Pensata

Hélio Schwartsman

14/09/2006

5 anos depois

Passados cinco anos do 11 de Setembro, acho que já é hora de um novo balanço. Não tenho evidentemente a pretensão de determinar o lugar que o ataque da Al Qaeda aos EUA ocupará na história. Parece-me, aliás, que ainda é muito cedo para tentar fazê-lo. Mas é inegável que a derrubada das torres gêmeas e os eventos que se seguiram tiveram repercussões --algumas prosaicas, como o tempo extra que passou a ser exigido para embarcar num vôo internacional, outras inesperadas, a exemplo da maior oferta de heroína na Europa-- cujo sentido podemos analisar.

Numa apreciação geral, é possível dizer sem medo de errar que nosso planeta converteu-se num lugar um pouco pior. É verdade que os covardes atentados em Nova York e Washington não foram o prelúdio da Terceira Guerra Mundial, como alguns chegaram a temer, nem mudaram a essência da civilização. Ainda assim tiveram o papel, senão de tornar o mundo mais inseguro, pelo menos o de revelar que atingira essa condição.

Com efeito, o primeiro erro que poderíamos cometer aqui seria tomar o 11 de Setembro apenas como fruto do delírio homicida de um bando de pervertidos. É claro que Osama bin Laden e seus seguidores são malucos, assassinos e facínoras, mas só puderam fazer o que fizeram porque havia condições geopolíticas para tanto.

Não vou aqui dar uma de Michael Moore e insinuar que o presidente George W. Bush é na realidade aliado de Bin Laden. Essa é uma inverdade que, por razões obscuras, setores da esquerda gostam de propalar. Podemos até afirmar que a "guerra contra o terror" deflagrada pelo presidente norte-americano após o 11 de Setembro contribuiu para sua reeleição em 2004, mas é só. Embora Bush reúna várias características pouco abonadoras, ele certamente não é um agente duplo que conspirou para, num único dia de terror, assassinar cerca de 3.000 norte-americanos a fim de obter um segundo mandato.

Essas são considerações que precisam ser feitas, mas que não pretendem isentar os EUA de toda responsabilidade no surgimento da Al Qaeda (termo mais bem transliterado por "al qa'idat", que significa algo como "a base" ou "a norma" em árabe). De fato, Bin Laden e seus companheiros chegaram a ser financiados pela CIA norte-americana, através do ISI, o serviço secreto paquistanês. Foi lá nos anos 80, quando essa turma combatia os soviéticos que ocupavam o Afeganistão. Como se sabe, a antiga União Soviética, depois de chafurdar por uma década no atoleiro da guerrilha afegã, retirou-se do país. Os "mujahidin" foram proclamados "combatentes da liberdade" e os EUA esqueceram o Afeganistão.

Só que os paquistaneses e os sauditas, não. Islamabad queria um governo amigo sediado em Cabul. Por amigo entenda-se pashtun, uma etnia persa que tem larga presença tanto no Afeganistão como no Paquistão. Assim, o ISI ajudou a fazer com que um grupo de ultra-religiosos pashtuns que estudava em "madrassat", escolas religiosas financiadas principalmente por sauditas, conquistasse o poder em 1996. Era o Taleban ("talib" é estudante em árabe), que governaria o Afeganistão com mão-de-ferro até ser deposto pelos EUA em 2001.

Nesse entretempo, a Al Qaeda foi crescendo. Fincou pés em vários países. Além do Afeganistão e da Arábia Saudita, de onde vinha grande parte de seus membros, atuou no Sudão, na Etiópia, na Bósnia e na maioria dos Estados árabes. Também se radicalizou e foi diversificando seus alvos. Bin Laden e sua camarilha voltaram-se contra a família real saudita (da qual o pai de Osama era bastante próximo) no início dos anos 90, depois que Riad permitiu que tropas norte-americanas se instalassem em território saudita para forçar Saddam Hussein a desocupar o Kuait. Bin Laden e outros radicais viram a presença de "infiéis" nas terras sagradas de Meca e Medina como uma traição ao wahabismo e ao islã.

Depois de vencer o inimigo soviético, os "iluminados" deram-se à tarefa de combater a Índia (inimiga do Paquistão), a Rússia (por causa da Tchetchênia), os sérvios (pelos ataques à Bósnia), a família real saudita, os EUA e todos os governos árabes que os apóiam e, é claro, Israel, talvez a única causa capaz de produzir unanimidade no mosaico de povos islâmicos.

Esse emaranhado de vínculos e fidelidades muitas vezes contraditórios, do qual dei uma amostra relativamente modesta, tornou-se possível porque a União Soviética já experimentara sua derrocada sepultando o sistema mundial baseado no equilíbrio entre duas superpotências antagônicas. Num mundo que operasse sob as regras da Guerra Fria, o Paquistão jamais tentaria instalar, por conta própria, um governo títere no Afeganistão. Saddam Hussein dificilmente teria tido a oportunidade de invadir o Kuait. A própria Al Qaeda não teria encontrado espaço para que sua mensagem "jihadista", que envolve elementos religiosos e de "justiça social", prosperasse no mundo árabe e islâmico. Nos tempos da URSS, esse terreno estava reservado ao baathismo, os partidos socialistas árabes de líderes como Hafez al Assad na Síria e Saddam Hussein no Iraque.

Foi a vitória dos EUA sobre a URSS na Guerra Fria que permitiu o surgimento de seu novo inimigo, o "jihadismo" da Al Qaeda. É um adversário muito menos poderoso, mas muito mais insidioso. Americanos e soviéticos jamais chegaram às vias de fato. Já a Al Qaeda ataca sempre que pode, e à socapa.

Diante de um quadro já adverso, Bush conseguiu piorar ainda mais as coisas, ao responder à crise com base no militarismo unilateral e dando permissão à ala neoconservadora do Partido Republicano para lançar-se em experimentos políticos. A idéia de combater o terrorismo democratizando "manu militari" primeiro o Afeganistão depois o Iraque, que sempre me pareceu meio estúpida, revelou-se na prática ainda pior.

No Afeganistão, até chegou a parecer que as coisas haviam dado certo. O Taleban se foi, e os afegãos puderam respirar um pouco de liberdade. Chegaram até a eleger um governo legítimo. Só que agora, verifica-se, é um regime precário, que não sobreviveria sem a presença de tropas internacionais. Financiando-se com dinheiro gerado pela produção de ópio, o Taleban está se reorganizando e lançando ataques cada vez mais ousados contra o governo de Hamid Karzai e os soldados estrangeiros. Parecem remotas as possibilidades de os militares liquidarem definitivamente a organização ultra-religiosa. E as tropas da Otan não permanecerão para sempre no Afeganistão, especialmente se continuarem a ser atacadas.

Já no Iraque a miragem durou muito menos. Os EUA mal tiveram tempo de celebrar a deposição de Saddam. A insurgência surgiu praticamente no dia seguinte, atacando soldados da coalizão. Em pouco tempo passou a explodir também iraquianos que se candidatavam a uma vaga na polícia ou no Exército. Hoje a situação é de guerra civil. Sunitas e xiitas se matam à razão de três dezenas por dia. Há risco de a violência atingir o norte curdo. A desintegração do país parece cada vez menos remota. Outras possibilidades que deixam Washington de cabelos em pé são a instalação, em Bagdá, de um regime atrelado ao Irã, e o envolvimento da Turquia, para impedir a fundação de um Estado curdo.

Mesmo que os piores cenários não se concretizem, não há dúvida de que os iraquianos estão hoje pior do que se encontravam sob Saddam Hussein, e que o país, que não mantinha vínculos com a Al Qaeda, acabou convertendo-se num celeiro de terroristas.

Passados cinco anos do 11 de Setembro, vivemos num mundo mais lúgubre e mais perigoso. O único consolo é que George W. Bush e os neoconservadores, embora não o admitam, dão mostras de ter aprendido alguma coisa com suas desastradas ações. Aos poucos, os EUA voltam a percorrer a trilha do multilateralismo, como ficou patente na crise nuclear envolvendo o Irã. É um salto gigantesco para George W. Bush, um minúsculo passo para a humanidade.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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