Pensata

Hélio Schwartsman

17/08/2006

A lógica das armadilhas

Não sou dado a teorias conspiratórias: sempre que ouço alguém pronunciar a palavra "complô", tenho vontade de chamar um psiquiatra. Mesmo assim, admito que precisamos estar atentos à confluência de diversas crises no Oriente Médio e na Ásia Central que, sobrepostas e catalisadas por um evento como a guerra no Líbano, tendem a atuar sinergicamente, produzindo uma encrenca maior do que a simples soma das partes.

Não afirmo é claro que esteja em curso um conluio de grupos terroristas árabes para implodir o Ocidente judaico-cristão. Não porque não existam organizações extremistas muçulmanas nem porque não estejam dispostas a quase tudo para provocar o máximo de perdas a EUA, Israel e outros países ocidentais. Mas simplesmente porque é inimaginável a hipótese de representantes da Al Qaeda, de Osama bin Laden, sentando-se à mesma mesa de prepostos do Hizbollah, de Hassan Nasrallah, para discutir qualquer coisa. Os dois grupos se odeiam e ficariam muito felizes em dinamitar um ao outro. A única coisa que os une, bem como a importantes lideranças na região, é falar mal do "Grande Satã" (EUA) e da "entidade sionista" (Israel).

Quem chamou a atenção para o risco de uma "reação em cadeia" nas várias crises foi o ex-embaixador dos EUA na ONU Richard Holbrooke no artigo "As Armas de Agosto", publicado na semana passada pelo jornal "The Washington Post". Nele, o diplomata traça um paralelo entre a situação atual e aquela que precedeu a Primeira Guerra Mundial, deflagrada por um evento menor --o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando por um terrorista sérvio-- mas que repercutiu sobre um complexo emaranhado de alianças e apoios que acabou resultando na carnificina de 1914-18.

Que o leitor não nos entenda (a mim e a Holbrooke) mal. Há muito mais diferenças do que semelhanças entre 1914 e 2006. Para começar vivemos hoje num mundo unipolar onde os EUA reinam soberanos. Não há nada parecido com uma guerra mundial no cenário. A similitude fica por conta do que chamo de lógica das armadilhas. Eu explico: a posição tomada por Washington ou qualquer outro protagonista numa circunstância o coloca em dificuldades no instante seguinte num contexto ligeiramente diverso. De emboscada em emboscada, é fácil cair numa situação em que se torne impossível recuar, o que freqüentemente é necessário para tomar a decisão mais sábia.

E não estamos aqui falando apenas de Israel, com apoio total da Casa Branca, enfrentando simultaneamente o Hizbollah no Líbano e o Hamas em Gaza. Um pouco a leste, no Iraque, os EUA se vêem cada vez mais profundamente enredados na guerra civil que opõe sunitas a xiitas. Aqui, o presidente Bush se alinha aos xiitas moderados, os quais mantêm fortes vínculos com o Irã de Mahmud Ahmadinejad, um dos maiores inimigos dos EUA.

Para tornar as coisas ainda um pouco mais confusas, a Turquia, boa aliada de Washington, não esconde seu desejo cada vez mais intenso de invadir o norte do Iraque para dar uma lição nos "terroristas" curdos, cujas aspirações independentistas inflamam os curdos turcos (cerca de 20% da população local). O detalhe é que os curdos iraquianos também são aliados dos EUA. Aliás, o norte do Iraque é a única região onde reina um pouquinho de paz. E a idéia de ataques preventivos para conter o terrorismo é continuamente legitimada por Bush. Não foi por outra razão que ele invadiu o Afeganistão e o Iraque e deu carta branca a Israel para agir no Líbano.

Um pouco mais a leste, no Afeganistão, o governo do presidente Hamid Karzai, instalado por Washington, acusa o vizinho Paquistão de abrigar células do Taleban. Trocas de tiros entre tropas dos dois países estão se tornando comuns. E por falar em escaramuças, o Paquistão também as tem --e muitas-- com a Índia, a qual já fala abertamente em expedições punitivas contra Islamabad a quem acusa de estar por trás dos recentes atentados contra o sistema de transporte público de Mumbai. Os dois Estados disputam a região da Caxemira, administrada pela Índia mas de maioria muçulmana. O Paquistão é, assim como a Índia, um importante aliado da Casa Branca na região. Foi com a colaboração da polícia secreta do ditador Pervez Musharraf que a Scotland Yard britânica conseguiu desbaratar na semana passada o plano terrorista para atacar aviões de carreira com explosivos líquidos. Quanto à Índia, Bush acaba de oferecer-lhe um vantajoso acordo de cooperação na área nuclear em troca da abertura a inspeções. Na prática, os EUA premiam Nova Déli por jamais ter aderido ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear e ter construído a bomba.

As contradições não param por aí. O discurso de Bush tem sido o de que é necessário criar Estados democráticos no Oriente Médio. Acredito que seja mesmo. Mas Washington não titubeia nem por um instante em apoiar ditadores que lhe são simpáticos. É o caso de Hosni Mubarak, no Egito, e da casa real de Saud, na Arábia Saudita. Aliás, a tão temida Al Qaeda é em larga medida uma reação "popular" à aliança EUA-Riad, tida como espúria pelo ultra-wahabbismo de Osama bin Laden.

Os EUA não são, evidentemente, os únicos atores a exercer políticas contraditórias. Israel, por exemplo, afirma sua disposição de trocar territórios por paz, mas até a retirada de Gaza em 2005, passara as duas décadas anteriores construindo o maior número possível de assentamentos judaicos em territórios palestinos.

O Hizbollah, outro personagem em evidência, precisa urgentemente decidir se pretende ser um partido político integrado à vida nacional libanesa ou um bando de arruaceiros que vivem de criar confusão com o vizinho para justificar a posse de armas. Enquanto tentarem exercer os dois papéis simultaneamente, só o que conseguirão é atrair ruína para o Líbano. Israel, como ficou claro, não tem meios para destruir a milícia a um custo político aceitável, mas sobra-lhe poderio para transformar a vida dos libaneses num inferno. É muito provavelmente o que fará se os ataques com foguetes não cessarem.

Desatar todos os nós e desengatilhar as armadilhas já é uma tarefa impossível. A essa altura, sair de uma emboscada é quase como abraçar outra. O fundamental, portanto, é evitar que as crises mais agudas se aprofundem e "contaminem" disputas correlatas. Nesse contexto, garantir que o cessar-fogo no Líbano seja mantido é um imperativo, bem como providenciar o envio de uma força de paz competente o quanto antes. De preferência com mandato e capacidade para desarmar o Hizbollah, mas acho praticamente impossível que isso ocorra. O "atalho" a perseguir é atrair a Síria para negociações. Em troca do fim do apoio ao Hizbollah, Damasco poderia conseguir de volta as colinas do Golã, conquistadas por Israel na guerra de 1967.

No médio e longo prazos, o mundo respirará mais aliviado se os EUA adotarem uma política externa mais equilibrada, que os habilite a arbitrar com um mínimo de isenção disputas entre países aliados. Assim como se deu com os romanos, os norte-americanos precisam aprender que é mais difícil administrar um mundo no qual exercem papel hegemônico do que um no qual dividiam tal "responsabilidade" com seus então inimigos comunistas. As armadilhas agora são bem mais difíceis de reconhecer --e mais difíceis de sair também.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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