Pensata

Kennedy Alencar

25/04/2008

As novas trapalhadas do PT

Essa direção nacional do PT não decepciona mesmo. Não perde dinheiro quem aposta que ela não resiste a dar tiro no pé.

O veto da Executiva Nacional do partido a uma aliança com o PSDB na eleição municipal de Belo Horizonte é "burrice" pura e simples, como disse em conversa reservada o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo a cúpula petista, o governador Aécio Neves (PSDB) faz uma "administração comprometida com políticas frontalmente distintas daquelas que compõem nosso programa de governo". E também alegou que a decisão tem a ver com a estratégia eleitoral do PT para 2010.

Ora, o PT faz uma administração nacional cuja política econômica tem DNA tucano. Lula montou uma ampla coalizão partidária, que vai de A a quase Z. Também é um político de temperamento moderado. Alguma semelhança com a gestão Aécio? É uma bobagem falar que PT e PSDB fazem governos distintos.

Na eleição passada, o PT se aliou a Newton Cardoso, um peemedebista que é uma espécie de Maluf de Minas Gerais.

Em relação à estratégia de 2010, o PT fez duas besteiras. Atirou em Aécio, que flerta com um partido aliado ao PT no plano federal, o PMDB. O tiro também acertou Ciro Gomes, vice-líder nas pesquisas para a sucessão de Lula e presidenciável do PSB. Razão: o candidato da aliança PT-PSDB em Minas é Márcio Lacerda, do PSB de Ciro e secretário do governo Aécio.

Interessa a Lula a aproximação entre Aécio e o PMDB e entre Aécio e o PT. São movimentos que ajudam o presidente enfraquecer o PSDB de José Serra e o DEM de Jorge Bornhausen.

Não interessa a Lula dinamitar Ciro, deputado federal e ex-ministro da Integração Nacional que pode ser uma alternativa concreta de continuidade no poder dos partidos do atual campo lulista.

Contrariado, Ciro reagiu: "Não consigo entender uma hostilidade desse tipo a um partido aliado. É uma decisão do PT que me parece inexplicável".

Lula atuará nos bastidores para viabilizar a aliança PT-PSB-PSDB. Na avaliação reservada do presidente, é um erro o PT impedir que um aliado receba apoio tucano.

Para um ministro próximo a Lula, a cúpula petista agiu como a antiga agremiação radical que recusava apoios. Chegou a citar a rejeição do PT e de Lula ao apoio do peemedebista Ulysses Guimarães na eleição presidencial de 1989.

Pano de fundo

A decisão da Executiva Nacional é reflexo de uma luta interna no PT mineiro. Nos bastidores, os ministros Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) e Luiz Dulci (Secretaria Geral), ambos mineiros, jogam contra a aliança porque ele foi costurada com Aécio pelo atual prefeito da capital, o petista Fernando Pimentel.

Pimentel desponta como provável candidato ao governo de Minas em 2010. E, no atual quadro de petistas com baixa intenção de voto nas pesquisas presidenciais, é opção até para um vôo presidencial, a depender do contexto. Afinal, ainda faltam dois e meio até a eleição. Vale repetir o clichê de que muita água vai passar por baixo dessa ponte.

Uma coisa parece certa. O PT vai continuar a se isolar politicamente. E Lula deverá ficar cada vez mais forte em relação ao seu míope partido.

Kennedy Alencar, 40, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.Também é comentarista do telejornal "RedeTVNews", no ar de segunda a sábado às 21h10.

E-mail: kalencar@folhasp.com.br

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