Hélio Schwartsman
Ian, David e Kant
Peço antecipadamente desculpas ao leitor por voltar de férias falando de meus filhos gêmeos, Ian e David, agora com dez meses. A questão é que, como os cuidados com os meninos consumiram quase todo o meu tempo e o da mãe nas últimas semanas, vejo-me agora sem outro assunto sobre o qual discorrer.
Devo, antes de mais nada, reconhecer que a atividade de puericultor é estafante, sobretudo quando exercida em tempo integral. Fica consignada aqui minha homenagem às babas e sua difícil tarefa. Mas é também inegável que cuidar de crianças proporciona momentos gratificantes. No caso de gêmeos, observar a incipiente interação entre os garotos constitui ainda uma experiência antropológica sem igual.
Que me perdoe Thomas Hobbes, mas basta ver os dois brincando para concluir que existe, sim, uma sociabilidade inata no ser humano. É claro que, por vezes, essa sociabilidade assume um caráter negativo, degenerando-se facilmente num estado de guerra, que, se ainda não é a guerra de todos contra todos é pelo menos a guerra da chupeta.
Se é lícito generalizar para toda a humanidade o que verifico passar-se entre os dois, devo dizer que o ser humano pode tornar-se facilmente egoísta, ganancioso e violento. Mesmo que esteja cada um em posse de sua chupeta, é frequente que um deles arranque esse precioso objeto da boca do outro. Como ocorre na sociedade, na qual os mais ricos não jantam duas vezes por possuir mais dinheiro, o bebê que subtraiu a chupeta não tenta colocá-las as duas na boca ao mesmo tempo. Ele até poderá trocar a que vinha usando pela recém-adquirida, mas essa não é uma regra. Na verdade, ele parece encontrar um prazer lúdico no simples ato de privar o irmão de um artigo desejado. Poderia haver também a intenção de dar início a um processo de acumulação primitiva de chupetas, mas não acredito muito nessa hipótese. Elas são rapidamente abandonadas assim que surge uma outra atividade mais interessante.
Contra todas as expectativas, o bebê-vítima pode também ele divertir-se com a brincadeira, embora isso só aconteça na minoria das vezes, quando ambos estão excepcionalmente bem-humorados. A reação padrão é mesmo a tentativa de reaver a chupeta e/ou o choro, que ainda pode ou não ser acompanhado de gestos mais violentos. Devo admitir que fiquei chocado com o vigor com que mesmo um bebê supostamente indefeso pode reagir. Certa vez, Ian, mais forte e mais ágil do que David, tomou-lhe a chupeta como já havia feito tantas outras vezes, mas David, em vez de apenas chorar, tomou o braço de Ian e cravou-lhe os dentes. Não sei se já não estou projetando coisas, mas identifiquei em sua atitude o dolo, a intenção de ferir.
Antes que o leitor considere que estou criando monstros, devo dizer que eles também são capazes de atos de carinho. Uma coisa que pais de gêmeos jamais devem fazer é dar a mamadeira para um, deixando o outro em estado de abandono. Bem, fiz isso uma vez. Ian, que já havia sido alimentado, testemunhava impassível a entrega da mamadeira a David. Nem bem virei as costas, Ian surrupiou o leite ao irmão, que, ato contínuo, abriu o maior berreiro. Ian parece ter se dado conta de que fora o responsável pelo sofrimento de David e imediatamente procurou consolar o infeliz, dando-lhe de mamar. A estratégia evidentemente falhou no que diz respeito ao controle do choro, mas serviu para enternecer o pai e a mãe, que assistiram a tudo.
Existem, porém, coisas que não nos são dadas assistir. Eles gostam de perseguir um ao outro engatinhando por todos os cômodos de onde estiverem. De vez em quando, eles se embrenham num quarto qualquer e se ouvem sonoras gargalhadas. Até hoje não sei o que fazem nessas situações, mas elas costumam acabar quando um deles normalmente Ian, que já fica em pé sem necessidade de apoio e dá seus primeiros passinhos se estatela no chão.
O curioso é que, até dois ou três meses atrás, os meninos praticamente se ignoravam. Essa recente descoberta do "outro" me parece o primeiro indício mais sólido de que eles estão se civilizando. As palavras que a filosofia utilizou para descrever esse sentimento hoje soam obsoletas: "compaixão" ou, numa versão helenizada, "simpatia", que descrevem a capacidade que nós temos de nos comprazer ou sofrer com a alegria ou tristeza do outro.
E não há muita dúvida de que o fundamento da civilização é o reconhecimento do outro. Já li em algum lugar que o ser humano é o único animal capaz de colocar-se no lugar de seu semelhante, mais ou menos como Ian fez com David quando se apiedou pelo roubo da mamadeira. Não sei se essa afirmação é zoologicamente exata, mas isso nem é tão importante. O fundamental é que temos essa capacidade e, embora nem sempre a utilizemos, é ela que nos permite agir eticamente, isto é, de acordo com um sistema de valores (como certo e errado, bom e mau), que pode ser aplicado a nossas condutas. Esses valores encontram sua fundamentação justamente nessa nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.
Quem melhor elaborou a questão foi, como sempre, o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804). Para Kant a ética se materializa no que ele chamou de imperativo categórico fundamental: "Age de acordo com uma máxima tal que possas querer, ao mesmo tempo, que ela se torne lei universal". Esse imperativo, cuja forma simplificada é "faze aos outros o que gostarias que te fizessem", não deve ser obedecido porque foi ordenado por Deus ou pela lei, mas porque é um corolário da razão humana. Não segui-lo é, de algum modo, renunciar à razão.
Kant, que não era louco, obviamente reconhecia que o mundo não era uma sociedade de anjos. Explicava-o pelo fato de que nenhum de nós age apenas racionalmente.
Não creio que Ian e David já sejam capazes de entender Kant sou um pai coruja, mas dentro dos limites da razão, contudo, ao reconhecer o outro e perceber suas necessidades, dão seus primeiros passos na difícil tarefa de civilizar-se. É um privilégio ser espectador desse processo, em que pese as birras, manhas, chantagens e outros efeitos colaterais do uso da razão.
Termino a coluna com uma inconfidência. Os garotos exigem tamanha e tão contínua atenção que chegar na Folha na segunda-feira para trabalhar depois de um fim de semana inteiro com eles representa acima de tudo um alívio.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
