Hélio Schwartsman
Guerra sempiterna
A guerra de George W. Bush contra o Iraque, que parece a cada dia mais próxima, se fará com mísseis teleguiados e equipamentos de última geração. Ainda assim, é uma guerra, e as guerras, sejam elas longas ou breves, justas ou injustas, antigas ou modernas, permanecem, desde tempos imemoriais, essencialmente as mesmas.
Uma das melhores definições é a de Heródoto, que, quase 2.500 anos atrás, escreveu: "Nenhum homem sensato pode preferir a guerra à paz, pois, na guerra, os pais enterram seus filhos, enquanto, em tempos de paz, são os filhos que enterram os pais". Para o pai da história, portanto, a guerra não apenas é obra de insensatos como ainda perverte a ordem natural das coisas.
Outro que capturou de forma poética a dimensão trágica da guerra foi Horácio, que, num de seus mais belos versos, diz: "Muitos amam os campos militares, o som do clarim mesclado ao da trombeta, e as guerras, detestadas pelas mães". (Como minha tradução ficou poeticamente capenga, ofereço ao leitor o sabor do original latino: "Multos castra iuvant et lituo tubae permixtus sonitus bellaque matribus detestata"). ("Odes", I, I, 24-25). As palavras vão surgindo épicas, marciais. Quase que se pode ouvir clarins e trombetas soarem. Mas a sequência é quebrada, com uma violência elegantemente apenas sugerida, pela menção às mães, que ficarão sem seus filhos.
Isto é a guerra, e, se a tecnologia mudou alguma coisa, ela apenas permitiu que mães, filhos e famílias inteiras fossem mortos ao mesmo tempo e em grande escala, o que não chega a ser um belo feito humanitário. Por mais que os métodos de matar tenham-se aperfeiçoado, guerras seguem sendo insensatas e pervertendo a "ordem natural" das coisas.
E a guerra de Bush para depor o regime iraquiano consegue ser especialmente insensata. Não se trata, é óbvio, de defender Saddam Hussein, que não passa de um tirano especialmente impiedoso numa região pródiga em ditadores e fecunda em crueldades. Saddam foi capaz de utilizar armamento químico contra seu próprio povo, um caso único no mundo. No episódio que ficou conhecido como o massacre de Halabja, de março de 1988, o ditador lançou gases tóxicos contra separatistas curdos do norte do país, matando entre 3.000 e 5.000 pessoas, incluindo muitas crianças.
Saddam também é capaz de empregar meios convencionais de assassinar e torturar. Ele subiu na hierarquia do partido Baath matando correligionários. Poucos dos que ousaram fazer-lhe oposição ainda estão vivos. Só sua campanha contra os curdos resultou na morte ou no desaparecimento de 100 mil opositores, segundo a Anistia Internacional. Há denúncias de que seu regime extrai confissões torturando crianças diante de seus pais.
Qualquer um que tenha um mínimo de apreço pelo que se convencionou chamar de direitos humanos só poderia aplaudir de pé a queda de Saddam Hussein. Infelizmente, nossa ânsia por justiça não basta para tornar legítima a guerra contra o Iraque, pelo menos não pelas razões que Bush vem apresentando.
O presidente norte-americano coloca a campanha contra o Iraque como uma batalha na luta contra o terrorismo. Só que não apresentou nada ligando Bagdá aos ataques de 11 de setembro. Anteontem, no discurso sobre o estado da União, o presidente afirmou que existem "evidências" de que o Iraque "ajuda e protege terroristas, incluindo membros de Al Qaeda". Mas não forneceu detalhes nem especificou o que entende por ajudar e proteger.
De concreto, temos apenas que, no passado, Saddam deu abrigo a alguns célebres terroristas internacionais como o palestino Abu Nidal e pode até ter patrocinado uma ou outra ação no estrangeiro. Mas, desde a Guerra do Golfo (1991), o país vinha se mantendo prudentemente afastado de atividades que pudessem dar lugar a represálias norte-americanas.
Pelo menos publicamente, o mais longe que chegou foi prometer dinheiro às famílias dos homens-bomba palestinos que morressem em atentados contra israelenses. É um escândalo, concordo, mas a Arábia Saudita faz mais ou menos o mesmo e segue sendo uma boa aliada de Washington.
Acho que os EUA têm direito de defender-se do terrorismo utilizando a força, mas é preciso antes encontrar os terroristas. Não vale sair atirando contra qualquer povo que fale árabe e cujos líderes (mesmo que tiranos) tenham desavenças com a Casa Branca.
O outro "casus belli" de Bush contra o Iraque é a suposta existência de armas de destruição em massa. Pessoalmente, acho bastante verossímil que Saddam possua algum armamento químico e biológico, mas isso ainda não foi provado pelos inspetores da ONU que estão no país em busca desses arsenais. Um mínimo de respeito às regras do devido processo legal exigiria que as provas fossem exibidas antes da aplicação da sanção, mas o presidente norte-americano vem dando repetidas mostras de que está disposto a ignorar esse princípio.
O gesto é particularmente estúpido. Mesmo que Saddam ainda possua alguns Scuds com ogivas químicas, ele dificilmente os usaria no atual "statu quo". Ele sabe que, se investisse contra Israel, seu alvo preferido, sofreria uma retaliação implacável. Dependendo dos estragos que infligisse ao Estado hebreu, Bagdá ou alguma outra cidade iraquiana poderia até sofrer um ataque nuclear limitado por parte das forças israelenses. Também parece improvável que o Iraque utilize armamento não-convencional contra outros potenciais inimigos, que podem incluir, além dos EUA, curdos do norte do país, xiitas do sul ou mesmo Irã, Kuait e Arábia Saudita. Saddam sabe que Bush está no seu encalço e pouco provavelmente lhe daria um motivo real para agir, neste caso com o apoio da comunidade internacional.
Paradoxalmente, a campanha militar norte-americana oferece a Saddam um dos poucos cenários em que a utilização de armas de destruição em massa se torna crível. Acuado, Saddam poderia, numa atitude desesperada, lançar um ataque químico contra Israel ou contra forças americanas "no solo sagrado da Arábia Saudita", numa tentativa de atrair para o seu lado as famosas massas árabes.
Diante de uma guerra fadada a destroná-lo ou matá-lo, o ditador também poderia franquear seus arsenais a terroristas dispostos a tentar uma ação espetacular nos EUA ou na Europa. Paradoxalmente, a possibilidade de manter-se vivo e no poder funciona como uma espécie de freio a seus piores instintos.
O Iraque, hoje, não é uma ameaça maior do que era 12 anos atrás, quando George Bush pai desistiu de derrubar Saddam ao final da Guerra do Golfo. Ao contrário, o país perdeu poderio desde então. Na verdade, Saddam constitui, hoje, um perigo menor do que aquele que representava em 1991 ou mesmo em 1988, quando os EUA armavam e ofereciam apoio logístico ao ditador que estava em encarniçado conflito com o Irã.
A eventual deposição de Saddam seria um feito a comemorar. Até faria sentido uma ação militar contra ele se estivéssemos dispostos a reformar o mundo inteiro e derrubar todos os ditadores do planeta. Receio que este não seja o caso. Os EUA seguem apoiando vários outros tiranos, mas que têm a virtude de ser aliados de Washington.
Como certa vez afirmou o presidente da França, Jacques Chirac, política externa se faz "com alguns princípios e um pouco de ordem". Bush até pode e parece que vai atacar o ditador de que não gosta e assim ter acesso às ricas reservas petrolíferas iraquianas, mas ele está pedindo demais ao exigir que o mundo inteiro o apóie nessa empreitada. A grande vítima dessa aventura será, como se sabe, a população iraquiana. E o que me assusta nessas guerras modernas é que, quando uma dessas "bombas inteligentes" erra o alvo e atinge civis, já nem sobram mães para enterrar seus filhos, no que constitui uma perversão, até, da lógica distorcida da guerra.
![]() |
Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
