Hélio Schwartsman
O gesto terrível
O escritor existencialista Albert Camus (1913-1960) certa vez escreveu: "Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia".
Esse problema vem sendo respondido individualmente por milhares de pessoas. Só no ano 2000, 815 mil pessoas tiraram a própria vida em todo o mundo. Trago agora um dado que surpreenderá a muitos. Esse número representa mais do que o total de assassinatos ou de mortos em guerras no mesmo ano. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), das 1,6 milhão de mortes violentas registradas em 2000, 815 mil se deveram a suicídios, 520 mil a homicídios e 310 mil a conflitos armados. Colocando de outro modo, em cálculos grosseiros guerras matam uma pessoa a cada minuto e meio; homicídios o fazem a cada minuto. Já o suicídio tira a vida de um indivíduo no planeta a cada 40 segundos.
Essas cifras são especialmente chocantes para nós brasileiros, porque nosso país é um daqueles nos quais os assassinatos superam em muito os suicídios. As taxas por 100 mil habitantes por aqui são de 23,5 contra 4, quase seis vezes mais. No cômputo geral, porém, quando se consideram as gigantescas populações asiáticas, entre as quais o suicídio é muito mais popular que o homicídio, chega-se ao índice global de 14,5 suicídios por 100 mil habitantes. (As taxas mundiais para homicídios e guerras em 2000 foram de 8,8 e 5,2, respectivamente).
Cabe lembrar que a qualidade desses números é baixa, pois há desde países cujas estatísticas inspiram pouca confiança até aqueles que simplesmente não as fazem. O fenômeno da subnotificação, principalmente no caso dos suicídios, também precisa ser considerado.
Mas chega de chatear o leitor com cifras e tendências demográficas. Como disse no início, o que me interessa aqui é discutir o suicídio em termos filosóficos. Não tenho a pretensão de responder à questão de Camus, mas acredito que pode ser interessante dar uma espiadela em algumas das respostas que filósofos modernos deram à proibição que a civilização judaico-cristã, com a ajuda da tradição platônico-aristotélica, impuseram ao suicídio.
Está tudo nas obras de santo Tomás de Aquino (1225?-1274). O suicídio é errado porque contraria a lei natural, faz mal à família e à sociedade e, mais importante, ofende a Deus, a quem nossas vidas pertencem. (É curioso como até Platão, que era tecnicamente um pagão, afirma um Deus-proprietário muito semelhante ao judaico-cristão quando proíbe o suicídio no "Fédão").
Poderíamos passar anos discutindo essas questões. Como não dispomos de todo esse tempo, vou resumir grosseiramente a saborosíssima contestação de David Hume (1711-1776) à idéia de que Deus proibiu o homem de suicidar-se. Quem quiser pode consultar o original "Essay on Suicide". Vale a pena. Não é longo e traz imagens deliciosas, como a que equipara veias e artérias ao Nilo e ao Danúbio.
Para Hume, Deus governa o mundo material através de leis gerais e imutáveis às quais todos os corpos, "do maior planeta à menor partícula de matéria", estão sujeitos. Para conduzir o mundo animal, Ele dotou todas as criaturas com forças corpóreas e mentais, como sentidos, paixões apetites, memória e juízo. Esses dois mundos interagem continuamente.
Como regra geral, Deus deu ao homem e aos animais o poder de alterar a natureza em proveito próprio. É assim que é lícito à humanidade emprestar a força dos rios para mover moinhos e rodas d'água. Em princípio, portanto, nada há de errado em alterar o curso da vida (suicidar-se) em busca de maior quinhão de felicidade, isto é, para pôr fim a um estado de miséria ou sofrimento, por exemplo.
Para o filósofo escocês, toda vida, seja a do homem ou a da ostra, está limitada apenas pelas leis da natureza e pelas habilidades que lhe foram dadas pelo Criador. Se não há crime em "desviar o curso do Nilo ou do Danúbio, sendo eu capaz de fazê-lo, onde está o crime em desviar algumas onças de sangue de seu canal natural?"
Deixemos agora o bom Hume de lado e vamos dar um pulo de dois séculos até os filósofos existencialistas, mais especificamente Sartre. Nesse salto, vamos perder Deus, mas encontraremos algumas semelhanças surpreendentes entre as argumentações do francês e do escocês.
A perda de Deus não é exatamente uma boa notícia. Sem o Criador, nós ficamos sós no mundo. Pior, sabemos que vamos morrer e então não seremos nada. Se há palavras que descrevem bem a condição humana no existencialismo, elas são: angústia, desespero, absurdo, náusea. Só o que resta, para Sartre, é a liberdade, ainda que "situada", ou seja, sob condições externas não controladas pelo indivíduo. Se quisermos, as "situações" sartreanas são um outro nome para as "leis gerais e imutáveis" e para as "forças corpóreas e mentais" de Hume.
A liberdade sartreana opera mais como um fardo do que como uma dádiva. "Estamos condenados à liberdade" é o grande lema existencialista. Não escolhemos existir, mas, uma vez lançados no mundo ao nascer, somos os únicos responsáveis por tudo o que fazemos. A liberdade é matéria-prima da existência e, assim, um dos ingredientes de nosso mal-estar para com o mundo. E o peso dessa liberdade é tamanho que muitas pessoas são vítimas de uma decepção intelectual que Sartre chama de má-fé. Sob essa condição, o homem deixa-se convencer de que não tem liberdade de escolha, transforma o sujeito livre que é em objeto. O principal para o existencialismo, contudo, é que sempre está em nosso poder alterar nossa existência, cuja liberdade só cessa com a morte. Daí que Camus afirmou que o suicídio é a única questão filosófica realmente importante.
Já afirmei em outra coluna (Geworfenheit, de 25/04/2002), que, embora alguns dos postulados do existencialismo me seduzam, não consigo aderir a essa corrente filosófica. Por mais absurda, gratuita e caótica que seja a condição humana, não renuncio à idéia de que podemos imprimir um pouco de ordem à baderna e instituir noções, ainda que inteiramente artificiais e gratuitas, de justiça, culpa, prazer. Elas não precisam ser reais, basta que as consideremos como tal. Por outro lado, não acho que devamos recair no extremo oposto de inventar um Deus que só serve para nos oprimir.
E o suicídio é uma boa arma contra esse Deus-castrador e contra outros aborrecimentos. Funciona um pouco como a bomba atômica no contexto da Guerra Fria: uma arma que não deve ser usada, mas cuja existência proporciona uma certa segurança, a garantia última de nossa liberdade. Faço minhas as palavras do estóico Epicteto a respeito do "gesto final": "Acima de tudo, lembra-te de que a porta permanece aberta. Não sejas mais medroso do que as criancinhas, mas faze como elas quando estão cansadas de seus jogos e gritam 'não brinco mais'; quando estiveres em situação similar, grita 'não brinco mais' e parte; mas, se ficares, não chores".
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
