Pensata

Hélio Schwartsman

09/03/2006

Suave fracasso

Para o meu comentário de hoje escolhi um caso prosaico, menor até. Acredito, porém, que ele vale por ser emblemático, senão de todos, pelo menos de parte respeitável dos vícios coletivos que vão tornando o Brasil um país cada vez mais difícil. Falo do episódio, primeiramente relatado por Elio Gaspari, em que o general Francisco Roberto de Albuquerque, ninguém menos que o comandante do Exército, mandou parar um vôo comercial já em procedimento de decolagem para que ele e sua mulher pudessem embarcar.

Ao que consta, na Quarta-Feira de Cinzas, Albuquerque e sua consorte chegaram ao aeroporto de Viracopos, em Campinas, de onde pretendiam seguir para Brasília, cerca de 15 minutos antes do horário previsto para a saída do vôo, que estava lotado. Tecnicamente, devemos comparecer ao balcão com uma hora de antecedência no caso de viagens domésticas. A companhia aérea, a TAM, teria feito "overbooking" (prática corriqueira na aviação comercial, no qual as companhias vendem mais lugares do que podem oferecer), o que ela nega. Seja como for, a aeronave já estava com as portas fechadas, dando início ao taxiamento, quando, a pedido do general, o Departamento de Aviação Civil (DAC), órgão ligado à Aeronáutica, determinou a suspensão da decolagem. O aeroplano voltou, suas portas foram abertas, e a tripulação saiu à cata de pessoas dispostas provavelmente em troca de algum benefício oferecido pela TAM a sair do avião e aguardar um próximo vôo. Um casal teria topado o escambo aéreo, e o general e sua mulher puderam viajar tranqüilamente.

O primeiro vício presente na nossa anedota é fácil de identificar, o mandonismo. Ao ver seus planos serem frustrados pelas circunstâncias, o general, em vez de conformar-se ou botar a boca no trombone na modalidade clássica xingar e espernear com o despachante da companhia, preferiu acionar seus colegas militares no DAC para que o ajudassem. É mais uma variante do clássico "você sabe com quem está falando".

Alguém mais tolerante do que eu ainda poderia dar ao comandante o benefício da dúvida: ele não sabia exatamente o que o DAC faria. Não acredito muito nisso, mas tanto faz. Ou o general ou o DAC --que deveria operar como um órgão técnico e não político--, mais provavelmente ambos, feriram o princípio republicano de que todos são iguais perante a lei e as instituições. Se Albuquerque estava em missão oficial, deveria ter-se valido de um vôo militar. Não sendo este o caso, tem os mesmos direitos de todos os demais passageiros, inclusive aqueles que, mesmo tendo feito reservas, não conseguiram embarcar, que seriam em número de 14. O general jamais poderia ter-se valido de suas relações oficiais para obter vantagens pessoais. Ao fazê-lo, abusou de suas prerrogativas e deu um péssimo exemplo.

É claro que nem todos os vícios desse país são públicos. Eles existem também, e à profusão, na iniciativa privada, que apenas costuma ser mais hipócrita na hora de admiti-los. Se eu sair por aí negociando o viaduto do Chá, o Pão-de-Açúcar ou qualquer outra coisa que não me pertença ou eu não possua, vou muito justamente ser processado por estelionato ou algo semelhante. Mas, quando as companhias aéreas fazem exatamente isso --vender o mesmo assento para mais de uma pessoa--, apenas constatamos que essa é uma prática corrente, inclusive no exterior. (Diga-se "en passant" que banqueiros fazem algo bastante parecido ao conceder empréstimos com dinheiro que não lhes pertence, mas a correntistas e investidores).

Também impressiona a forma como a TAM procurou esquivar-se de toda responsabilidade no episódio, afirmando que não fez "overbooking" e que a ordem para parar o vôo veio do DAC. Ao que tudo indica, veio mesmo. Mas não foram as autoridades da Aeronáutica que escolheram o casal que daria lugar ao general e sua mulher. Em algum momento a TAM tornou-se cúmplice nessa operação e teria mesmo chegado a oferecer acepipes a quem se dispusesse a ceder seu lugar para o general. Compreende-se que a companhia não queira indispor-se com os militares dos quais depende, mas não deveria afetar uma pureza que não possui. Revela-se aqui mais um vício: as instituições públicas são menos impessoais do que deveriam. Se a impessoalidade preconizada pela Constituição fosse a regra, a TAM não precisaria temer ter desagradado ao general.

Outro elemento constrangedor é o prolongado silêncio do Exército sobre o caso. A instituição levou seis dias para se manifestar e, quando finalmente o fez, saiu-se com um comunicado pífio pelo qual o general não teria em momento nenhum usado de suas prerrogativas oficiais. Se a nota é exata, o avião retornou provavelmente por obra do Espírito Santo, que sempre quis bem aos militares. Pior, a crer numa versão apurada pelos repórteres Eduardo Scolese e Pedro Dias Leite, da Folha, Albuquerque chegou a ligar no início da semana para um vice-presidente da TAM pedindo que este apresentasse uma versão dos fatos na qual não teria havido nenhuma espécie de "carteirada". Aqui, a emenda fica bem pior do que o soneto.

Estamos diante do que talvez seja a pior das mazelas que nos acomete. O problema é de tal ordem que até falta no idioma português a palavra para denominá-lo. Em inglês, o termo seria "unaccountability", uma mistura de ausência de prestação de contas com irresponsabilidade e estranheza. Basicamente, ocorre "unaccountability" quando um baita de um erro é cometido e não há de quem cobrar o resultado. Um bom exemplo é o "apagão", a crise energética de 2001, que custou ao país vários milhões de reais e alguns pontos percentuais de crescimento. Evidentemente, ocorreram falhas muito graves de planejamento, mas o único responsabilizado foi são Pedro, que não teria feito chover nos volumes necessários.

Prepotência das autoridades, falta de espírito republicano, uma boa dose de hipocrisia (pública e privada) além da "unaccountability" ajudam a explicar por que o Brasil, ao longo das duas ou três últimas décadas num mundo cada vez mais competitivo, deixou de ser o "país do futuro" para converter-se num "suave fracasso" (a feliz expressão é do embaixador e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricúpero).

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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