Pensata

Hélio Schwartsman

07/04/2005

Habeas papam

A sucessão do papa João Paulo 2º é um assunto que se impõe. Se o critério fosse gosto pessoal, eu preferiria escrever sobre o meu Corinthians, mas não posso furtar-me a comentar o que deverá ser um dos fatos mais importantes de 2005.

Antes de mais nada, eu deveria dedicar algumas palavras ao legado de Karol Wojtyla. Acredito porém que, transcorrida quase uma semana da morte do santo padre, o leitor já esteja farto de ler balanços de seu pontificado, de modo que me dispenso da tarefa. A mídia brindou o leitor com análises para todos os gostos, desde as que pintam João Paulo 2º como um santo até as que o descrevem como o papa que destruiu todos os avanços recentes da Igreja Católica. De minha parte, digo apenas que Wojtyla foi um homem extraordinário, com qualidades, mas também defeitos. Embora o óbito tenha sempre o dom de ressaltar as primeiras e obscurecer os segundos, não devemos perder de vista a dupla condição humana.

O papa está morto, viva o papa. A partir do dia 18, um conclave deverá eleger o novo sucessor de Pedro. Nessa matéria, não dou palpites e, ao contrário do presidente Lula, não encampo nenhuma candidatura. Não chego ao extremo de dizer que a escolha do próximo papa é assunto de exclusiva economia interna do Vaticano. Existem no planeta aproximadamente 1 bilhão de católicos, muitos dos quais vêem no bispo de Roma uma verdadeira liderança espiritual e moral. Isso já basta para tornar a escolha um fato relevante. Minha relutância em bacorejar nessa seara vem da percepção de que não faz muito sentido querer democratizar o Vaticano (e espero que o Bush, que gosta de democratizar países, não encampe a idéia; a perspectiva de tanques na Capela Sistina não é boa para as artes).

A grande dificuldade para comentar assuntos relacionados à Igreja Católica é que os padres operam numa lógica muito diferente da que nos move aqui no mundo sublunar. Enquanto nós nos preocupamos com o imanente, isto é, com assuntos como a próxima vitória do Corinthians e as eleições gerais de 2006, os religiosos cuidam do transcendente, ou seja, importam-lhes questões como a salvação da alma e a eternidade. Não perceber essa diferença de paradigmas é o primeiros passo para os piores mal-entendidos.

De fato, no mundo laico, opor-se à utilização da camisinha em tempos de Aids é um grave crime contra a saúde pública. No mundo de Roma, contudo, a questão torna-se mais complexa. O que está em jogo é "muito mais" do que um pedaço de látex ou padrões epidemiológicos. Para os padres, a moral é incondicionada. Ela não surgiu do nada, mas foi ditada pelo próprio Deus por meio das Escrituras. E, se o Altíssimo diz que algo é pecado, não somos nós, simples mortais, quem vamos desmenti-Lo. A palavra do Homem, em princípio, não pode ser objeto de negociação. Assim, transigir num detalhe seria renunciar ao dogma. O que rui não é uma simples tradição, mas o próprio edifício lógico sobre o qual a igreja se assenta. Se o que Deus disse aos homens não precisa valer, então a própria igreja não precisa existir.

Embora eu não concorde com nenhum dos pressupostos --não acho que haja um Deus e muito menos que Ele nos tenha passado uma receita de como nos comportar--, não posso deixar de admirar a busca dos padres pela coerência e o seu amor pelos sistemas. Partilhamos o prazer estético propiciado pela boa arquitetura de conceitos e princípios. É claro que um outro nome para coerência de 2.000 anos pode ser obstinação.

Eu diria que o arcabouço conceitual da Igreja Católica só não é perfeito por duas razões. Em primeiro lugar, muitas das posições hoje tributadas na conta da moral eterna foram na verdade em algum grau historicamente constituídas. É o caso do aborto, como procurei mostrar numa coluna recente (Aborto, a síntese democrática).

Mesmo o que foi --concedamos-- ditado por Deus comporta interpretações. Tomo como exemplo o quinto mandamento. Ele reza: não matarás. Não se trata, porém, de uma proibição absoluta. É lícito que eu mate para preservar minha própria vida, como acontece nas guerras, por exemplo. Diga-se, a propósito, que o Deus do Antigo Testamento adorava matar os inimigos de seus preferidos. Às vezes o fazia com requintes de crueldade. Vale ainda lembrar que a própria Igreja Católica, embora desrecomende fortemente, não condena a pena de morte --nem poderia, uma vez que foi pródiga em utilizá-la.

A verdade é que leis (sejam elas eternas ou provisórias) funcionam muito bem no papel, mas passam a produzir controvérsias e casos duvidosos sempre que aplicadas na prática. Não duvido de que a intenção por trás da proibição da camisinha seja a de deixar a vida florescer, mas o que fazer quando a proscrição, no contexto da epidemia de Aids, acaba ela própria por produzir mortes?

Embora João Paulo 2º tenha dado uma resposta muito clara a essa pergunta, acredito que o tema voltará a colocar-se para a Igreja Católica e o próximo papa. Não estou afirmando que a igreja mudará tudo. O mais provável é que não o faça, mas a proibição da camisinha não precisa ser uma verdade eterna, até porque não existem textos canônicos que as mencionem. Ainda que os padres pensem com a lógica do transcendente, para a qual as questões de que nós do mundo laico nos ocupamos não são importantes, é difícil brigar por muito tempo contra o que convencionamos chamar de realidade. Esse e outros problemas não passam despercebidos a muitos dos cardeais que se encerrarão no conclave.

Se há um quesito em que o pontificado de Wojtyla fracassou foi o de dar à Igreja Católica as ferramentas para crescer na atual conjuntura de acirrada competição, em que as pessoas escolhem sua fé mais ou menos como se decidem pela marca de sabão em pó na gôndola de um supermercado. O catolicismo vem perdendo adeptos na Europa e na América Latina, esta última seu antigo bastião. É verdade que cresce na Ásia e na África, mas por quanto tempo? Aliás, é justamente nesses continentes que a Aids vem produzindo mais estragos, com forte impacto demográfico.

Longe de mim querer dar conselhos ao Vaticano. A Igreja Católica é evidentemente livre para seguir pontificando como achar melhor. Vou um pouco mais longe e afirmo que ela precisa manter algo da lógica do transcendente. Não pode lançar-se numa plataforma populista apenas para conseguir fiéis. Se o fizesse se descaracterizaria fortemente, perdendo sua especificidade de 2.000 anos, o tal do "in saecula saeculorum". Mesmo um bom ateu como eu não gostaria de assistir a isso, assim como não gostaria de ver a Capela Sistina destruída pelas forças de libertação do povo do Vaticano. Isso não significa, por outro lado, que a Santa Sé ela não deva estar atenta --e permeável-- às mudanças por que o mundo passa. Embora a igreja lide com normas supostamente imutáveis, toda regra só se configura como tal quando aplicada a casos concretos, processo sempre mediado pela interpretação. Há espaço, portanto, para alterações de rumo que possam dar mais fôlego à Igreja Católica. Ela já fez esses ajustes inúmeras vezes no passado.

João Paulo 2º foi o papa da Guerra Fria. Soube desempenhar bem esse papel. Afirma-se que virá agora o papa da globalização. É do interesse da Santa Sé que os cardeais encontrem alguém à altura da tarefa.

De minha parte, preferiria um mundo sem papas, rabinos ou pastores, onde as pessoas observassem imperativos éticos porque essa é a atitude mais racional. Ao contrário de algumas igrejas, porém, não pretendo impor minhas convicções a ninguém que delas não partilhe.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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