Pensata

Hélio Schwartsman

30/06/2005

O golpe fatal

Já estou farto de escrever sobre a crise política, mas o tema se impõe. Juro que, na próxima semana, tentarei evitar esse assunto. Hoje, porém, gostaria de comentar um aspecto que ainda não abordei em minhas colunas anteriores. Falo da idéia que se vai disseminando por aí de que tudo não passaria de um complô "das elites" para destituir o PT do poder --um golpe, em poucas palavras. (Vale observar que esse "elites", assim, no plural, é o substituto hodierno da boa e velha "burguesia" do vocabulário marxista; fica a incômoda sensação de que o que hoje se auto-intitula esquerda tem um pouco de vergonha do que antes dizia).

É evidente que eu repudio com veemência essa tese, mas, para fazê-lo com propriedade, precisamos antes nos perguntar se ela é minimamente verossímil. Aqui, a resposta é positiva. Não é necessário puxar pela memória para lembrar que, num passado recente, o partido foi, sim, vítima de conluios "das elites". Foi ainda em 1989 (um "ontem" em termos históricos) que a valorosa polícia paulista fantasiou os então recém-capturados seqüestradores do empresário Abilio Diniz com camisetas do PT antes de exibi-los à imprensa às vésperas do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello.

Naqueles mesmos dias a Rede Globo fez uma edição absolutamente tendenciosa do debate final entre os dois candidatos, na qual Collor destroçava Lula. De fato, o candidato petista havia se saído pior do que seu adversário, mas não tanto como os noticiários da Globo do dia seguinte ao evento sugeriram. Foi também naquele pleito que hostes colloridas perpetraram contra Lula o que provavelmente é o golpe mais sujo já utilizado em campanhas eleitorais e que ficou conhecido como episódio Miriam Cordeiro. Sabe-se lá por que meios, convenceram a ex-namorada do então candidato petista a dar um depoimento no qual pintava Lula como uma das encarnações do demônio, tendo inclusive tentado convencê-la a abortar da filha do casal. Boa parte do que ela apresentava como fatos objetivos não correspondiam à verdade, como se verificou depois que o estrago à candidatura já estava feito. As fronteiras entre vida pública e privada, tradicionalmente respeitadas nas campanhas brasileiras, foram totalmente aniquiladas naquela ocasião. E não se pode dizer que o tenha sido para o engrandecimento da política.

Só que reconhecer que o PT foi sacaneado antes não implica que o esteja sendo agora. Como bem observou Bernard Shaw em seu "Manual do Revolucionário", "A história ensina-nos que a história não nos ensina nada". (Não creio que o chiste seja muito exato, mas é bastante saboroso e consiste em excelente arma contra os excessos do materialismo histórico. Com efeito, da história podemos extrair os mais diversos ensinamentos, inclusive contraditórios, o que basta para reduzir seu valor propedêutico).

Não é preciso ser PhD em ciência política para constatar que a situação atual é bastante diversa da de 1989. Não estou evidentemente afirmando que tudo o que Roberto Jefferson diz é verdade. Não há como ignorar que o acusador é altamente suspeito e que suas declarações parecem ser antes de mais nada uma manifestação da milenar tática de livrar-se de uma acusação lançando suspeitas contra todos. Ocorre, porém, que parte das denúncias do ex-presidente do PTB vai encontrando respaldo em outras fontes. Estamos ainda muito longe de ter provado algo contra alguém, mas vai ficando cada vez mais claro que algumas das incriminações que Jefferson atira contra o PT não podem ser descartadas apenas como "mentira deslavada" sem um exame minucioso.

O principal argumento contra a hipótese golpista, porém, nada tem a ver com as investigações. Ele tem sua genealogia na política. A pergunta é muito simples: por que diabos "as elites" quereriam dar um golpe no PT, que vai muito bem-comportadamente executando a política que lhe convém? Pior, os petistas o fazem com o entusiasmo típico dos recém-convertidos. Com efeito, se, no passado, banqueiros tinham motivos para temer a ascensão do PT, hoje o capital financeiro tem razões para considerar Lula preferível até à dupla Fernando Henrique Cardoso e Gustavo Franco. Os juros pagos talvez sejam um pouco menores, mas, em contrapartida, há um sólido superávit primário que funciona um pouco como a garantia de que a transferência de renda não se extinguirá tão cedo. Mesmo a agenda microeconômica do governo não é muito diferente da de seus antecessores. Lula fez a reforma da Previdência que FHC não conseguiu. Vale observar que essa não é apenas a minha opinião. Maria Victoria Benevides, uma das raras intelectuais petistas que não caiu em estrondoso silêncio após a instalação da crise, disse coisas bastante semelhantes em recente entrevista à Folha.

Na verdade, a derrubada de Lula não interessa nem mesmo a seus rivais mais diretos, o PSDB. O cenário de sonho dos tucanos é enfrentar um Lula cada vez mais enfraquecido e refém de sua própria crise. O cálculo da oposição não inclui um processo de impeachment --o qual, aliás, por definição, nada teria de antidemocrático, uma vez que está previsto na Constituição e só poderia começar se essa fosse a vontade de 2/3 dos deputados federais do país. Uma eventual deposição de Lula traria muitos imponderáveis. Vai que o vice-presidente José Alencar (PL-MG) assume o cargo, manda baixar os juros na marra e a economia prospera, tornando-o um candidato imbatível no pleito de 2006.

Quanto aos rumores de que a imprensa também está interessada na queda do Lula, eles me parecem igualmente pueris. A grande imprensa tem, é verdade, o interesse --não exatamente inconfessável-- de vender mais jornais, o qual pode ser circunstancialmente favorecido pela crise. No médio e longo prazos, porém, as empresas de comunicação apostam numa economia estável e preferencialmente em crescimento. Estão mais ou menos como quase todos os empresários do setor industrial: ainda encantadas com o PT "cumprindo os contratos" e um pouco decepcionadas com os rigores da política econômica. De modo algum desejam os percalços de um processo de impeachment. Isso sem mencionar o fato de que vários grupos importantes estão de olho em empréstimos do BNDES. Nesse contexto, é até alvissareiro que a mídia não tenha embarcado numa operação abafa-escândalo.

Ao difundir ainda que extra-oficialmente a hipótese golpista, mesmo que a um público muito específico de militantes, o PT acrescenta mais um erro à série que o colocou nessa crise. Se há algo que não interessa ao governo é a radicalização. Se nada de mais bombástico for descoberto, Lula poderá chegar quase tranqüilamente ao fim de seu mandato e ainda disputar com boas chances a sua própria sucessão.

O pecado original do petismo nessa história toda, como já escrevi ainda antes de Jefferson disparar sua metralhadora, foi ter sacrificado um a um todos os princípios que antes defendia e fazê-lo não em nome de um projeto de nação, mas apenas para perpetuar-se no poder. No espaço de poucos meses entre o início do processo eleitoral em 2002 e os primeiros atos de governo, em 2003, traiu uma a uma teses que o PT cultivara com zelo ao longo de suas duas décadas de existência. Rifou todas as suas idéias econômicas, aliou-se a gente que antes não convidaria para um cafezinho e agora manobra para enterrar investigações. Não foram, evidentemente, "as elites" que obrigaram o PT a firmar acordos com o PTB e muito menos o presidente Lula a passar um cheque em branco ao "companheiro" Roberto Jefferson. Se há um responsável pelo ocaso do PT, foi a direção do PT, que lhe desferiu o golpe fatal de aniquilar a sua essência.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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