Pensata

Hélio Schwartsman

26/05/2005

O avanço dos clones

Num experimento realmente importante anunciado na semana passada, cientistas sul-coreanos conseguiram produzir 11 diferentes linhagens de células-tronco embrionárias humanas através de clonagem. Apanharam núcleos de células adultas de várias partes do corpo de voluntários e os fundiram com óvulos previamente enucleados. Permitiram que os embriões resultantes se desenvolvessem até o sexto dia, quando os destruíram. De suas células mantidas em cultura, derivaram as novas linhagens.

Embora em teoria a produção de um clone humano não seja muito diferente da de outros mamíferos, que são feitos regularmente, até agora apenas esse mesmo grupo sul-coreano havia conseguido fabricar um embrião clonado e publicar seus resultados em revista científica de primeira linha. Com a nova façanha, não só se desfazem todas as dúvidas que ainda havia em relação à possibilidade de converter uma célula diplóide adulta humana num zigoto como ainda se conseguiu imprimir eficiência a esse processo. Com efeito, no primeiro experimento, realizado no ano passado, os sul-coreanos precisaram de 242 óvulos para derivar uma linhagem de células. Desta vez, de 185 oócitos, produziram 56 embriões que deram lugar a 11 cepas.

Não são poucas nem triviais as implicações dessa conquista, cujo relato detalhado está na edição eletrônica da "Science" e pode excepcionalmente ser acessado sem custos por qualquer um que se registrar no site. Para começar, ela torna viável a chamada clonagem terapêutica, isto é, a produção de células-tronco embrionárias sob medida. Supondo que todas as promessas relativas a esse campo da investigação médica se realizem --o que por enquanto é uma possibilidade longínqua-- e que seja realmente possível fabricar peças de reposição para transplantes, a perspectiva de utilizar como ponto de partida o material genético do próprio paciente eliminaria por completo o problema da rejeição. Alguns argumentavam que a individualização das células seria impraticável e que teríamos de nos contentar com algumas linhagens específicas, que talvez não dessem conta de suprir toda a variedade genética da população.

Mas esse é o cenário "ficção científica". Num horizonte mais próximo, o experimento sul-coreano oferece a pesquisadores de todo o mundo uma receita para fabricar cepas de células-tronco que padeçam de alguma moléstia genética. Pode parecer meio exótico produzir linhagens de células doentes, mas, em teoria, podemos aprender muito observando "in vitro" a evolução de patologias. Clonando células de pessoas portadoras de doenças com forte componente genético, como os sul-coreanos fizeram em duas das linhagens, talvez tenhamos a chance de acompanhar "ab ovo" o surgimento dos primeiros erros na divisão celular. Não só entenderíamos melhor a doença, como estaríamos aptos a detectá-la mais precocemente --o que pode fazer toda a diferença. E isso, vale notar, não depende de conseguirmos "domesticar" as células-tronco embrionárias para aplicá-las em tratamentos, possibilidade que permanece uma incógnita.

Como sempre, o avanço levanta novas questões éticas. Dispenso-me aqui de considerar as objeções religiosas à pesquisa com células embrionárias humanas. Já o fiz em inúmeras outras colunas, como "Sardinhas, ovos e galinhas" e "A alma e o ser", e posso assegurar que é praticamente impossível convencer alguém que considere esse tipo de investigação como uma variante do assassinato de que essa é pesquisa legítima e necessária. O principal novo problema diz respeito aos óvulos. Entre as várias medidas adotadas pelos sul-coreanos para aumentar a eficiência da clonagem estão a utilização de óvulos frescos (e não congelados que sobram de tratamentos para fertilidade) e retirados de mulheres mais jovens (que com menor freqüência procuram essas terapias).

A pergunta que se coloca é se é ético pedir a mulheres que se submetam aos procedimentos necessários para a doação de oócitos. Eles incluem a hiperestimulação ovariana, feita com a administração de hormônios, e uma pequena cirurgia para a retirada do material. Trazem um risco que é pequeno, mas não desprezível. Entre 0,3% e 10% das mulheres que passam pela hiperestimulação sofrem uma síndrome cujos sintomas podem incluir dor, falência renal e infertilidade futura. Não seria um problema pedir o "sacrifício" caso a pesquisa pudesse trazer algum benefício para a própria mulher ou para algum ente querido. A bioética aceita que pessoas saudáveis doem tecidos e órgãos duplicados ou partes de órgãos singulares desde que o risco não seja muito alto e o ganho para a outra parte, grande. Na atual fase das investigações, contudo, o benefício concreto de experimentos com células-tronco pode ser considerado nulo. Mesmo nos cenários mais otimistas, terapias experimentais a partir de células-tronco embrionárias ainda estão a muitos anos de distância. É o caso, portanto, de começar a refletir mais detalhadamente sobre a questão e definir um protocolo para a doação de oócitos para fins de pesquisa básica.

Aqui esbarramos num outro ponto bastante interessante, que é o das legislações nacionais. O Brasil, por exemplo, que acaba de liberar até certo ponto a pesquisa com células embrionárias humanas, pode já estar ficando para trás. A nova Lei de Biossegurança, sancionada em março deste ano, admite a utilização de embriões que sobraram de tratamentos de fertilidade, sem contudo permitir a produção de blastocistos especificamente para pesquisa. Se a confecção e o acompanhamento de cepas patológicas se converter numa importante linha de investigação médica, como é provável que ocorra a partir do experimento sul-coreano, os cientistas brasileiros já estarão de mãos amarradas pelo novo diploma.

Nesse campo, a regulação de fato desponta como o principal diferencial entre países. Essa é a única explicação para o fato de que, nessa área da ciência, seja a Coréia do Sul e não os EUA que estejam dando as cartas. Enquanto o Estado sul-coreano adotou uma legislação bastante ponderada, que proíbe a clonagem reprodutiva (com vistas a gerar um bebê que seja a cópia genética de outra pessoa), mas admite e incentiva a pesquisa com embriões de poucos dias, nos EUA o que impera é o fundamentalismo religioso de suas lideranças. Não há verbas federais para esse tipo de investigação, e o presidente George W. Bush ameaça vetar o projeto de lei aprovado ontem pela Câmara que permite algum financiamento dentro de limites estritos (na verdade, cria uma situação parecida com a proposta pela legislação brasileira). Se a discussão sobre a humanidade ou não de um blastocisto, isto é, um emaranhado de cerca de cem células, já soa bizantina em condições normais, a coisa fica ainda mais ridícula num país em que o aborto é considerado um direito constitucional da mulher. Lá, uma jovem pode abortar um feto de 12 semanas apenas porque não está com vontade de ter o filho naquele momento. Mas destruir um zigoto de quatro ou cinco dias na esperança de fazer avançar a medicina é considerado inaceitável pelo homem que manda lançar bombas sobre cidades repletas de criancinhas já nascidas.

Seja como for, o exemplo sul-coreano mostra que, no território quase virgem da pesquisa com células embrionárias humanas, a feliz fusão de uma lei razoável com algum talento e organização para a ciência (que o Brasil também teria) é capaz de produzir notáveis façanhas científicas. Infelizmente, essa parece ser mais uma oportunidade que o Brasil perderá.

Errei

Na coluna "O papa Ratzinger", cometi a impropriedade de afirmar que a Igreja Católica negava uma alma imortal aos negros. Essa é uma falsa afirmação repetida por alguns maus historiadores que reproduzi sem checar. O erro, contudo, em nada afeta a conclusão de meu raciocínio, pois a Santa Sé defendia a escravidão de africanos mesmo reconhecendo-lhes uma alma, como fica claro no seguinte trecho da bula "Dum diversas", que o papa Nicolau V endereçou ao rei de Portugal Afonso V em 1452:

"Nós lhe concedemos, por estes presentes documentos, com nossa Autoridade Apostólica, plena e livre permissão de invadir, buscar, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e quaisquer outros incrédulos e inimigos de Cristo, onde quer que estejam, como também seus reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades... e reduzir suas pessoas à perpétua escravidão, e apropriar e converter em seu uso e proveito e de seus sucessores, os reis de Portugal, em perpétuo, os supramencionados reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades, possessões e bens semelhantes..."

Dois anos depois, os mesmos "direitos" foram estendidos aos reis de Espanha. É o que basta para concluir que a Igreja teve um papel decisivo (e pouco enaltecedor) na escravidão.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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