Hélio Schwartsman
Por trás das aparências
Segundo Platão, a filosofia surge com o "thaumázo", o maravilhar-se, não raro o resultado da percepção de que as coisas não são o que parecem. Em princípio, não haveria como não aplaudir a decisão do conselho de educação do condado de Cobb, na Geórgia (EUA), que alterou suas diretrizes pedagógicas para permitir que os alunos discutam "diferentes visões de temas acadêmicos". À primeira vista, a medida aprovada pelos conselheiros no final do mês passado serve para promover o debate. A um só tempo, ela incentiva a livre troca de idéias e oferece aos estudantes a oportunidade de confrontar opiniões e tirar suas próprias conclusões. Democracia e pluralismo. É o primeiro passo para formar seres pensantes, quiçá filósofos.
Por trás das aparências, contudo, o objetivo dos educadores de Cobb County é outro. Trata-se de permitir que a escola pública ensine criacionismo, isto é, que professores digam aos alunos que a evolução das espécies de Darwin apenas uma teoria pode ser esquecida em benefício de doutrinas rivais, como a do "design inteligente", que reconhece a evolução, mas afirma que a vida é complexa demais para ser produto de mutações aleatórias, sendo necessariamente obra de um ser pensante, mais conhecido como Deus.
Já abordei antes o tema Darwin X criacionismo, nas colunas __"O vento será tua herança" __, "Fé é fé e ciência é ciência" e "O 'design'ontológico", todas do início do ano passado. Um otimista se regozijaria com o fato de que os criacionistas estão melhorando. Os mais sofisticados deles já não defendem que o mundo foi criado em seis dias e que a mulher foi composta a partir de um pedacinho da costela de Adão. Hoje, sustentam que a Terra realmente tem alguns bilhões de anos e que a evolução das espécies ocorre, ainda que só com um empurrãozinho do Arquiteto do Universo.
Apesar do notável avanço, ainda prefiro os velhos criacionistas, que advogam pela literalidade do "Gênesis", o relato bíblico do surgimento do mundo. Eles ao menos são mais honestos. Defendem sua fé e ponto. Não pretendem fazer com que a ciência "prove" Deus, como esses novos criacionistas.
Repito aqui pela 37ª vez que nada tenho contra Deus ou as religiões. Coloco-os no mesmo patamar do sexo, das drogas e da literatura: fonte legítima de prazer para os apreciadores. Bastaria que ninguém tentasse impor a outrem suas preferências, e o mundo seria um lugar bem melhor do que é.
O leitor perspicaz vai me perguntar então qual é o problema de tentar fazer com que a ciência encontre Deus, como querem os partidários da teoria do design inteligente. Não seria algo assim tão diferente de preferir Dostoievski a Tolstoi ou caviar a "foie gras". De fato, esse raciocínio seria válido, se estivéssemos dispostos a cair num relativismo forte, como o defendido pelo filósofo da ciência Paul Feyerabend (1924-1994), que considera todos os tipos de discurso seja o da física, seja o da metafísica, seja o da cartomante como sistemas incomensuráveis e que estão em pé de igualdade.
Não creio que seja esse o caso dos neocriacionistas, pois, se fosse, lhes bastaria dizer que acreditam que Deus criou o mundo e pronto. Mas, quando recorrem a modelos matemáticos complexos para tentar demonstrar que a vida não poderia ser o resultado de padrões aleatórios de desenvolvimento, já estão implicitamente dando mais valor ao discurso científico do que à simples profissão de fé.
E, se nós vamos recusar o relativismo e admitir que o discurso científico possui algumas especificidades, então temos de reconhecer que ciência e Deus não combinam muito bem. Não estou afirmando que cientistas não possam acreditar em Deus ou que padres não devam levar a lei da gravidade muito a sério. Só quero dizer que é inútil tentar fazer a ciência explicar determinados relatos bíblicos como a abertura do mar Vermelho para a passagem do povo judeu, a transformação da mulher de Lot numa estátua de sal ou os 969 anos que viveu Matusalém. A fé se fundamenta no milagre, e todo milagre implica a negação de leis naturais. Quando entra o milagre, sai a ciência.
Para que um cientista possa ser religioso sem enlouquecer, ele precisa interpretar a Bíblia figuradamente (solução mais fácil) ou ser capaz de separar muito bem as questões de fé das racionais. Quando Deus quer, as leis da natureza deixam de valer. A física permanece uma possibilidade porque Deus não costuma realizar milagres o tempo todo.
O curioso do criacionismo é que ele prospera quase que exclusivamente nos EUA. É esse fenômeno que tento agora entender um pouco mais.
A América é definitivamente um país paradoxal. Enquanto suas universidades e instituições são as que mais e melhor produzem ciência, 45% da população acreditam que a criação do mundo se deu exatamente como o narrado no "Gênesis". E uma parte barulhenta desses criacionistas defende posições políticas bastante retrógradas, comparáveis às de teocracias como o Irã e o Afeganistão dos taleban.
Aqui, precisamos louvar a democracia norte-americana. Ao permitir que grupos mais radicais tenham expressão política, seja pela via do Parlamento seja pela de associações e igrejas privadas, evita conspirações. Está aí uma das razões para notável estabilidade institucional do país.
Os chamados "pais fundadores", ao escrever e emendar a Constituição, tiveram a profunda sabedoria de determinar uma separação radical entre Estado e religião (1ª Emenda). Na interpretação da Suprema Corte de 1968 (Epperson vs. Arkansas), jamais revertida, o darwinismo, que é uma ciência, pode ser ensinado nas escolas públicas, mas o criacionismo, uma crença religiosa, não. É por isso que os grupos religiosos se desdobram para tentar revestir suas convicções criacionistas de roupagem científica. É daí que brotam teses esdrúxulas como a do design inteligente. Já que a Constituição afirma que a escola pública não pode ensinar religião, é preciso transformar a fé em ciência.
O bom senso recomendaria que os grupos religiosos se contentassem em limitar o ensino de suas idéias às escolas dominicais (das igrejas). Só que as coisas não são tão simples. Não é tão fácil explicar para os jovens filhos de famílias religiosas a contradição entre o que a escola pública ensina e o que a igreja prega. Para pais fundamentalistas, a ciência e a escola pública e laica representam um desafio a suas crenças. E receio que esse não seja um fenômeno passageiro à caminho de uma acomodação. Essa novela do criacionismo X Darwin no sistema de ensino norte-americano já é centenária e não desaparece, mesmo com a chegada do homem à Lua e todas as conquistas tecnológicas prova indireta da precisão científica dos últimos anos.
Para encerrar a coluna sarcasticamente, afirmo que temos aí uma prova de que Darwin estava errado, de que a evolução das espécies ou pelo menos a das sociedades está longe de ser uma lei universal.
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Hélio Schwartsman, 44, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |

