Hélio Schwartsman
Para além do nome
A vida não é justa, como gosta de dizer Ian, um de meus filhos gêmeos, agora com seis anos de idade. O pior aconteceu. Nosso cão Lico (forma apocopada de Licurgo, o legendário legislador espartano) morreu. Nós bem que vínhamos preparando os meninos para o desfecho definitivo. Lico, afinal, um weimaraner de 12 anos de idade, estava internado havia uma semana, com problemas nas articulações traseiras e uma função renal de fazer dó.
Meu irmão foi o portador da má nova. Não se permitiu circunlóquios nem eufemismos: --O Lico morreu esta manhã. Foi uma choradeira. Ian enfiou-se debaixo da mesa e disse que nunca voltaria a sair. David, mais intelectual, pôs-se a maldizer a sorte e decretou que, dali em diante, odiaria as quartas-feiras, dia da semana em que teve lugar o "passamento".
De minha parte, tentei consolá-los com o argumento eutanástico. Expliquei que havia um lado bom, pois o cão havia deixado de sofrer. Foi em vão. Minha mulher, numa inaudita concessão a suas convicções materialistas, disse-lhes que, embora não exista um céu para pessoas, os cachorros, por serem muito bonzinhos, contavam com um. Não acreditaram. O ateísmo é mesmo um vírus contagioso.
Com a morte de Lico, aceleramos o projeto de adquirir um novo animal. Agora que moramos numa casa, conjugar crianças, dejetos caninos e higiene tornou-se factível. A cadelinha que tentamos manter enquanto estávamos num apartamento, a Bis, teve de ser exilada e posteriormente doada. Desta vez, raça eleita foi a golden retriever.
Demos uma sondada no mercado e, no fim de semana, localizamos e compramos um filhote. O bicho é uma graça. É a cara do ursinho Knut quando bebê. Na volta do canil, já com o novo membro da família no carro, a questão emergiu: como iríamos chamá-lo?
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É justamente este o propósito da coluna de hoje. O que há por trás de um nome? As complexidades envolvidas no ato de dar nome às coisas não passaram despercebidas pelos mais antigos, como o atesta a chamada querela dos universais. Sócrates e Pedro, por exemplo, são indivíduos, particulares, que têm existência concreta. Ambos têm um atributo que lhes é essencial: são homens, um universal. A questão é: homem, ou melhor, a "hominidade", existe?
De maneira esquemática, para Platão, a "hominidade" tem existência concreta no mundo das idéias. Aristóteles também atesta a sua realidade, mas nos indivíduos, não numa plano à parte. Se destruíssemos todos os intelectos que pensam a "hominidade", ela ainda assim subsistiria em cada homem singular.
A posição que mais se aproxima da do senso comum de hoje foi postulada por filósofos medievais como Abelardo (1079-1142) e Guilherme de Ockham (c.1285-1347/49). "Grosso modo", a "hominidade" existe apenas como conceito em nossos intelectos. Na versão mais radical de Ockham, conhecida como nominalismo, as idéias gerais não existem; são apenas nomes, ruídos, que aplicamos a coisas reais para designar semelhanças.
A questão é colocada de modo quase poético no problema do nome da rosa. Para Abelardo, o nome da rosa, mesmo que não houvesse mais rosas, significaria alguma coisa em nossas mentes, ou a própria proposição "não existem rosas" deixaria de fazer sentido.
Minha principal referência nas considerações que se seguem é "The Stuff of Thought" (a matéria do pensamento), de Steven Pinker. Colocando o problema do nome da rosa numa terminologia mais atual, nomes podem designar alguma coisa ou categoria de coisas em particular (referência), como no caso de "esta rosa", "aquela rosa", ou funcionar como uma fórmula-resumo (significado), uma idealização do conceito de rosa a partir do qual forjamos uma definição que servirá para indicar qualquer rosa. Embora não seja nada trivial criar definições, elas têm a enorme vantagem de caber melhor em nossas cabeças. Ninguém conheceu nem conhecerá todas as rosas do mundo, mas a idéia abstrata de rosa nos permite identificar e classificar corretamente cada uma delas quando as vemos.
É claro que as funções de referência e significado nem sempre batem. Como certa vez observou Voltaire, o Sacro Império Romano (designação dada ao mosaico de Estados alemães entre 962 e 1806), não era sagrado, nem era um império, nem era romano. De modo análogo, é difícil aceitar as noções de inteligência militar e maioria moral sem ao menos esboçar um sorriso de desconfiança.
O que me interessa hoje, entretanto, são os nomes próprios. Há uma riquíssima discussão filosófica sobre o assunto que desembocou nas teorias de Saul Kripke e Hilary Putnam sobre nomes como designadores rígidos. A coisa abarca sutilezas lógicas de difícil tradução, como se pode ver pelo seguinte experimento mental. Podemos imaginar um mundo em que o homem que conhecemos como Aristóteles tivesse morrido aos dois anos de idade, muito antes, portanto de ter produzido a obra filosófica que mais influenciou o Ocidente e que faz de Aristóteles Aristóteles. Bem, ainda assim, teríamos de concordar que, neste mundo alternativo, o uso da palavra Aristóteles para designar o jovem defunto faz sentido. Aristóteles significa Aristóteles, ainda que seja um Aristóteles bem diferente do nosso. Nomes próprios são assim designadores rígidos que valem em todos os universos possíveis, e não meras descrições que nos levam a definir Aristóteles pela obra que produziu.
Esse tipo de raciocínio pode parecer capricho de filósofos desocupados, mas coisas parecidas de vez em quando acontecem no mundo real. Tomemos a controvérsia acerca de Plutão. Os astrônomos recentemente cassaram a "planetariedade" desse astro, considerado pequeno demais para pertencer à categoria na qual estão Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. A mudança, como não poderia deixar de ser, provocou a ira de gerações de estudantes que se acostumaram à noção de que o Sistema Solar era constituído por nove planetas, dos quais Plutão era o último. O descompasso aqui foi transferido para o significado científico de planeta e a referência "planeta" como havia sido fixada pela comunidade de falantes.
De modo análogo, os cientistas há alguns anos conseguiram a proeza de extinguir um animal já extinto. Refiro-me ao simpático brontossauro, que era um de meus dinossauros favoritos. Só que ele simplesmente deixou de existir quando os especialistas constataram que seus fósseis eram os mesmos do apatossauro, descoberto um pouco antes. A a regra é clara: prevalece a descrição mais antiga. Mesmo reextinto, o nome brontossauro ainda significa algo.
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Essas circunstâncias conferem gravidade ao ato de nominar. É nesse quadro que gostaria de discutir a escolha de nomes próprios. Quando batizamos uma criança ou animal, estamos autorizados pela comunidade lingüística que nos cerca a escolher uma dentre milhares de possibilidades sonoras. A menos que optemos por um absurdo (e às vezes mesmo que o façamos), nossa decisão será respeitada por nossos pares falantes. Teremos assim acrescentado um nome, um "designador rígido", ao mundo.
O problema é que todos tendemos a pensar mais ou menos do mesmo modo. Queremos para nossos filhos nomes bacanas e originais o bastante para distingui-los dos demais, mas não tão exclusivos que passem por excessivamente extravagantes ou mesmo ridículos. É daí que surgem os modismos nominais que inundam as escolinhas com tsunamis de Pedros e Tiagos.
Nos EUA, onde o Escritório de Seguridade Social mantém registros de todos os prenomes utilizados no país desde os anos 1880, é possível acompanhar em detalhe os ciclos de vida onomásticos. Uma americana chamada Edna ou Ethel já é provavelmente idosa. Se se chama Nancy ou Susan deve ser uma baby-boomer entre 50 e 60 anos. Jennifer ou Amanda têm probabilisticamente 30 e poucos anos. Se for Isabella, Madison ou Olivia, deve ser uma criança.
Como observa Pinker, nomes experimentam vida, morte e renascimento. Na minha geração, abundavam os Marcelos (eu mesmo quase me tornei um). Havia tantos que os pais pararam de dar este nome a seus filhos. Não há nenhum entre os cerca de 50 coleguinhas de Ian e David. A tendência é que os Marcelos agora envelheçam e este acabe se tornando um nome geriátrico, como é hoje Epaminondas ou Egberto. Depois que a maioria dos Marcelos tiver seguido o mesmo caminho do Lico, o mais provável é que este belo nome seja "redescoberto" e passe a ser reutilizado.
É claro que os pais não combinam que nome dar a seus filhos. O congestionamento batismal era um dos efeitos que queriam evitar antes de tudo. O que parece ocorrer aqui é o que os economistas chamam de microcomportamento, isto é, fenômenos sociais nos quais o resultado, jamais planejado, resulta de comportamentos individuais que afetam o comportamento de terceiros. O exemplo clássico é o do engarrafamento provocado pela pequena desacelerada que cada motorista dá para observar melhor um acidente (eu resolveria o problema cercando a cena com biombos portáteis). Efeitos análogos se verificam quando, num restaurante por exemplo, cada mesa começa a falar um pouco mais alto para superar o nível de ruído, levando ao que popularmente designamos como barulho infernal.
Assim, a menos que optemos de vez por nomes próprios como Abc Lopes, Bemvindo o Dia do meu Nascimento Cardoso, Errata de Campos, Himalaia Virgulino Janeiro Fevereiro de Março Abril e Japodeis da Pátria Torres --todos estes são nomes reais, consignados no Brasil antes da Lei Federal de Registros Públicos, de 1973, que autorizou oficiais de cartório a recusar o batismo de crianças com nomes que as exponham ao ridículo--, seguiremos convivendo com sucessivas ondas de Marcelos, Pedros, Sofias. Só na classe do Ian há três Isabellas.
A propósito, o nosso novo cachorrinho é Bob, Bob Dick. Ao contrário de crianças, ele jamais nos questionará o nome recebido.
PS - Uma lista mais longa de nomes esdrúxulos reais pode ser encontrada no site da Fiocruz.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |


