Pensata

Hélio Schwartsman

21/09/2006

O papa e o profeta

Quanto mais observo as coisas mais me convenço de que a História pode ser interpretada como uma sucessão de piadas prontas. Numa das mais recentes delas, milhares de muçulmanos saíram às ruas de diversas cidades em manifestações, algumas violentas, contra o papa. Organizações extremistas chegaram a pedir a cabeça do prelado. Mas não é isso que julgo engraçado --meu anticlericalismo não chega a tanto. O irônico aqui é que os protestos foram deflagrados porque, na semana passada, numa aula magna proferida na Alemanha, o sumo pontífice citou um obscuro imperador bizantino do século 14 que acusara o islã de ser violento. Assim, para provar que não são violentos, muçulmanos saem quebrando igrejas e conclamando os tementes a Deus a assassinar o papa. Ponto para o bispo de Roma.

Não sei se existem leis sobre liberdade de expressão no Vaticano --imagino que não; eles não gostam muito dessas coisas por lá--, mas é certo que o papa, pelo menos como cidadão alemão, tem o direito de dizer o que bem entende. No registro democrático, muçulmanos, protestantes, judeus ou macumbeiros que não gostem do que ele tenha afirmado podem legitimamente retorqui-lo. Vou um pouco mais longe e admito que possam xingá-lo e acusá-lo das piores heresias. Só não é razoável que partam para as vias de fato ou promovam quebra-quebras. Disputas religiosas tendem a ser interessantes --e intelectualmente produtivas-- enquanto ficam restritas ao reino das palavras. Quando um dos lados abandona o campo léxico para abraçar ações diretas, temos a senha para a carnificina.

E, já que devemos nos ater às palavras, convém examinar um pouco melhor o que o papa disse. O tema central de sua palestra era fé e razão. Lá pelas tantas, numa passagem em que supostamente pretende convidar o islã para o diálogo inter-religioso, Bento 16 evoca a figura de Manuel 2º Paleólogo (1350-1425), o qual, no curso de conversação com um "persa ilustrado", teria afirmado que tudo de novo que Maomé trouxe ao mundo foram "coisas más e desumanas, como a sua ordem para espalhar pela espada a fé que ele pregava". É verdade que, ao citar o imperador bizantino, o papa não o está nem corroborando nem contradizendo, mas apenas nos informando sobre o teor de uma colocação específica do "basileus".

Não sei se, pela teologia romana, o papa ainda é considerado infalível, mas parece aqui que, no plano político, ele fracassou --se seu propósito era mesmo contemporizar. Bispos, cardeais e principalmente papas podem ser acusados de muitas coisas, mas poucos ousarão chamá-los de ingênuos. Custa crer, portanto, que Joseph Ratzinger, que por muitos anos ocupou o politiquíssimo posto de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (o novo nome da velha Inquisição), tenha se deixado surpreender pela reação islâmica. Tal alegação até poderia, talvez, soar verossímil alguns meses atrás, mas não depois do episódio das charges de Maomé. No início deste ano, violentas manifestações contra a publicação, por um jornal dinamarquês, de ilustrações ofensivas ao profeta deixaram um rastro de destruição e morte por muitos países.

Se a intenção do sumo pontífice era mesmo encetar melhores relações com o islã, deveria abster-se de citar cruzados e imperadores bizantinos tardios, o que dá quase no mesmo. A sensibilidade muçulmana não fica a dever nada à de uma prima-dona ensaiando seus primeiros passos na decadência. Se seu desígnio era mesmo afirmar uma superioridade do catolicismo sobre o islamismo (o que não seria surpreendente para o chefe dos católicos), então o papa Ratzinger fica mais próximo do cardeal Ratzinger, apontado como o responsável pela epístola "Dominus Iesus" (2000), na qual o Vaticano diz com quase todas as letras que os que não acatam a "verdade" como interpretada pela Igreja Católica estão em apuros teológicos, "in statu gravis penuriae". A forma como "Dominus Iesus" coloca a questão é até diplomática, pois admite a possibilidade de graça para os não-católicos, ainda que "objetivamente" menor do que para o católico. Se quisermos, esta carta é a versão "light" do "Extra Ecclesiam nulla salus" (fora da Igreja não há salvação), do papa Bonifácio 8º (1294-1303).

Outro problema que vejo na fala de Bento 16 é o da parabólica primeira pedra. Não creio que a única contribuição do islamismo à humanidade tenha sido a violência. Eles também são os responsáveis pela conservação dos trabalhos de Aristóteles, o que não é pouca coisa. Mas é inegável, como sugeriu Manuel 2º Paleólogo, que o islã se expandiu à custa de muito sangue e conversões forçadas. E não foi a única religião a atuar dessa maneira. Este, aliás, é um ponto que aproxima as principais religiões monoteístas. Católicos tampouco hesitaram em utilizar-se da força e das armas para impor sua "verdade" a quem dela não desejava partilhar. É uma briga que guarda semelhanças com a disputa ente o PT e o PSDB para definir quem prevaricou mais. (O judaísmo desponta aqui como uma exceção parcial. Não por ser essencialmente melhor ou mais tolerante do que as outras. É que, como operava com a noção de povo eleito, raramente dava-se ao trabalho de converter outras populações).

Imagino que a religião tenha sido importante no curso da evolução. Ela é, como a linguagem e o tabu do sexo, um universal humano. Isso significa que poderá ser encontrada até no mais remoto e isolado grupamento de pessoas. Só que o fato de termos uma inclinação natural à superstição não nos obriga a ser irracionais o tempo todo. Eis-nos de novo no tema da aula papal. Bento 16, na melhor tradição católica, acha que a fé é racional. Eu não poderia discordar mais. Embora nem todos os elementos de uma religião precisem ser irracionais, existe um momento em que se exige do fiel que ele abrace a causa sem questioná-la: a verdade é revelada.

Pode ser, mas não foi revelada a mim. Ou melhor, para onde quer que olhe, encontro uma "verdade revelada" diferente, de modo que o bom senso recomenda desconfiar de todas. Por que o catolicismo seria mais certo do que o islamismo? Por que ambos superariam o judaísmo? O que há de errado com Zeus e os deuses olímpicos, que parecem psicologicamente bem mais ricos? E já que está na moda defender produtos nacionais, por que não ficamos com a explicação dos pajés para o mundo? Ou sem nenhuma?

Na maioria de seus discursos, Bento 16 se bate contra o relativismo e o ateísmo, que aponta como os maiores males a afligir o Ocidente. De novo, discrepo com veemência. Aliás, em minha santa ignorância, acho que um pouquinho de relativismo é fundamental para interpretar o mundo de forma coerente. Se apenas uma religião é a verdadeira, algo como 5/6 da humanidade está condenada à danação eterna. Faz sentido alguém perder direito ao jardim das delícias apenas porque nasceu em algum rincão do globo onde a "verdade verdadeira" ainda não chegou? Nenhum personagem de romance hebraico seria tão cruel. Acho mais razoável compreender todas os sistemas de crenças como manifestações diferentes de uma mesma predisposição humana, que pode ter base biológica (como acredito) ou divina (como crê a maioria). (Felizmente, não estamos aqui numa democracia, de modo que não preciso acatar a "decisão" do grupo majoritário).

Não duvido que alguém possa encontrar conforto e até felicidade na religião. Mas também é perfeitamente possível viver sem ela, do que minha existência dá testemunho. É claro que não sou o melhor dos seres humanos, mas tampouco me considero entre os piores. Pelo menos não saio por aí ameaçando matar o papa ou qualquer outra pessoa com cujas idéias eu não concorde. Se o mundo fosse um pouco mais relativista (não muito, só um pouco), acho que todos nos entenderíamos melhor. O papa, pelo menos, não estaria com uma "fatwa" sobre sua tiara.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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