Hélio Schwartsman
Minhas férias
Começo com um pedido de desculpas. Dez meses atrás, quando fiz minha última intervenção neste espaço, anunciei que estava de mudança para Ann Arbor, Michigan, mas que, tão logo quanto possível, retomaria a coluna, escrevendo-a de território norte-americano. Bem, já estou de volta ao Brasil, o que significa que faltei com minha palavra. Mas o fiz de forma involuntária, como explico a seguir.
Ao aceitar a bolsa para passar um ano acadêmico na Universidade de Michigan --antes, portanto, do anúncio de minhas intenções--, havia concordado em não escrever profissionalmente enquanto da duração do programa. Como bom brasileiro, entretanto, julgava que tal compromisso era uma mera formalidade, que ninguém se importaria se eu dedicasse a meus leitores dois pares de hora a cada 15 dias. Não era bem assim. E este foi meu primeiro choque cultural: o que se combina é para valer. Como descobri depois, não abriram exceção nem após os ataques de 11 de setembro de 2001, quando, sem conseguir deslocar jornalistas para os EUA (o espaço aéreo ficou fechado por vários dias), grupos de mídia de diversos países tentaram mobilizar seus profissionais lotados no programa. Houve uma reunião de emergência, mas a direção do Knight-Wallace Fellowships (KWF) manteve-se irredutível: o que se combina é para valer.
Isso pode ser frustrante em situações como a minha (e mais ainda na da turma de 2001-02), mas é preciso reconhecer que essa versão forte do "pacta sunt servanda" (os pactos devem ser respeitados) tende mais a organizar do que desorganizar a sociedade. Sei que ninguém vai acreditar, mas ali até o fugaz instalador de TV a cabo, quando diz que vai chegar às 11h para realizar o serviço, cumpre o prometido. Não recorre a expedientes absurdos, como dizer que vai chegar em "horário comercial", forçando o pobre diabo do consumidor a ficar de plantão o dia inteiro. Se, por algum imprevisto ("rebus sic stantibus"), vê-se compelido a atrasar mais do que 15 minutos, telefona para explicar a situação e perguntar se pode aparecer mais tarde, se o cliente deseja agendar um novo horário ou mesmo desistir do pedido para procurar o concorrente. Pode até ser um pouco hipócrita (não acredito que aconteçam muitos cancelamentos), mas o freguês se sente sujeito valorizado na relação com a empresa, não apenas um refém cuja mera existência depende da misericórdia da companhia.
Mas, voltando a Ann Arbor, eu e minha família vivemos um belo sabático nesta aprazível cidadezinha universitária encravada no sudeste de Michigan. Tive a oportunidade de, após 20 anos nas lides jornalísticas, retornar à academia. Para além dos seminários bissemanais sobre jornalismo, cada um dos 18 integrantes do programa e seus respectivos consortes era livre para assistir a qualquer curso de graduação ou pós-graduação da universidade. De minha parte, tomei aulas de filosofia, linguística e direito, além de participar do grupo de estudos em bioética da Escola de Medicina.
Minha mulher, que não se dá muito bem com o frio (chegamos a pegar -29º C com sensação térmica de -38º C), optou por atividades mais mais caseiras: escreveu um romance e aprimorou seus dotes culinários, o que me fez adquirir alguns "pounds" extras. Já estou empenhado em perdê-los.
Sofia, minha enteada de 16 anos, viveu seu ano "high school". Aprendeu a pensar em inglês e trouxe um boletim decorado apenas com a letra A.
Especialmente interessante foi observar os gêmeos Ian e David, agora com sete anos, adquirindo um novo idioma. Fi-lo ao mesmo tempo em que frequentava um curso de psicolinguística, que, entre outros pontos, estuda os mecanismos de aquisição da segunda língua. Serviram-me de cobaias perfeitas. No começo, eu tinha dó deles. Não conhecendo mais do que meia dúzia de palavras inglesas, foram simplesmente jogados na escola pública onde enfrentavam uma jornada de nada menos do que sete horas. A única coisa de que gostavam ali, além do cardápio "junk food" servido no almoço, eram as aulas de espanhol --idioma cujas palavras pelo menos reconheciam. Mas em um par de meses já entendiam relativamente bem os comandos dos professores e os diálogos dos desenhos animados. Lá pelo quarto mês, arriscavam-se em suas primeiras produções. Nas semanas finais, já rodeados de amiguinhos, conversavam e liam como nativos. Ian, que tem mais ouvido musical, fala com autêntico sotaque do meio-oeste. A escrita ainda é um pouco exótica, mas atribuo as excentricidades à caprichosa ortografia inglesa, que tem muito pouco de fonética. O desafio agora é encontrar um modo de os pequenos preservarem seu inglês. O esquecimento vem tão rápido quanto a aquisição.
Também viajei bastante durante esse período. O programa incluía visitas ao norte de Michigan, Buenos Aires, Washington, Nova York e Moscou. Pulei Buenos Aires (perto demais de casa) e conheci várias outras cidades norte-americanas. Tenho agora uma rede de bons amigos (os co-fellows) em muitas cidades dos EUA e do mundo.
Não posso aqui deixar de agradecer mais uma vez a um leitor, Fernando Caetano, habitante de Ann Arbor, que eu conhecia apenas por e-mail e ao qual devo essa fantástica experiência. Foi ele quem me informou da existência do KWF, convenceu-me a tentar a candidatura e, uma vez lá, tornou-se um amigo extraordinário.
Não são todas as carreiras que permitem períodos sabáticos no estrangeiro, mas eu recomendo algo no gênero a todos aqueles que puderem. Uma estadia prolongada no exterior, pela diversidade de experiências e sucessão de choques culturais de variados calibres, tem o dom de nos ampliar os horizontes: o mundo fica um pouco menor, tornando-se mais nítidas as fronteiras entre o culturalmente determinado e o universalmente humano.
Para a semana que vem, prometo uma coluna com começo, meio e fim.
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Hélio Schwartsman, 44, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
