Hélio Schwartsman
Mundo cruel
Começo com um pedido de desculpas ao leitor. Devido ao grande volume de correspondência provocado pela minha coluna anterior, "Impeachment já", tornou-se humanamente impossível responder a cada um dos que me escreveram, como recomendariam as regras da cortesia. Optei, portanto, por não retorquir a ninguém individualmente e ensaiar na crônica desta semana uma réplica geral.
Pouco mais da metade dos que se deram ao trabalho de comentar meu texto estavam de acordo com a idéia de que o presidente Luiz Inácio da Silva deve ser afastado. Sou-lhes grato pelas gentis mensagens e observações. Os demais discordaram, segundo graus variados de discrepância e boa educação. Também lhes agradeço as cartas e tento agora responder às críticas mais freqüentes. Vamos a elas.
Começo pelos insultos. Em primeiro lugar, não acho que possa ser acusado de golpista. Em nenhum momento defendi que a população pegasse em armas para depor Lula nem sugeri que tanques devessem avançar contra a granja do Torto. O afastamento do presidente da República é um procedimento democrático previsto na Constituição. Mais de uma vez representantes do Partido dos Trabalhadores o invocaram contra a Presidência de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). E aplicar mecanismos previstos em Lei não é golpe em nenhum lugar do mundo.
Para os que, argumentando "ad hominem", duvidaram de que eu tenha votado no PT nas últimas quatro eleições presidenciais, não tenho muito o que responder. O instituto do voto secreto impossibilita a existência de registros documentais a respeito do sufrágio de cada cidadão. Mas, se me julgam um mentiroso patológico, não deveriam perder tempo lendo meus escritos. No mais, acreditem ou não, é perfeitamente possível votar num candidato e nem por isso permanecer cego para erros que cometa. Voto não é casamento católico, isto é, não implica compromisso eterno.
Alguns me cobraram posicionamento igual em relação às crises do governo anterior. Tal postura lembrou-me muito a fábula do lobo e o cordeiro. Eu não podia pedir o impeachment de Fernando Henrique Cardoso por conta do escândalo da compra de votos, em 1997, porque não possuía então uma coluna. Mas posso lembrar que, em maio de 2001, escrevi o texto "O apagar de uma era, ou o Iluminismo de FHC", no qual afirmei que, se o então presidente tivesse decência, teria renunciado ao cargo depois da megatrapalhada do "apagão", a crise de falta de energia elétrica.
Também não gostaram do trecho em que afirmei que Hitler, embora jamais tenha aberto uma torneira de gás, não poderia ser desculpado pelo Holocausto. Devo admitir aqui que a comparação foi bastante infeliz. Mas em nenhum momento tive a intenção de equiparar os dois líderes em crimes ou mesmo em caráter. Pretendi apenas dizer que não é necessário ter participado diretamente de uma ação qualquer para ser responsabilizado por ela. Um pai cujo filho menor de idade apanhe à sorrelfa seu carro, bata-o e cause prejuízos, embora seja ele mesmo inocente, deve arcar com os ônus da aventura filial. No mais, continuo achando que Luiz Inácio da Silva é uma pessoa bem-intencionada. Mas cometeu graves erros políticos e de julgamento pelos quais não deve ser desculpado. Principalmente o presidente da República não pode ser tratado como alguém inimputável. Se ele errou --e parece ter errado feio--, deve pagar o preço pelas decisões equivocadas, por mais doloroso que seja para todos os que acreditamos nele e o elegemos.
Repito que não julgo o impeachment um fim em si mesmo. Mas acho que será muito ruim para as instituições se nada ocorrer diante das amplas evidências de que copiosos esquemas de corrupção funcionavam em salas contíguas à do presidente. Ainda que Lula não soubesse mesmo de nada --o que acho difícil, pois perspicaz ele é--, prevaricou ao não tomar as medidas para afastar os suspeitos tão logo surgiram os primeiros indícios. O princípio da presunção da inocência, que é legítimo, tem aplicação na esfera judicial. Na política, cabe ao líder antecipar-se aos problemas e deles livrar-se incontinenti. Como teria afirmado De Gaulle, a ingratidão é um dever do político.
FHC, ao contrário de Lula, mostrou notável habilidade para esvaziar as crises políticas que bateram à sua porta. Já Lula e o PT parecem ter o dom de ampliá-las. É quase incrível que Delúbio Soares, por exemplo, réu confesso numa boa coleção de ilícitos, ainda nem tenha sido expulso do partido. A história contada pelo amigo presidencial Paulo Okamotto para explicar o empréstimo do PT a Lula pode até ser verdadeira, mas é tão inverossímil que parece redefinir o conceito de desculpa esfarrapada.
Acho que já atingimos o ponto em que nossas preocupações devem ser apenas com as instituições. E não há muita dúvida de que elas se ganhariam se a atual crise culminasse no afastamento de Lula, na cassação de todos os parlamentares de todos os partidos envolvidos e na prisão dos corruptores, que continuam sendo muito pouco visados nas presentes investigações. Não, não acho que isso vá ocorrer, mas seria bom se acontecesse. O país lucraria muito em experiência democrática, e isso é fundamental para evitar a eterna repetição das mesmas histórias e falcatruas políticas que há tanto tempo parasitam a nação. A única fórmula conhecida para reduzir significativamente o desvio de dinheiro público é acabar com a impunidade para corruptos e corruptores. É aí que um eventual impeachment de Lula poderia ser proveitoso. Trata-se, é claro, de um processo lento, geracional até. Mas, para que os filhos de nossos filhos tenham a chance de viver num país decente, não podemos ter medo de ser severos em questões de moralidade pública.
É injusto? Pode ser que sim. Há fortes indícios de que outros governos se tenham valido de esquemas muito semelhantes ao usado pelo PT. A diferença é que não surgiram provas insofismáveis como agora. Foram hábeis em abafar CPIs e em convenientemente exilar do governo os suspeitos. Dizem que, em Esparta, as crianças eram incentivadas a roubar seus colegas. Mas pobre daquela que fosse pega. Seria severamente punida. Não pelo roubo, mas pela incompetência ao perpetrá-lo e/ou escondê-lo. É uma descrição cruel do mundo, mas nem por isso menos exata.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
