Kennedy Alencar
Flertando com o perigo
Dilma Rousseff possui mais poder do que tiveram, juntos, Antonio Palocci Filho e José Dirceu --respectivamente ex-ministros da Fazenda e da Casa Civil. A atual chefe da Casa Civil tem o gerenciamento do governo na mão e influencia bastante as decisões da política econômica.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comete com Dilma o mesmo erro que cometeu com Dirceu. Poder demais a um ministro dificilmente dá em boa coisa. Mas Lula gosta dos resultados de Dilma. Ela obedece cegamente aos pedidos do presidente. Essas solicitações são apenas parte da rotina administrativa da ministra, que lida com uma variedade imensa de outras decisões que não passam pelo gabinete presidencial. Exemplo: arbitrar disputas de segundo escalão entre diferentes pastas. A confusão só chega a Lula quando é coisa do primeiro escalão.
Na operação para salvar a Varig, o governo agiu de forma voluntariosa. Não quis sofrer o desgaste político de deixar falir a mais tradicional marca de nossa aviação. No mundo dos negócios, diz-se que uma operação na bacia das almas é uma excelente oportunidade. Aí entrou em cena o advogado Roberto Teixeira, compadre e amigo de Lula. Teixeira lida na área de direito aeronáutico há uns 20 anos. A amizade com Lula abriu portas no mundo privado e na Esplanada dos Ministérios. Se Teixeira atuou à margem da lei, só o tempo e uma investigação poderão responder. Ele se escuda num argumento razoável: a Justiça aprovou a operação de salvamento.
Mas é hora de voltar a Dilma. No primeiro mandato, o governo decidiu enfraquecer o poder das agências reguladoras. Foi um erro. Deveria ter consolidado o poder das agências, abrindo um fosso entre o papel delas e o do Executivo federal, a quem caberia apenas formular as políticas. Claro que os lobbies também assediam as agências reguladoras.
No entanto, o cenário de pouca nitidez sobre as atribuições exatas das agências deu mais terreno para lobbies e criou a oportunidade para que uma ministra poderosa, ainda que bem-intencionada, metesse o bedelho num assunto que deveria ter ficado sob alçada da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).
Em entrevista nesta sexta-feira (06/06/08) à "Rádio Gaúcha", Dilma disse que o governo agiu em resposta a um desejo da opinião pública. "Existia um grande apelo de diversos segmentos da sociedade para que a Varig fosse salva. Realmente ela ia se esfacelar. O que fizemos foi, através da lei de falência, garantir a mínima chance de venda", afirmou a ministra.
Não foi a primeira atuação da ministra no limite da irresponsabilidade, como diria Ricardo Sérgio, ex-diretor do Banco do Brasil que cunhou uma frase-síntese do processo de privatização dos anos de poder tucano.
Na disputa pelas usinas do rio Madeira, Dilma arbitrou nos bastidores uma briga feia entre as empreiteiras Odebrecht e Camargo Corrêa. A negociação entre a Oi e a Brasil Telecom tem sido monitorada diretamente pela ministra e outras pessoas do governo, como o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Luciano Coutinho. Esse tipo de atuação tem uma zona cinzenta. Há um limite tênue entre o correto papel do Estado como indutor do crescimento e o de parceiro de um grupo empresarial "amigo".
O recente episódio do dossiê anti-FHC foi outro exemplo de flerte com o perigo quando poderosos de plantão se sentem proprietários do Estado. O manuseio de informações secretas ocorreu à margem da lei, na opinião da própria Polícia Federal. Foi feito um dossiê com dados pinçados para constranger adversários políticos. O misto de voluntarismo e autoritarismo da ministra da Casa Civil poderá colocar muitas pedras no caminho dela até a candidatura presidencial.
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Kennedy Alencar, 42, colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre bastidores do poder, aos domingos. É comentarista do telejornal "RedeTVNews", de segunda a sábado às 21h10, e apresentador do programa de entrevistas "É Notícia", aos domingos à meia-noite. E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br |

