Pensata

Hélio Schwartsman

06/02/2003

Bush, o eleito

Começo com uma breve coletânea de passagens do discurso sobre o Estado da União, que o presidente George W. Bush fez na semana passada.

"As qualidades de coragem e compaixão pelas quais nos esforçamos na América também determinam nossa conduta no exterior. A bandeira americana representa mais que nosso poder e nossos interesses. Nossos Fundadores dedicaram este país à causa da dignidade humana _os direitos de cada pessoa e as possibilidades de cada vida. Esta convicção nos leva ao mundo para ajudar os aflitos, e defender a paz, e perturbar os propósitos dos homens maus."

"À medida que nossa nação move tropas e constrói alianças para tornar nosso mundo mais seguro, devemos lembrar também que nosso objetivo como país abençoado é tornar este mundo melhor."

"Este país pode liderar o mundo para poupar pessoas inocentes de uma praga da natureza [a Aids]. E este país está liderando o mundo no combate e derrota do mal, feito pelo homem, do terrorismo internacional."

"Agora, neste século, a ideologia do poder e da dominação apareceu novamente, e busca ganhar as armas mais avançadas do terror. Mais uma vez, esta nação e todos os nossos amigos são tudo o que se ergue entre um mundo em paz, e um mundo de caos e alarme constante. Mais uma vez, somos chamados para defender a segurança de nosso povo, e as esperanças de toda a espécie humana. E aceitamos esta responsabilidade."

"Se isso não for maldade [o regime de Saddam Hussein], então maldade não tem nenhum significado."

"Nós procuramos a paz. Nós lutamos pela paz."

"A América é uma nação forte e digna no uso de sua força. Nós exercitamos o poder sem triunfo e nos sacrificamos pela liberdade de estranhos."

"Os americanos são um povo livre, que sabe que a liberdade é um direito de cada pessoa e o futuro de toda nação. A liberdade que temos não é um presente da América para o mundo, é um presente de Deus para a humanidade."

Exceto pelo último fragmento, no qual o mandatário norte-americano demonstra algumas partículas de humildade ao atribuir a criação da liberdade a Deus e não à América, os trechos selecionados se caracterizam por arrogância, megalomania, superficialidade e maniqueísmo, tudo isso temperado por um notável viés narcisista.

A América é ninguém duvida o país mais poderoso da terra, mas isso não transforma seus habitantes em anjos a serviço do bem, não torna seu líder máximo num intérprete infalível dos desígnios de Deus, nem seus soldados em abnegados mártires da causa de um mundo melhor. Se o que vale é a democracia uma pessoa, um voto, haverá no planeta mais gente que pensa exatamente o contrário.

Antes que me acusem de perpetrar mais um texto para falar mal de Bush, previno que minha intenção nesta coluna é procurar entender melhor o presidente dos EUA e, assim, de algum modo defendê-lo das fortes críticas que boa parte do mundo hoje lhe dirige.

Se fôssemos tão maniqueístas quanto o próprio Bush em seu discurso, estaríamos diante uma alternativa exclusiva extrema: ou bem o presidente dos EUA seria um "naïf" patológico, capaz de dar crédito a ficções geopolíticas comparáveis à crença em Papai Noel, ou então seria um crápula manipulador que, para apoderar-se das ricas reservas petrolíferas iraquianas, não hesitaria em mentir para seu próprio povo e sacrificar dezenas, talvez centenas, de milhares de vidas.

Não creio que a nossa disjunção seja exclusiva. Não me parece impossível que Bush possa estar de olho no petróleo do Iraque, admitir sacrificar algumas vidas de inocentes e, ao mesmo tempo, ver-se como uma pessoa razoavelmente correta e equânime, isto é, julgar-se genuinamente do lado do bem.

Por uma questão de justiça, é preciso dizer que raciocínio idêntico vale para Saddam Hussein. Em algum recôndito de sua tortuosa alma, ele deve acreditar que faz o que é certo.

Esse pequeno milagre dialético, essa conciliação instantânea de antíteses, é possível pelo menos subjetivamente graças ao mecanismo psíquico do auto-engano. Como já fiz em coluna anterior

http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/

schwartsman_20000810.htm

, resumo de modo brutal o cerne do belo livro "Auto-Engano", de Eduardo Giannetti.

Basicamente nós somos todos uns mentirosos. Mentimos para sobreviver. E não somos apenas nós. Essa é uma característica de quase tudo o que é vivo. Até o camaleão quando muda de cor para enganar predadores e presas está de alguma forma mentindo.

No caso particular do gênero humano, cujos representantes são piores atores do que o camaleão, mentirá melhor (e terá maiores chances de sucesso) aquele que acreditar na própria ilusão. E, como a nossa espécie vem há dezenas de milhares de anos dependendo de mentiras não só para subsistir como também principalmente para reproduzir-se, acabamos sucumbindo à pressão seletiva e desenvolvemos a notável capacidade de acreditar em nossas próprias fábulas. É a chave de nosso sucesso. Assim, o jovem sedutor que crê em suas juras de amor eterno parecerá um parceiro mais confiável e terá maiores chances de levar a garota desejada para a cama. Mesmo que, no fundo, ele jamais tenha tido a intenção de ser realmente monogâmico, obteve uma vantagem por ter sido "tolo" o suficiente para acreditar, ainda que momentânea ou apenas parcialmente, em suas próprias mentiras.

É claro que essa capacidade de auto-engano tem limites. Nem Bush (acho) pode estar plenamente convencido de que tudo o que quer é o bem da humanidade e de que o petróleo e a geopolítica desempenham papel menos do que secundário em seus projetos. Mas tudo no mundo é matizado e complexo o bastante para permitir múltiplas interpretações. Ainda que possa parecer esquizofrênico, não é impossível que o presidente americano considere que está fazendo a coisa certa ao lançar bombas sobre civis iraquianos e terminar de atirar o mundo numa recessão.

Se Bush, eu, você, leitor, ou Saddam Hussein não fôssemos capazes de construir para nós mesmos auto-imagens pelo menos deglutíveis e nelas acreditar, a vida nos seria insuportável. Uma apreciação objetiva de todos os nossos defeitos e erros nos levaria inexoravelmente ao suicídio. Ninguém conseguiria conviver com o crápula que às vezes pode ser.

Não estou, com essas ponderações, afirmando que o presidente dos EUA deve mesmo invadir o Iraque ou já o isentando de uma possível acusação de crimes de guerra. Só não acho que devemos rotulá-lo como um manipulador celerado que só pensa em petróleo e, com isso, parar de refletir sobre as posições de cada parte nesse conflito que se desenha e procurar entendê-las. (Desconfio até de que o grande problema dos americanos é acreditar muito seriamente que eles são o novo povo eleito e que têm mandato divino para zelar pelo mundo).

O exercício da razão exige justamente que consigamos superar nossa tendência de acreditar em tudo o que nos convém e nos tornemos capazes de pensar sob diferentes perspectivas. A própria guerra só é possível quando ambos os lados em conflito enxergam exclusivamente as suas razões, isto é, as suas mentiras. E assim o fazem porque nelas crêem com a fé cega que caracteriza os tolos.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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