Pensata

Hélio Schwartsman

10/03/2005

Sardinhas, ovos e galinhas

"Quisquis homo sardinam lateri suo subducit." Nenhum poeta ou pensador latino jamais escreveu essas palavras, mas bem que poderia tê-lo feito. A frase significa algo como "cada um puxa a sardinha para o seu lado", uma característica da natureza humana já conhecida dos romanos e de todos os povos que os precederam e sucederam.

Essa verdade fundamental sobre o homem pode ser identificada em praticamente todas as esferas da vida, mas costuma exacerbar-se nas situações em que grandes polêmicas cindem a sociedade. A aprovação, na semana passada, da nova Lei de Biossegurança e seu dispositivo que autoriza a pesquisa científica com células-tronco embrionárias humanas é um desses casos.

Todos cumpriram seu papel. Lideranças religiosas fizeram lobby pela rejeição do mecanismo. Entendem que a vida é sagrada desde a concepção e que a por enquanto necessária destruição dos embriões a fim de estudar suas células viola o quinto mandamento.

Cientistas interessados na autorização também se mobilizaram. Na tentativa de sensibilizar os parlamentares, chegaram a levar ao Congresso grupos de deficientes físicos e portadores de doenças degenerativas, para os quais pesquisas com células-tronco embrionárias trazem alguma esperança de cura.

Investigadores que trabalham com células-tronco adultas (extraídas principalmente da medula óssea e de cordões umbilicais), talvez imbuídos de algum espírito religioso, tentaram explicar que as células embrionárias não são a única alternativa, que terapias baseadas em tecidos adultos estão mais próximas. Acusaram a meu ver com exagero um suposto lobby da indústria farmacêutica internacional, que estaria interessada em lançar o foco sobre as células embrionárias e tirá-lo do das adultas, de modo a retardar novos tratamentos e, assim, garantir maior sobrevida aos remédios hoje utilizados.

É claro que todos têm as suas razões. O problema é que, em meio a tanto ruído, ficamos aturdidos e podemos deixar de ponderar todos os argumentos relevantes.

As objeções colocadas pelos religiosos são absolutamente respeitáveis, só que elas se baseiam em dogmas, que não são partilhados por outros credos nem pelo conjunto da sociedade. Com efeito, ninguém jamais demonstrou que existe uma alma e muito menos que ela se instala no embrião no instante da concepção, o que de fato aproximaria a destruição de um zigoto do assassinato. Importantes autoridades da própria Igreja Católica rejeitaram essa tese. É o caso de santo Tomás de Aquino, o Divino Doutor, que, acompanhando Aristóteles, afirmou que a alma masculina passa a habitar o feto no 40º dia de gestação. No caso de mulheres, no 48º. Não cabe a mim ensinar os padres a rezar --mesmo porque nunca aprendi a fazê-lo--, mas é sempre bom lembrar que as objeções do Vaticano ao aborto foram se constituindo historicamente e ganharam sua forma mais intransigente há menos de 200 anos, o que não é muito na milenar história da instituição. Vale lembrar que, de um corpo semelhante de textos canônicos, o judaísmo e denominações protestantes extraem prescrições bem mais liberais. Quem sabe dentro de mais alguns séculos, as coisas voltem a mudar.

Mas eu já estou me perdendo. Retornemos ao problema do dogma. Roma tem todo o direito de exigir dos católicos que obedeçam às suas diretrizes. Estes, se quiserem conservar-se bons católicos, estão obrigados a fazê-lo. Como cidadãos, contudo, são livres para seguir ou não as orientações da Santa Sé. O Vaticano também pode aconselhar o Congresso Nacional a acompanhar suas posições, mas isso não será mais do que um palpite, tão bom quanto o meu, o do leitor ou o da Frente de Libertação dos Anões de Jardim.

O compromisso do Estado democrático deve ser com a maior universalidade possível. Não faz sentido privar toda a população dos eventuais benefícios médicos das pesquisas com células-tronco embrionárias apenas porque ela violenta a consciência de alguns. De modo análogo, é insensato obrigar mulheres a seguir com gestações que elas não desejam porque há quem considere que embriões de menos de três meses já são pessoas --outra proposição por demonstrar.

Os cientistas que militaram pela aprovação da pesquisa talvez também tenham exagerado. A mobilização de grupos de pacientes deu a parte da sociedade a impressão de que agora, com a licença para pesquisar, é uma questão de poucos meses até que encontremos a cura para todos os flagelos da humanidade. Nada mais falso.

É verdade que as células-tronco embrionárias abrem novas e promissoras perspectivas. Esse tipo de tecido conserva a capacidade para converter-se em toda espécie de célula, de neurônios a melanócitos, o que não ocorre com células-tronco maduras (as tiradas da medula óssea e de cordões umbilicais). Tamanha versatilidade, porém, traz problemas. Em modelos animais, descobriu-se que células embrionárias são tão indiferenciadas que podem provocar o surgimento de cânceres. Estão provavelmente certos os pesquisadores que afirmam que as primeiras novas terapias virão das células-tronco adultas, com as quais já estão em curso interessantes tratamentos experimentais para várias cardiopatias, diabetes e mal de Parkinson. Podemos aguardar aplicações comerciais para dentro de mais alguns pares de anos.

O eventual sucesso de terapias com células-tronco adultas de modo algum justifica que se deixe de pesquisar as embrionárias. Além de mais potentes, podendo conter a chave para curar mais doenças, elas são fundamentais para que possamos fazer ciência básica, isto é, compreender melhor o processo de diferenciação celular e a gênese de algumas moléstias.

Aliando a pesquisa de células embrionárias com a clonagem terapêutica infelizmente proibida pela legislação brasileira, poderemos estar abrindo o caminho para fabricar órgãos sobressalentes e perfeitamente histocompatíveis com o da pessoa que deles necessita. Seria a era dos "auto-órgãos sob medida". Mais, clonando células de pessoas portadoras de doenças com forte componente genético, talvez tenhamos a chance de acompanhar "ab ovo" o surgimento dos primeiros erros na divisão celular. Não só entenderíamos melhor a patologia, como estaríamos aptos a detectá-la mais precocemente --o que pode fazer toda a diferença. É claro que esses possíveis desenvolvimentos, por ora meramente especulativos, estão ainda a várias décadas de distância.

De toda maneira, se não consideramos que a destruição de blastocistos --isto é, de emaranhados de uma centena de células humanas mantidos em meio de cultura num tubo de ensaio-- constitua um homicídio, seria uma loucura renunciar a pesquisá-los, sobretudo quando haveria tanto a ganhar ao fazê-lo. Comer um ovo é algo bem diferente de torcer o pescoço da galinha (a excelente frase é da pesquisadora Lygia da Veiga Pereira).

O Estado democrático deve procurar a proporcionar a maior felicidade possível para o maior número de cidadãos, sempre respeitando os direitos de todos. Nessa busca invariavelmente conflituosa, fatos provados devem ter primazia sobre opiniões. Dogmas e crenças de alguns merecem todo o respeito, mas não podem converter-se em amarras contra todos.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca