Kennedy Alencar
PSDB deve dialogar com eleitorado de Lula
O Partido dos Trabalhadores viveu duas importantes fases, com licença para uma simplificação útil à análise política. Da fundação em 1980 à derrota nas eleições presidenciais de 1994 era o PT de face radical que rejeitava alianças ao centro na economia e na política. Foi o período da afirmação da identidade petista. Seu lado bom foi ostentar com vigor a bandeira ética, o que ajudou a civilizar a política no país. Seu lado ruim: essa bandeira tinha cores udenistas que o partido não suporta agora no poder.
Derrotado pelo segunda vez numa eleição presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva saiu do pleito de 1994 com a convicção de que não bastava dialogar apenas com os 30% de seu eleitorado tradicional de então. Em 1995, em Guarapari, um encontro do PT deu início a uma fase nova. Fase que culminaria na chegada de Lula ao poder em 2002.
Em aliança, Lula e José Dirceu de Oliveira e Silva mudaram o partido. Os dois enxergaram que era preciso conversar com um eleitorado que temia, com razão, irresponsabilidade e irrealismo na economia e na política. Nascia ali a guinada do PT ao centro, a chamada moderação política e econômica.
A eleição presidencial de 1998 já estava perdida mesmo. O tucano Fernando Henrique Cardoso, que mudara a regra constitucional um ano antes para concorrer à reeleição, ainda tinha a sua popularidade embalada pelo real valorizado. Lula hesitou, mas não abriu oportunidade para uma nova liderança. Candidatou-se certo da derrota, numa manobra para 'acumular crédito' e ser postulante com carta branca em 2002. Funcionou.
O exercício do poder deu início a uma nova fase no PT, mas isso será assunto para outra coluna. O que as fases do PT têm a ver com o PSDB? Ora, se Lula aprendeu que era fundamental dialogar com o eleitorado de outras forças, os tucanos deveriam fazer o mesmo agora que estão na oposição.
Parte do PSDB já entendeu isso. O retorno dos tucanos ao poder se dará se eles souberem dialogar com o eleitorado que elegeu Lula duas vezes. O PT aceitou a estabilidade econômica de FHC e beijou a cruz com a famosa Carta ao Povo Brasileiro.
O PSDB precisa aceitar conquistas da era Lula, como a ampliação da rede de proteção social e a retomada da possibilidade de crescimento econômico sustentável no longo prazo. Os oito anos de poder tucano em Brasília contribuíram para essas conquistas, que pertencem mais ao país do que a forças políticas. Mas seria inteligente reconhecer méritos de Lula e do PT, que trataram a economia com responsabilidade e priorizaram políticas públicas para os mais pobres.
Sem diálogo com o eleitorado de Lula, os tucanos terão menos chance de retornar ao poder federal. A outra opção é se abraçar cada vez mais ao DEM (ex-PFL), uma legenda de oposição sem expectativa real de alcançar o Palácio do Planalto.
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Ser ou não ser
As idas e vindas do PSDB em relação à prorrogação da CPMF são ilustrativas da crise tucana. Corretamente, o partido iniciou tratativas com o governo, pois o imposto do cheque foi uma criação para financiar a saúde que contou com apoio tucano. Equivocadamente, parte da legenda bombardeou a articulação por preferir coadjuvar o DEM.
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Kennedy Alencar, 40, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.Também é comentarista do telejornal "RedeTVNews", no ar de segunda a sábado às 21h10. E-mail: kalencar@folhasp.com.br |
