssimo em números e estudos. (Numa prova de que estatísticas são como postes para bêbados: servem mais para apoiar do que para iluminar, advirto que eu e Gustavo estamos muito freqüentemente em completo desacordo em nossas conclusões).
Voltando à obra, ela mostra de modo convincente que é preciso desbancar certos mitos. Não parece haver, por exemplo, correlação estatística significante entre maior salário do professor e melhor desempenho do aluno ou entre turmas menores e melhores notas. Dentre os vários fatores mensuráveis que afetam a performance do aluno, os que parecem ter maior efeito são a escolaridade dos pais a infra-estrutura das escolas. Estudos sugerem que a escolarização dos pais tem um impacto até três vezes maior sobre a escolarização dos filhos do que a dos professores. A correlação entre a instrução dos pais e a dos filhos é maior do que a verificada entre renda e escolarização, embora formação e riqueza tendam a convergir. No que diz respeito à infra-estrutura, há trabalhos mostrando que melhorias relativamente simples, como instalação de banheiros, bibliotecas e compra de carteiras em áreas rurais do Nordeste podem melhorar a performance dos alunos em testes em até 13%. (A crer nesse vínculo, a ex-prefeita Marta Suplicy tem toda razão em defender os CEUs, os verdadeiros clubes/centros de lazer para pobres que têm também salas de aula).
Vou um pouco mais longe e afirmo que a verdadeira revolução educacional no Brasil seria fazer com que os filhos de "doutores" freqüentassem as mesmas escolas públicas usadas pela grande maioria da população. Há razões para acreditar que o desempenho da elite não cairia muito, e o dos filhos de gente sem instrução aumentaria bastante. Alunos mais preparados e exigentes tendem a "puxar" a classe.
Há várias maneiras de tentar promover essa integração. A mais revolucionária, que jamais ocorrerá no Brasil, seria simplesmente banir as escolas particulares. Propostas mais tímidas --e democráticas-- incluem acabar com as deduções em educação no IR, o que afetaria mais a classe média média do que a média alta, para a qual algumas centenas de reais por filho por ano não fazem muita diferença.
Outra medida pela qual tenho grande simpatia é a criação de escolas públicas de nível fundamental e médio de elite. Se o ensino nessas unidades for realmente diferenciado, como requer a proposta, é razoável esperar que alguns alunos hoje em instituições privadas (pagas) as troquem pela rede pública (gratuita), num movimento que poderia trazer ainda mais qualidade e gerar um círculo virtuoso que até poderia se disseminar pelo sistema. O Brasil se tornaria assim um país "normal", em que a educação oferecida pelo Estado é quase universal e tem um nível médio bastante razoável, com algumas escolas mais fracas em áreas periféricas. O risco passaria a ser os bons alunos ricos "expulsarem" os pobres, mas esse é um problema para depois, que pode ser resolvido com uma política de transferências.
Enfim, precisamos ter consciência de que as pessoas são --felizmente-- diferentes em gostos, aptidões e capacidade para o estudo. A todos, porém, devem ser dadas chances tão justas quanto possíveis. O poder público precisa tentar reduzir as desvantagens que hoje assaltam os mais pobres. E é preciso agir desde a pré-escola ou ainda antes e em larga escala. Políticas como cotas beneficiam indivíduos particulares e apenas dão a ilusão de estar promovendo o gênero. Quanto à Universidade, com "U" maiúsculo, que no Brasil é pública, essa servirá melhor ao país se congregar os melhores alunos disponíveis, aqueles realmente vocacionados para a produção do conhecimento, necessário para promover o desenvolvimento. O resto é populismo.
PS - Saio para longas (e merecidas!) férias e só devo retomar a coluna em meados de março.
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Hélio Schwartsman, 44, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
