Hélio Schwartsman
Muros de Babel
-- Papai-ê, não é que é fácil falar espanhol? É só falar tudo entupido.
Essa observação de meu filho David, de quatro anos e meio, acerca da sonoridade, a seus ouvidos, anasalada do idioma de Castela leva a algumas reflexões sobre a incrível capacidade das crianças para aprender línguas.
A experiência ensina que basta largar os pequenos num determinado meio lingüístico para que eles absorvam o idioma ali falado sem a necessidade de nenhum aprendizado formal. Dados levantados por pesquisadores mostram que, se as crianças adquirem a segunda língua até mais ou menos os sete anos, alcançam competência igual à de um falante nativo. Depois disso, o desempenho vai piorando à medida que aumenta a idade na qual se dá a exposição. Depois dos 17 anos, essa facilidade de base biológica parece perder-se e o que passa a valer é apenas a capacidade individual.
Ao ler essas interessantes informações no livro "Instinto da Linguagem", de Steven Pinker, meu primeiro impulso foi o de matricular David e seu irmão gêmeo, Ian, em aulas de inglês, espanhol, alemão. Já estava procurando na internet um curso de sânscrito para crianças quando atinei que a exposição ao idioma de que fala Pinker envolve muito mais do que uma ou duas aulas semanais de 60 a 90 minutos de duração. Seria preciso submetê-los a um ambiente em que a maior parte das pessoas interagisse com eles na língua-alvo durante a maior parte do dia. Se eu realmente quisesse tornar os meninos fluentes em, digamos, grego clássico, teria de me mudar com eles para a Atenas do século 5º a.C. --uma impossibilidade material, pelo menos no atual estágio da física.
Minha vontade de dotar os gêmeos do maior quinhão possível de poliglossia tem uma explicação: aprendi todas as línguas estrangeiras que falo na adolescência ou idade adulta e sei quanto custa assenhorar-se de uma gramática alheia.
Ando agora às voltas com o árabe, idioma cujo grau de dificuldade só reforça o meu desejo de poupar Ian e David das agruras de aprender outras línguas. (A bem da verdade, devo dizer que o árabe não é mais difícil do que o sânscrito, língua que me pôs para correr após seis meses de estudo; mas o árabe, ao contrário do sânscrito, é um idioma que podemos almejar a falar e ler sem o auxílio de dicionários e gramáticas, o que torna seu aprendizado bem mais complexo).
À primeira vista, o maior problema do árabe parece ser aquele belo alfabeto repleto de curvas sinuosas. Bobagem. Essa é a parte mais fácil. São apenas 28 letras, apesar de que mudam de forma conforme se encontrem no início, no meio ou no fim da palavra. Bem pior é o fato de o árabe não grafar a maioria das vogais. Sss ltrs pdm sr dspnsds qd j s cnhc lng, ms s sncia trn prndzd m nfrn pr stdnt. No Alcorão e nos livros destinados a iniciantes, é hábito indicar por meio de sinais diacríticos a vogal que deve ser pronunciada, mas tais acentos desaparecem nos textos "normais". E são justamente esses sinais que trazem preciosas pistas gramaticais (as declinações) que ajudariam bastante o aluno estrangeiro.
E isso é apenas o começo. É preciso dar nós nos neurônios e na garganta para tentar diferenciar e pronunciar de forma inteligível os cinco tipos diferentes de --vá lá-- "hh" (os vários sons que transitam entre aspirações, fricativas e guturais). O vocabulário, então, é quase desesperador. Sem o apoio mnemônico de vogais e de consoantes familiares, quase tudo soa igual. A diferença entre, por exemplo, rua, cabelo, cortar e lei islâmica pode tornar-se bastante sutil. O risco para o estrangeiro é pedir ao barbeiro para aparar o cabelo e sair com outra coisa cortada.
A gramática é especialmente copiosa e dada a idiossincrasias. Não são os três casos (relativamente simples) de declinação que me assustam. Tudo bem ter de aprender substantivos, adjetivos e verbos nos três números (singular, dual e plural). Também não vejo maiores problemas no fato de os verbos possuírem, apenas no presente, entre 10 e 15 formas diferentes que lhes alteram o significado. O sistema verbal do português tampouco é dos mais simples.
O que realmente desafia qualquer um (falantes nativos inclusive) é a lógica que preside aos numerais ordinais. Um e dois se comportam como adjetivos, concordando em gênero, caso e número com o substantivo. Até aí, tudo bem. Entre 3 e 10, ocorre o fenômeno da polaridade. Isto é, nomes femininos recebem o número que os modifica no masculino (algo como dois moças) e vice-versa (uma rapaz). Entre 11 e 19, os numerais voltam a concordar em gênero com os nomes e, grande alívio, tornam-se indeclináveis, ficando na forma do acusativo singular. Entre 20 e 99, os números terminados em 0, 1 ou 2 fazem a concordância de gênero "normal", mas os que acabam em 3, 4, 5, 6, 7, 8 ou 9 apresentam a tal da polaridade. Ainda não aprendi o que acontece depois do cem e até tenho medo de descobrir.
A descrição que fiz, admito-o, tem algo de jocoso. Mas o fato é que todo idioma encerra uma série de arbitrariedades que parecem excêntricas para um observador de fora. Crianças, entretanto, as assimilam sem dificuldades. De vez em quando, é verdade, apanhamos os pequenos de mais de três anos (quando sua fala já se tornou gramatical) em flagrante. Dói-nos nos ouvidos construções como "eu fazi" ou "os pãos", mas análises de lingüistas mostram que, na média, os garotos erram em apenas 0,1% a 8% das oportunidades lógicas que teriam para fazê-lo. Isto é, acertam em mais de 90% dos casos --e praticamente sem serem submetidas a contra--exemplos, a frases sem sentido gramatical, que pareceriam necessárias para aprender a evitar o erro.
Como já coloquei numa coluna recente, esse é um dos argumentos que levaram Noam Chomsky e outros lingüistas a propor a teoria da Gramática Universal, segundo a qual seres humanos já nascem equipados com um "software" lingüístico em seus cérebros. Tal programação explicaria a extrema facilidade do aprendizado de idiomas na primeira infância. A questão, então, passa a ser: por que perdemos essa notável capacidade?
Esse é um terreno que se presta mais a especulações do que a certezas, mas vale a pena dar uma conferida na hipótese desenvolvida pelos cientistas George Williams e Peter Medawar e apresentada por Pinker. A seleção natural não é politicamente correta. Ela apresenta um viés contra os velhos. É que processos bioquímicos como os que estariam na origem da facilidade lingüística das crianças têm custos metabólicos, que costumam ser particularmente altos quando envolvem o cérebro --esse órgão consome, sozinho, 20% do oxigênio presente no corpo e fatias igualmente generosas de energia e de fosfolipídios. Seria um luxo extremamente caro manter a alta permeabilidade ao aprendizado de idiomas ao longo de toda a vida.
E a lógica da evolução é implacável: características que beneficiem o indivíduo mais velho às expensas de fases anteriores tendem a ser extirpadas. A razão é muito simples e têm bases aritméticas: uma vez que a morte pode chegar a qualquer instante, são muito maiores as chances de alguém ser jovem do que de ser velho (é mais fácil uma pessoa completar um ano de idade do que 10, ou 20 ou cem). E seria um erro "enfraquecer" alguém de, digamos, 20 anos, com vistas a facilitar-lhe a vida aos 40. Bastaria essa pessoa dar de cara com um mamute desembestado para que o "investimento" se perdesse. Assim, genes que fortalecem organismos jovens à custa dos mais velhos são favorecidos pela matemática e tendem a acumular-se no transcurso do tempo.
É exatamente esse mecanismo que nos leva a envelhecer e morrer inexoravelmente. Em princípio, uma vez que as células do corpo se renovam continuamente, não seria impossível que fôssemos projetados para manter a mesma performance corporal ao longo de toda a vida. É, pois, uma simples anomalia estatística que nos afasta da imortalidade.
Voltando aos idiomas, outro efeito do "software" lingüístico em nós embutido é uma notável semelhança estrutural entre todos os idiomas falados na terra. É evidente que um brasileiro monoglota lançado no meio da Arábia Saudita teria dificuldades para comunicar-se. Mas, de um ponto de vista mais geral, todas as línguas operam com categorias, semelhantes que traduzem para seqüências de sons articulados o "mentalês", que é o "idioma" no qual cada ser humano efetivamente pensa.
A boa notícia é que toda idéia pode ser expressa em qualquer língua. Regozijem-se os poetas: a tradução é possível. A má é que, embora falemos todos diferentes dialetos de um mesmo idioma humano, estamos condenados a não nos entendermos, pois as variações existentes bastam para erguer muralhas que impossibilitam a intercomunicabilidade.
Restará a Ian e David o prazer de, depois de velhos, penar para aprender outras línguas e assim retirar alguns tijolos dos muros de Babel.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
