Pensata

João Pereira Coutinho

17/09/2007

A vida como ela é

Sou suspeito para falar de aeroportos. Gosto deles. Desde a mais tenra idade, como se diz nos romances clássicos. Foi Jacques Tati, creio, quem filmou aeroportos como se fossem hospitais. Ou vice-versa. Faz sentido. Aeroportos, hospitais: tudo lugares de morte e ressurreição. Não falo de morte física, trágica, macabra, como aconteceu em Congonhas, por onde passei, amedrontado, semanas atrás. Falo de outras mortes. Falo de outras ressurreições.

Basta olhar em volta. Chego a Guarulhos pelo final da tarde, depois de um trânsito dantesco em S. Paulo. Despacho malas, despacho livros. E, sentado num dos cafés do aeroporto, reparo que as televisões do espaço insistem no mesmo assunto: Madeleine McCann, uma criança inglesa desaparecida no Algarve, no sul de Portugal, em Maio passado. Sequestro? Provavelmente, sim. Mas a polícia portuguesa começa a acreditar que não. Pior: na lista de suspeitos estão agora os pais de Madeleine, dois médicos de classe média-alta, que andaram pelo mundo, Vaticano incluso, em nome da filha. Depois de investigações apuradas e interrogatórios quilométricos, existem vestígios do DNA da criança no carro que os pais alugaram depois do seu desaparecimento. E a pergunta: será possível que sejam eles os responsáveis?

Possível, sempre é. "O príncipe das trevas é um cavalheiro", como diria o bardo. Mas o que impressiona não é apenas a possibilidade dos pais estarem envolvidos - uma possibilidade que obviamente não se comenta. O que impressiona é o tom melodramático dos colunistas ingleses perante a possibilidade. Seremos capazes de voltar acreditar na natureza humana se o pior cenário for verdadeiro, perguntava Andrew Pierce em artigo pungente no "Daily Telegraph"?

A pergunta é absurda por definição. Duplamente absurda. Primeiro, porque a natureza humana não é uma questão de fé pessimista, ou otimista. É uma questão de ceticismo, coisa bem diferente; esse ceticismo é a única atitude sensata perante um mundo que se desconhece. E, depois, porque a eventual malignidade da natureza humana já estaria há muito provada e comprovada com catástrofes imensamente maiores do que o simples desaparecimento de uma criança. Convém manter as proporções.

E regressar ao aeroporto. Uns tempos atrás, lembro de ver um filme inglês, moderninho e mediano, onde o aeroporto figurava como ator principal. Tudo começava e tudo terminava na porta de embarque. E uma voz, em off, sacudindo o cinismo pós-moderno e convidando qualquer mortal a visitar o espaço para ver do que a espécie é capaz.

Concordo e assino por baixo. Sim, somos capazes do pior, do inominável, do impensável. Mas também somos capazes da evidência real que passa à minha frente com a teatralidade patética que só o amor explica e redime. Famílias que se despedem. Famílias que se reencontram. Pais que recebem filhos. Pais que acenam aos filhos que desaparecem por uma porta qualquer -e eles ficam, mais uns minutos, sós e perdidos no aeroporto, a olhar para o nada. E os amantes, sim. Como esquecer os amantes que se beijam como se fosse a primeira vez, ou a última vez, antes do imenso adeus, ou depois da imensa espera?

Se o pior cenário se confirmar no caso dos ingleses McCann, isso não prova a irremediável corrupção da natureza humana. Prova apenas a irremediável corrupção de duas vidas em concreto. Porque o resto continua. E o resto está num aeroporto de S. Paulo, ou Lisboa, ou Beijing: vidas normais de pessoas normais. E decentes. E presentes. Pessoas que em cada despedida dos seus, ou em cada reencontro com os seus, morrem ou ressuscitam perante o meu olhar grato e deslumbrado.

Com os últimos reais que me sobram no bolso, pago o café e avanço por entre abraços. Abraços alheios, abraços de terceiros. Nas televisões, o rosto da criança inglesa. O rosto dos pais. A suspeição que paira sobre ambos. E os especialistas em debate feroz. Será possível?

Possível, sempre é. "The prince of darkness is a gentleman", dizia o bardo? Fato, Mestre, fato. Mas agora, e com a devida vénia, tudo que eu quero é regressar para os meus. É regressar para casa.

João Pereira Coutinho, 32, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.

E-mail: jpcoutinho@folha.com.br
Site: http://www.jpcoutinho.com

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