Pensata

Hélio Schwartsman

25/01/2007

Perseverança no erro

Chega de Deus. Hoje vou falar do titular do cargo que vem logo abaixo do de Criador: George W. Bush. Ele insiste. Apesar do fracasso político, militar e humanitário que se revelou a invasão do Iraque, o presidente norte-americano não apenas persevera no erro como ainda dá sinais de que poderá tornar mais radical sua estratégia para o Oriente Médio. Anteontem, no discurso sobre o estado da União, Bush confirmou o envio de mais 21.500 homens para o front e sugeriu que os EUA não têm outra saída. Além disso, pelo menos no nível retórico, a Casa Branca vem elevando o tom das ameaças contra o Irã e a Síria.

Que os resultados da intervenção no Iraque foram desastrosos, até os norte-americanos já se deram conta. Pesquisa do jornal "The Washington Post" e da rede de TV ABC publicada nesta semana mostra que Bush está com a pior avaliação de sua Presidência --65% de reprovação-- e isso basicamente por conta da guerra. Para 48% dos entrevistados, o principal problema da gestão é o Iraque. Nenhum outro tema atinge a marca dos dois dígitos. E 71% dos americanos vêem erros graves na condução do conflito. Apenas 26% acham que os EUA estão no caminho correto.

Em relação à ampliação do efetivo militar no Iraque, 65% são contrários à medida. Como se não bastasse, 59% da população, entre os quais mais de 25% de eleitores republicanos, defende que o Congresso democrata tome medidas para tentar impedir o despacho das brigadas extras.

O que surpreende aqui é a insistência de Bush nesse caminho. Além da "vox populi", o envio de mais tropas contraria o conselho dos ex-comandantes militares dos EUA no Iraque, os planos do premiê iraquiano Nuri al Maliki e a recomendação do comitê bipartidário que sugeria o início de uma retirada honrosa e o apelo à diplomacia, abrindo canais de comunicação com o Irã e a Síria.

A decisão de Bush também vai de encontro à experiência militar e política acumulada ao longo dos últimos quatro anos no Iraque. Tentativas semelhantes fracassaram. Os 21.500 soldados adicionais elevariam o efetivo norte-americano para 154 mil. Em pelo menos duas ocasiões, já estiveram ali 160 mil militares e, como se sabe, não resolveram a situação. Por que diabos o incremento das forças de ocupação daria certo agora?

No papel, é claro, o novo plano poderia funcionar para pacificar Bagdá, o que não seria pouco. Analistas acreditam que, se a violência for contida na capital, os confrontos sectários em outros bolsões do país tenderiam a diminuir. E o despacho de mais cinco brigadas --17.500 homens-- para Bagdá praticamente dobraria o contingente de militares norte-americanos envolvidos em operações de segurança ali. Não é uma força desprezível.

O problema da nova estratégia é que ela depende de muitos senões. Mesmo 35 mil homens é pouco para policiar uma cidade conflagrada de 6 milhões de habitantes. A idéia é que os norte-americanos atuem dando apoio a tropas iraquianas. Mas, para que isso funcione, seria preciso que as forças de segurança locais e as autoridades políticas estivessem plenamente empenhadas em conter a violência e manter um Iraque multiétnico unido.

Não é o caso. Para começar, parte das milícias xiitas que promovem a guerra civil estão infiltradas no Exército iraquiano. Os movimentos que o governo de Al Maliki fez recentemente contra membros dessas milícias, que o apóiam, parece mais um gesto ensaiado destinado a acalmar os americanos do que uma disposição real em partilhar o poder com a minoria sunita.

A idéia de trazer tropas curdas do norte também é problemática. A melhor chance que os curdos têm de formar um Estado nacional independente passa pela fragmentação do atual Iraque. Se não participam diretamente da carnificina, pelo menos secretamente torcem para que árabes sunitas e xiitas se destruam mutuamente.

Há quem interprete o aumento de tropas norte-americanas como um sinal de Bush para potências regionais, notadamente o Irã. É possível. A Casa Branca estaria dizendo que não tem nenhuma intenção de permitir que o Iraque, sob comando xiita, se torne um protetorado iraniano. Seria também uma forma de dizer que não vai tolerar que Teerã desenvolva armas atômicas. O problema de Bush é que lhe faltam meios materiais de transformar uma retórica dura em ações. Suas ameaças, embora não possam ser desprezadas, não são também muito críveis.

Para começar, uma operação militar de maior envergadura contra o Irã encontraria oposição dos generais do Pentágono --pouco receptivos à idéia de abrir um terceiro front--, do Congresso democrata e da própria população, que, ao contrário de Bush, parece ter aprendido algo com as lições do Iraque.

É estranho que o presidente norte-americano, que tem, como a maioria dos políticos, o gene do oportunismo, tenha desperdiçado as boas ocasiões que se lhe apresentaram para mudar o rumo de sua estratégia. A primeira chance veio logo após a vitória dos democratas nas legislativas de novembro. Ali, Bush foi célere em livrar-se de Donald Rumsfeld, seu então secretário da Defesa e principal arquiteto do caos iraquiano, mas a linha de ação permaneceu a mesma. A segunda oportunidade veio semanas depois com a divulgação do relatório bipartidário que recomendava dar início a uma retirada honrosa. Era uma forma de Bush ceder minimizando os ônus políticos de fazê-lo. Mais uma vez, recusou e, no último dia 10, apresentou seu mirabolante plano, que recebeu críticas de todos os lados.

É difícil dizer aonde a teimosia bushista vai levar. O efeito mais previsível, que já se desenha nas pesquisas, é uma fragorosa derrota dos republicanos nas eleições presidenciais de 2008.

Quanto ao Iraque, não parece haver muito o que possa ser feito a esta altura. A caixa de Pandora foi aberta. Com ou sem os americanos por lá, tudo indica que violência sectária vai continuar até que os xiitas submetam os sunitas ou que o país imploda --esta última a hipótese mais plausível. Isso levaria a um redesenho geopolítico de toda a região, cuja magnitude podemos apenas intuir.

Para não ficar apenas em críticas à Casa Branca, podemos dizer que a idéia de democratizar o Oriente Médio sempre foi boa. (Tenho dúvidas de que seja a receita para acabar com o terrorismo. A Espanha é hoje decididamente um país democrático e isso não impede o ETA de explodir bombas por lá. Até há pouco, o mesmo valia para a Irlanda do Norte com o IRA. De qualquer modo, é certo que instituições abertas não agravam o problema do terror). Já a maneira escolhida para fazê-lo foi a pior possível. A própria idéia de exportar a democracia "manu militari" é problemática. Embora em teoria isso possa ser feito --os próprios EUA conseguiram no caso do Japão no pós-guerra--, instituições democráticas só "pegam" quando encontram condições mínimas para prosperar. Evidentemente, elas não existiam no Iraque. Com a ajuda de Bush, estão cada dia mais longe de existir. Pior, os eventos no Iraque contribuem para abalar o já pouco prestígio da democracia em todo o Oriente Médio.

PS - Nas próximas semanas, darei uma merecida folga ao leitor. Saio de férias e retorno em março.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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