Hélio Schwartsman
Querer e poder
- Papai, o que você trouxe?
É com essa frase que sou recebido todas as noites por meus filhos gêmeos, Ian e David, agora com quase três anos e meio. (Nesta coluna, deixo de lado a crise política para tratar de um tema doméstico; quando tudo na esfera pública parece ser motivo para opróbrio e ceticismo, devemos buscar refúgio anímico em outras áreas, nas quais o futuro pareça menos sombrio).
Os garotos continuam adoráveis e engraçados, mas, para meu desgosto, revelaram-se dois consumistas vorazes. Mesmo sem saber ler, escarafuncham os jornais em busca de anúncios de brinquedos, que rapidamente identificam e ato contínuo pedem. Ir ao shopping com eles pode converter-se num espetáculo desagradável, pois querem tudo a todo instante. Passar diante de uma loja de brinquedos, então, é atitude das mais temerárias. O pior é que a memória espacial dos bichinhos é boa --e eles sabem exatamente onde se localizam os estabelecimentos que os interessam.
Ainda não pude identificar bem onde se encontra o prazer que eles têm com o consumir. Está, é claro, no objeto adquirido, mas não se limita a ele. Como toda criança, esquecem rapidamente o brinquedo com que acabaram de ser presenteados. Parece haver deleite também tanto no ato de ganhar como na simples perspectiva de fazê-lo. Com efeito, o conteúdo do presente que lhes é ofertado, embora não seja irrelevante, está longe de ser o mais importante. Como são altamente sugestionáveis, topam numa boa trocar um autorama caríssimo por um saquinho de pipoca, desde que lhes segredemos que a pipoca em questão é a do Batman ou a dos Power Rangers. É claro que não me sinto bem ludibriando-os dessa forma, mas meu bolso o exige.
Também corrobora a tese de que eles extraem prazer de perspectivas futuras o fato de que aceitam negociações. Se argumentamos que no momento não podemos lhes dar nada, mas prometemos um presente para o Dia das Crianças ou o Natal, eles acabam aceitando e logo se põem a elaborar suas listas de pedidos.
Consumir é portanto um fenômeno bem mais complexo do que apenas obter um bem. Ele parece ser capaz de proporcionar fruição através de diversos processos, tanto físicos --a aquisição material do produto e sua utilização-- como mentais --a antecipação do prazer.
Existe, é claro, o outro lado da moeda. Consumir, ou melhor, ter negado um impulso de consumo pode gerar enorme frustração. Pais que já tiveram de enfrentar uma crise de meia hora de choro convulsivo por terem-se recusado a dar ao filho um chocolate antes do almoço sabem bem do que eu estou falando.
Há quem afirme mesmo que a privação de desejos de consumo é causa da violência. Especialmente em países com abismais disparidades de renda como é o Brasil, o jovem compara cotidianamente o que os outros têm e o que ele jamais terá, e a frustração daí resultante estaria na gênese de carreiras criminosas. Países bem mais pobres, mas com distribuição de renda mais eqüitativa convivem com índices de violência mais civilizados. Não duvido de que esse seja de fato um dos processos envolvidos na violência, mas convém sempre lembrar que esta é um fenômeno complexo e multifatorial. Explicações excessivamente redutoras devem ser vistas com desconfiança.
Outro ponto que me intriga e para o qual não encontro respostas muito acabadas diz respeito ao surgimento do impulso de consumo. Até que ponto ele é natural e até onde é induzido? É claro que a base é inata. Adquirir coisas que nos agradam é por definição bom e, assim, encontramos prazer nessa atividade. Receio porém os estímulos externos respondam por grande parte de nossos "desejos". Basta passar 15 minutos diante de um canal de televisão em horário infantil para constatar que nossos pequenos são submetidos a todos os dias a uma impressionante enxurrada de mensagens publicitárias que lhes dizem o que eles devem querer, o que necessitam comer e beber e aonde precisam ir.
Nada conta os publicitários, nem mesmo o Marcos Valério, mas anunciar para crianças é uma atitude meio covarde. Elas não têm renda ou espírito crítico e são puro desejo. Acrescente-se a isso sua enorme capacidade de azucrinar e chantagear os pais, e temos a receita para um massacre contra os bolsos paternos. A propaganda verdadeiramente ética de produtos infantis deveria ser dirigida aos genitores e não à garotada, assim como a publicidade de remédios é orientada aos médicos, não ao paciente --o alvo deve ser aquele que detém de fato o poder de decisão.
É claro que as agências dificilmente abrirão mão de fazer propaganda para as crianças, mas acredito que o primeiro anunciante que partisse para uma linha de reclames "éticos", voltados para os pais, acertaria na mosca --e ainda deixaria os concorrentes em situação difícil. Numa linha mais autoritária, podemos lembrar que a Suécia instituiu por lei o banimento da publicidade dirigida à garotada. No Brasil, tal medida seria, infelizmente, inconstitucional.
Chego, por fim, ao ponto que preocupa todos os pais: como conter a sanha consumista de seus rebentos? Aqui, devo confessar não apenas a minha ignorância como também minha incompetência. É claro que conheço a teoria. Devemos ser firmes, coerentes e muitas vezes temos de dizer não, a fim de educá-los, para que possam aprender a lidar com suas frustrações no futuro. Na prática, porém, as coisas nunca são bem assim. Para piorar o quadro, conto-me entre aqueles pais de coração mole, que acaba cedendo senão a todos pelo menos a boa parte dos caprichos infantis. A mãe ainda tenta impor alguma moral, mas eu invariavelmente estrago tudo dobrando-me a seus desejos.
Sei que estou errado, mas --perdoem-me os pedagogos-- os garotos sobreviverão. Quando aquiesço a suas extravagâncias não estou apenas satisfazendo ao gozo deles, mas também ao meu próprio, que encontro prazer em atender a seus pedidos e em contemplar-lhes a felicidade daí resultante. De resto, não creio que eu esteja comprometendo sua capacidade futura de tolerar reveses. Aprender a lidar com as próprias frustrações é um destino inescapável, que se impõe pela nossa capacidade quase que ilimitada de desejar. Enquanto Ian e David se satisfizerem com um simples bombom ou uma balinha todas as noites e eu tiver condições de comprá-los, não vejo razões para negar-lhes esse prazer. Educar nada mais é do que ir traumatizando aos poucos. E ocasião para ouvir muitos nãos é o que não lhes faltará.
Durante 99,9% de sua existência, a humanidade ignorou todas teorias pedagógicas sobre como educar seus rebentos. Não apenas chegamos aonde estamos como ainda algumas ex-crianças foram capazes de criar coisas interessantes como a Odisséia, a Nona Sinfonia e a fita crepe.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
