Pensata

João Pereira Coutinho

15/10/2007

Relógio é ofensa

Era Winston Churchill, creio, quem dizia que a falta de pontualidade era um hábito vil. Churchill nunca conheceu o Brasil. No Brasil, não é a falta de pontualidade que é um hábito vil. É a própria pontualidade.

Aprendi a lição às minhas custas, depois de vexames sem fim: alguém me convidava para jantar lá em casa às 20h. Eu aparecia às 20h (com vinho, com flores). A anfitriã recebia-me à porta e, com cara de quem presenciara uma catástrofe, disparava: "Ué, você veio tão cedo?" E depois acrescentava que:

a) O jantar só era às 20h (sic);
b) A casa não estava arrumada;
c) O jantar não estava pronto;
d) Ela não estava pronta;
e) Os convidados ainda não tinham chegado.

Mas chegavam. Pelas 22h, 23, alguns à meia-noite, perguntando se não tinham chegado cedo demais. Por essas alturas, eu já dormia a um canto. De cansaço e de vergonha. Desconfio que, algures pela casa, alguém conspirava contra mim:

- Você sabe que eu disse ao português para ele chegar às 20h e ele chegou mesmo às 20h?
- Sério?
- Sério, rapaz. Ele deve ter um problema, ou algo assim.

No Brasil, um jantar às 20h não é propriamente um jantar às 20h. "Oito da noite" é um indicação vaga que significa simplesmente "depois do sol se por". Uma espécie de celebração naturalista que, em certos casos, nem sequer necessita de uma hora. A marcação do jantar fica dependente de um "mais logo". E quando nós, europeus obsessivos e pontuais, perguntamos "mas logo, quando?", alguém reitera: "às oito".

A solução, acreditem, é juntar duas horas à hora marcada. Um jantar às 20h é um jantar às 22. Um almoço ao meio-dia começa, em princípio, às 14h. Tomar uma cerveja no bar não é às 16h; é às 18h. Toda a gente sabia disso. Menos eu.

Por isso estranho a polêmica em torno do apresentador Luciano Huck, que viu o seu Rolex roubado em São Paulo. Huck não gostou e pede soluções radicais para combater a criminalidade na cidade.

Entendo Huck. Eu próprio já fui roubado em São Paulo com um 38 apontado à cabeça. E no lobby de um hotel. Não é agradável. Mas pergunto se não houve alguma justiça no roubo do seu Rolex.

Não concordo com algumas opiniões públicas que acusaram Huck de exibicionismo deslocado, como se a vítima fosse culpada por ser vítima. Eu próprio ouvi em São Paulo confissões de vítimas que desculpavam os assaltantes com as teses mais inacreditáveis.

"Eu estava bem vestido naquele dia". "A culpa é minha, eu tinha tomado banho". "Eu mereço, eu vivo em São Paulo."

A culpa de Huck está no simples uso de relógio, sobretudo num país onde o relógio é uma ofensa para a cultura local. É como usar uma camiseta de George Bush em Caracas. Ler a "Playboy" em Teerã. Ser heterossexual em São Francisco.

Ou ser um português nos trópicos. Esqueçam os bandidos tradicionais. Roubar um relógio no Brasil não é crime vulgar; é afirmação de identidade. O meu conselho a Luciano Huck é para ele procurar o seu Rolex na casa da minha anfitriã paulistana. Ela não gosta de pontualidade.

João Pereira Coutinho, 32, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.

E-mail: jpcoutinho@folha.com.br
Site: http://www.jpcoutinho.com

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Comentários dos leitores
Pedro P (1) 25/01/2008 09h37
Pedro P (1) 25/01/2008 09h37
O Policial foi irônico e sarcástico na sua carta, como ele mesmo disse, da mesma forma que o Luciano Huck foi em seu artigo. Até onde sei, ninguém pode ser punido por pensar diferente de todos. Não há nada registrado que diga sobre seus atos concretos, o que fez ou deixou de fazer. Somente há a manifestação de sua insatisfação com o desprezo dado pelo governo aos policiais de uma forma metafórica. Sentimento, aliás, só não vê que não quer, é comum entre os servidores da segurança pública.
Se o Luciano Huck pode ser sarcástico em sua carta e não sofreu nenhuma investigação, isso quer dizer que o direito de expressão é diferente para os dois. Um pode, o outro não, e sofrerá sanções por se expressar.
O que me espanta é saber que foi a folha quem começou essa história à partir de uma interpretação parcial e interesseira da manifestação de um cidadão, apenas para vender mais jornal. É essa a imprensa livre que temos? Quem se sente seguro enviando comentários a folha? É essa a democracia em que vivemos, conduzida por interesses de mercado?
Nessa história toda os únicos irresponsáveis por seus atos são a imprensa e o governo do estado de São Paulo.
sem opinião
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Bernardo Blanquier (1) 05/11/2007 12h12
Bernardo Blanquier (1) 05/11/2007 12h12
RIO DE JANEIRO / RJ
Perfeito o comentario da leitora Regina Azevedo,objetivo e sem falsos moralismos contra uma camada da populaçao que paga seus impostos e cria empregos a decadas no Brasil.Agora com a tomada do poder desses incompetentes vendidos ao socialismo financiados pelo narcotrafico,que se escondem por tras desses discursos de salvadores da patria ,com ternos de Armani e felizes de serem ricos tbm ,se acham no direito de criticar um individuo que trabalha,e muinto para o bem estar e o entretenimento de milhoes de jovens .Luciano nao se deixe abater por essas tropas de criticos ,que nao tem corajem de trabalhar e preferem ficar de papagaio de pirata da turma do governo. 20 opiniões
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Luiz Goulart (1) 28/10/2007 09h32
Luiz Goulart (1) 28/10/2007 09h32
Caro Sr. Coutinho,
Desculpa lá . . .
Estou vivendo em Portugal há 2 anos e gosto imenso desse país e do seu povo, mas uma das características em comum entre os brasileiros e os portugueses é com certeza a impontualidade. Que aliás é bem conhecida de todos os "europeus" como o Sr. se identifica. Assim aqui em Portugal ou em outro país europeu sei sempre a que horas chegar . . . o relógio cultural fala mais alto. Não basta falar a língua tem que saber os hábitos e os costumes em se esta inserido. Isso em aprendi em Portugal.
Com os melhores cumprimentos,
Luiz Goulart
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