Pensata

Kennedy Alencar

05/03/2008

Teste internacional

Na avaliação do governo brasileiro, o acordo entre Equador e Colômbia na OEA (Organização dos Estados Americanos) tira gás da crise e afasta, no curto prazo, a possibilidade de um conflito militar na América do Sul. O venezuelano Hugo Chávez, portanto, poderá ficar brincando de Forte Apache na fronteira com a Colômbia, mas não terá gancho para continuar a escalada retórica e militar que elevou as tensões no subcontinente.

No entanto, uma "solução duradoura", diz um auxiliar direto de Lula, só virá se as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) mantiverem o processo de libertação de reféns e, numa negociação com o governo de Álvaro Uribe, integrarem institucionalmente a vida política colombiana. Ou seja, o caminho é virar um partido que aspire chegar ao poder pelo voto --obviamente, cortando laços com o narcotráfico.

Para Lula, as Farc deveriam acelerar a libertação de reféns e soltar logo Ingrid Betancourt, ex-candidata a presidente da Colômbia e prisioneira na selva desde 2002. Esse gesto seria altamente simbólico no momento em que Uribe sofre críticas de colegas latinos.

Um complicador: o governo colombiano matou o principal negociador das libertações de reféns, Raúl Reyes, o número 2 das Farc. Com quem negociar agora? O Brasil está quebrando a cabeça para encontrar essa resposta.

É um momento de teste para Lula e as suas aspirações de consolidar o Brasil como a potência regional econômica e geopolítica.

No atual imbróglio, o petista teve um apoiador de peso nos bastidores: o presidente da França, Nicolas Sarkozy. Via chancelarias, o presidente francês enviou um recado simples e direto. O conservador Sarkozy considerava o moderado Lula o líder ideal para capitanear a mediação do conflito. É justamente o que o Lula vem tentando fazer.

*

Afinidades

Na crise Equador-Colômbia, Lula tem marcado diferenças com o governo dos EUA. Joga mais afinado com a França. É sinal de que uma aliança estratégica com os europeus parece hoje mais interessante aos olhos do governo brasileiro do que estreitar laços militares com os americanos.

Kennedy Alencar, 40, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.Também é comentarista do telejornal "RedeTVNews", no ar de segunda a sábado às 21h10.

E-mail: kalencar@folhasp.com.br

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