Pensata

Kennedy Alencar

14/03/2008

Salvação nacional

A perspectiva de longa fase de crescimento econômico na faixa dos 5% ao ano fortalece o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no embate com a oposição, com a qual anda às turras no Congresso Nacional. Nesta semana, saiu o resultado do PIB (Produto Interno Bruto) em 2007. Todas as riquezas produzidas no Brasil no ano passado cresceram 5,4% na comparação com 2006 --índice superior ao previsto por todos os analistas.

Há um quase consenso entre economistas e políticos de que, por uns dez anos, o Brasil atravessará mesmo um período de crescimento com taxas robustas na comparação com a recente média histórica. Isso dará ao país a oportunidade de enfrentar com maior chance de êxito desafios que ficaram em segundo plano desde a redemocratização em 1985.

Após anos de inflação nas alturas, de descontrole das contas públicas, de populismo cambial (tentação na qual FHC caiu e com a qual Lula flerta), a economia brasileira entrou nos trilhos. Há um debate conjuntural sobre o câmbio: valorização excessiva do real em relação dólar. É um problema, mas não está no horizonte nenhum desastre.

Daqueles desafios que ficaram em segundo plano, o principal deles é a educação. Mas não basta melhorá-la. É necessário um tremendo salto de qualidade. Avanços a conta-gotas são melhores do que nada. No entanto, o século 21 exige uma velocidade maior.

É justo registrar que o país deu passos adiante no governo FHC, período em que foi implementada uma política para tentar colocar quase todas as crianças na escola. O hoje deputado federal Paulo Renato Souza (PSDB-SP) foi um bom ministro da Educação. Na gestão Lula, o competente ministro da área, Fernando Haddad, tem adotado políticas que continuam no rumo certo. Mas, repita-se, a velocidade deveria ser maior, bem maior.

Por quê? É assustadora a manchete da Folha desta sexta-feira (14/03): "Alunos ignoraram matemática elementar". O Saresp, exame do governo paulista nas escolas públicas, constatou que mais de 80% dos alunos não obtiveram os conhecimentos necessários para que se considere que aprenderam matemática. É o tipo de notícia que mina o futuro.

Em recente conversa reservada, o governador paulista, José Serra, ouviu a seguinte pergunta: Por que o PT e o PSDB, partidos que se alternaram no poder central desde 1994 e que governaram com receitas parecidas, não fazem uma aliança como a realizada no Chile?

Em 1989, os socialistas se uniram à democracia cristã e elegeram Ricardo Lagos. O ditador Augusto Pinochet deixaria o poder no início de 1990. Desde então, essa aliança, chamada de Concertación, fez o pequeno Chile dar grandes saltos.

Serra respondeu que, no Chile, aconteceram fatos de extrema gravidade, o golpe militar e o assassinato de um presidente democraticamente eleito, o socialista Salvador Allende, em 1973. Ou seja, era caso de salvação nacional.

No Brasil, a educação não seria também um caso de salvação nacional?

Lula e Serra se encontraram na quinta-feira em Brasília. Numa atmosfera cordial, trataram de assuntos administrativos, econômicos e políticos. Viajaram até juntos para São Paulo. Lula, Serra, petistas e tucanos deveriam pensar a respeito da manchete da Folha e da Concertación. Seguir o caminho chileno tem os seus complicadores, mas tentar trilhá-lo seria pensar grande.

Kennedy Alencar, 40, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.Também é comentarista do telejornal "RedeTVNews", no ar de segunda a sábado às 21h10.

E-mail: kalencar@folhasp.com.br

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