João Pereira Coutinho
Quem acredita em milagres?
LISBOA - Que se passa com o Ocidente? Na Grã-Bretanha, e tal como escrevi nesta Pensata algumas semanas atrás ("Lockerbie: um epitáfio", 24/08/2009), um afamado terrorista líbio foi libertado por motivos "humanitários", embora se suspeite que razões económicas tenham sido as mais decisivas.
Agora, o presidente Obama decidiu abandonar o escudo e o radar antimíssil na Polônia e na República Tcheca. Motivos? Robert Gates, um dos entusiastas do escudo durante a presidência Bush, mudou de ideias sob a presidência Obama. É o próprio Gates quem, em artigo para o "The New York Times" de ontem, explica as razões técnicas da mudança: o velho escudo antimíssil só estaria pronto em 2015 (no mínimo). E talvez não fosse eficaz para travar agressões múltiplas de estados hostis. Melhor apostar em proteção mais versátil contra mísseis de curto ou médio alcance, mas igualmente letais para a segurança dos europeus.
A ideia de Gates, no papel, parece pragmática e equilibrada. Mas é impossível encerrar a discussão no mundo etéreo da tecnologia. Politicamente, o gesto de Obama parece ser uma concessão a Moscovo: se, para os Estados Unidos, um escudo antimíssil era fundamental para evitar uma possível agressão nuclear iraniana, para a Rússia era uma exibição de força junto às suas fronteiras, uma intromissão abusiva na sua "área de influência" e, acredite-se ou não, uma ameaça directa à segurança do Kremlin.
Removida a "ameaça" do escudo antimíssil, a presidência Obama acredita agora que a Rússia irá oferecer algo em troca. Para sermos mais precisos, o apoio nas Nações Unidas a sanções económicas mais duras contra o regime iraniano, que persiste em perseguir o seu programa nuclear.
Talvez Obama tenha razão em seus cálculos diplomáticos. Ou talvez não tenha, o que só confirmaria o "otimismo pueril" do presidente Obama, à imagem do que sucedeu com o fatídico Jimmy Carter.
Por enquanto, a única certeza que existe é que os Estados Unidos deixam cair dois pequenos aliados (a Polônia e a República Tcheca) na esperança de que a Rússia se transforme em "aliado estratégico" contra um Irã nuclear. Se me permitem, eu não acredito em milagres.
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João Pereira Coutinho, 33, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online. E-mail: jpcoutinho@folha.com.br Site: http://www.jpcoutinho.com |
