Pensata

Kennedy Alencar

01/02/2008

Consumidor sofre

Em 2007, o consumo das famílias foi um dos motores do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). O dado oficial ainda não foi divulgado, mas o PIB do ano passado deverá ficar acima dos 5%. Esse bom desempenho tende a se repetir em 2008, salvo um efeito negativo muito forte da crise dos EUA, hipótese menos provável hoje.

As empresas brasileiras deveriam aproveitar o bom momento e aumentar esforços para melhorar os produtos e o atendimento ao consumidor. O Brasil tem uma das legislações de direitos do consumidor mais avançadas do mundo, mas o respeito anda meio em falta. Seguem alguns exemplos:

Linha ocupada

Uma pessoa que telefona para a NET para se queixar de interrupção do sinal de TV a cabo ou da conexão banda larga na internet tem de estar preparada para um calvário. O atendimento ao consumidor fica minutos e mais minutos com aquela música de espera. Depois de um tempo, a ligação cai.

No entanto, se o consumidor liga para o mesmo número e tecla a opção de compra de serviços, surge um atendente do outro lado da linha no mesmo instante.

Alô, alô

O consumidor que comprou um celular de uma operadora pode se preparar para receber uma bateria de telefonemas das concorrentes. Elas não darão descanso. Ligam de manhã, de tarde, de noite. Não adianta dizer que pretende continuar com a TIM. A Vivo e a Claro vão insistir. Se, por acaso, o consumidor tem também uma linha da Vivo ou da Claro, pode ir se acostumando: a TIM vai telefonar com "enormes vantagens". Se quiser cancelar, prepara-se. Vai sofrer semanas.

Está em curso uma grande negociação empresarial para a Oi (ex-Telemar) comprar a Brasil Telecom. Devido a regras do setor de telefonia fixa, é preciso aval do Palácio do Planalto. É importante que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vá além do discurso de uma supertele nacional para competir globalmente. Será preciso pensar no benefício aos consumidores.

Não tem preço

Tente cancelar um cartão de crédito Visa. Ouvirá apelos e mais apelos para não fazê-lo. E demorará uma eternidade para realizar seu desejo. A Mastercard, que prometeu não cobrar anuidade daquele cartão bacana, lançará discretamente a cobrança em sua conta. A solução será telefonar para pedir estorno. Atenção: esse ritual deverá ser repetido todo final de ano. E tome música chata no ouvido!

Já a American Express vai ligar para o seu celular e oferecer aquele fantástico benefício. Claro que terá de pagar uma ninharia adicional, mas o consumidor poderá concorrer a milhões em sorteios.

Carroça mortífera

No caso dos automóveis, já passou da hora de itens de segurança serem de série e não opcionais. A imprudência dos motoristas é freqüentemente apontada como a principal causa de acidentes. Carros mais seguros, porém, diminuiriam o número de mortes e de seqüelas físicas.

No Brasil, as camionetes ganham ano após ano motores mais potentes. São veículos com estabilidade menor do que os carros de passeio. Air bag deveria ser item de série em todos os carros. No caso das camionetes, são mais importantes ainda.

Quem for comprar um carro novo deve estar preparado para surpresas. Fiat, Volkswagen, Ford e Peugeot, só para citar algumas, mantêm modelos no mercado tupiniquim que saíram de linha na Europa e nos Estados Unidos. Equipamentos básicos de segurança nesses mercados custam os olhos da cara no Brasil. Carro no Brasil que ganha prêmio de veículo do ano tem motor projetado 20 anos atrás.

Beira o ridículo a disputa entre o Gol e o Palio pela liderança de vendas. Os executivos da Volks e da Fiat dão entrevistas falando maravilhas do desempenho da indústria, prometem brigar pela liderança etc. Seus produtos, porém, são tecnicamente defasados e esteticamente maquiados.

Ah, então tente fazer um compra da "moderna" Nissan _afinal, reza o marketing que carro japonês não quebra. Adquira um automóvel montado no México. Graças a um acordo com o Brasil, os carros mexicanos chegam aqui com preço de nacionais. Se tiver problema na direção e fizer barulho de automóvel usado, leve à concessionária. Garantia de dois anos é coisa chique.

Não resolveram os problemas? Leve pela segunda, terceira, quarta vez. Há grande chance, porém, de o carro ser devolvido com os mesmíssimos "incômodos". Azar o seu. Já pagou mesmo.

Segue uma sugestão de slogan para as montadoras: "Carroças modernas na medida do possível".

Praticidade

Desista de comprar um carro e alugue um. Procure a Localiza, que tem modelos novos e faça o melhor seguro possível. Pegue a BR-040, no trecho entre Belo Horizonte e Congonhas do Campo. Se um pedaço de minério trincar o pára-brisa, saiba que terá de desembolsar R$ 190 a mais. Aquele seguro sensacional não cobre esse tipo de dano. Quem mandou não ler aquelas letrinhas do contrato.

Apertem os cintos

Será preciso dizer algo sobre as companhias aéreas e seus atrasos e cancelamentos de vôos? Vamos lá: reconheçamos que a malha aérea integrada, aquela em a mesma aeronave sai cedo de Manaus, vai para Brasília, segue para São Paulo, voa para Curitiba e termina o dia em Porto Alegre, ajuda mesmo a baratear o preço das passagens. Isso é bom.

Mas justifica poltronas tão coladas umas às outras? Justifica viajar como sardinha enlatada? Justifica tanto atraso? Um pouco menos de lucro e um pouco mais de espaço fariam um bem danado às imagens de Gol, Varig e TAM.

Que o crescimento da economia em 2008 ajude as empresas a ter mais respeito pelo consumidor. E que os órgãos fiscalizadores façam a sua parte.

Kennedy Alencar, 40, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.Também é comentarista do telejornal "RedeTVNews", no ar de segunda a sábado às 21h10.

E-mail: kalencar@folhasp.com.br

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