João Pereira Coutinho
O mundo de todos os perigos
Navegar é preciso, dizia o poeta. Morrer não é preciso, digo eu. Chego a Londres para uns dias de "flânerie" inocente e leio nos jornais que Gillian Gibbons desejaria ficar no Sudão, se deixassem.
Primeira pergunta: quem é Gillian Gibbons? Ora, ora. Difícil esquecer, leitores: Gillian, professora inglesa de meia idade, deixou Inglaterra e foi para o Sudão dar aulas em colégio privado, o sonho de qualquer pessoa racional. Certo dia, cometeu a imprudência de convidar os alunos a batizar um inocente ursinho de peluche. Os alunos escolheram "Muhammad" e a professora, denunciada e presa pelas autoridades, foi acusada de blasfémia e incitamento à rebelião. A proeza, normalmente, costuma dar cadeia e punição física. A justiça sudanesa pedia 3 anos de prisão e 40 chicotadas públicas para Gillian. A multidão enlouquecida, mais moderada, recusava a prisão e as chicotadas; e clamava simplesmente pela morte da professora.
Levada a tribunal, Gillian teve sorte e conheceu 15 dias de presídio, posteriormente perdoados mediante extradição imediata para Inglaterra. E foi no momento da partida que Gillian confessou a sua mágoa: se as autoridades deixassem, ela ficaria em Cartum. O seu coração estava com os sudaneses, disse ela. Bonito, bonito. E eu tenho a certeza que a multidão enlouquecida que se foi despedir da professora ao aeroporto também gostaria que ela tivesse ficado. Se o coração estava com os sudaneses, por que não deixar também as mãos, os pés, os braços, as pernas e a cabeça?
Mas Gillian não ficou. E, se não ficou, é importante colocar uma segunda pergunta: para onde, agora? Alguém como Gillian Gibbons não se contenta em viver no Ocidente corrupto onde, inexplicavelmente, todo o mundo deseja entrar. O Ocidente é chato e, mais do que chato, não tem o exotismo "puro" e "selvagem" que é possível encontrar em África, sobretudo no Sudão e, dentro do Sudão, no inesquecível Darfur. Nós, no Ocidente, temos estados de direito, liberdades cívicas e políticas, separação entre a Igreja e o Estado, separação de poderes, eleições limpas e regulares etc. etc. etc. Não apedrejamos mulheres adúlteras. Não apedrejamos homossexuais. Não cortamos os membros de ladrões incompetentes. Não temos por hábito enforcar criminosos na praça pública. Será possível viver neste caldo morno sem morrer de tédio ao final da tarde?
O problema é que o resto do mundo não está fácil para Gillian. Sobretudo se a professora inglesa tem particular talento para cometer "gaffes" entre os nativos. Sentado num café simpático junto a Picadilly, folheio os jornais do dia e encontro no "Daily Telegraph", junto às declarações lacrimejantes da professora, um guia salvífico para turistas multiculturais. Gestos e comportamentos a evitar quando o turista multicultural, de sacola ao ombro, parte pelo mundo na busca do Outro.
Primeiro, o Outro pode não gostar de beijos ou carícias. Na Arábia Saudita, por exemplo, homens e mulheres devem evitar dar aos mãos em público, para não falar de ósculos apaixonados, com língua ou sem ela. Ainda no Oriente Médio, está fora de questão apontar para os sapatos quando se fala com alguém, uma forma indireta de chamar sujo ao outro, ou reles, ou rasteiro. Na China, é pecado oferecer relógios de presente. No México, prata. Na Índia, objetos de pele. No Japão, pecado é abrir os presentes na cara de quem os oferece. Mas grave, mesmo grave, é usar um lenço em público para assoar o nariz. Melhor usar as mãos. Ou a manga do casaco. Ou não ter sinusite.
De resto, caro leitor, não coma com a mão esquerda em África. Ou na Índia. A mão esquerda é "indigna", isto é, usada para outro tipo de atividades (sorry, canhotos). E, pela vossa saúde, nunca batam na cabeça de um budista: a cabeça é o lugar da alma e pode haver mortes se o fizerem inocentemente, embora seja quase irresistível dar um tapa num budista. E se o leitor é empresário com interesses orientais, cuidado: quando um japonês oferece seu cartão pessoal, é ofensivo não perder uns segundos a examinar atentamente o cartão. Guardá-lo de imediato é considerado insultuoso para um japonês, e para os seus antepassados, e para os antepassados dos antepassados, e para bairros inteiros, de Kagoshima a Hakodate.
E, escusado será dizer, se o leitor tenciona batizar um ursinho de peluche no Sudão com o nome do Profeta, mude de idéias: o nome do Profeta não deve ser usado em vão. Só para coisas sérias e sagradas. Como apedrejar mulheres adúlteras. Cortar os membros de ladrões incompetentes. Enforcar criminosos em público. E, claro, partir em safari com as autoridades locais para matar uns milhares de negros pelas pradarias do Darfur.
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João Pereira Coutinho, 33, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online. E-mail: jpcoutinho@folha.com.br Site: http://www.jpcoutinho.com |
