Pensata

Kennedy Alencar

20/06/2008

A visita da velha senhora

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"Tudo dá certo até a hora em que algo dá errado", diz, pedindo o perdão da obviedade, uma pessoa que acompanhou bem de perto os oito anos de poder do tucano Fernando Henrique Cardoso, presidente do início de 1995 ao final de 2002, eleito e reeleito no primeiro turno. O poder costuma ser tão inebriante que os poderosos muitas vezes não enxergam o óbvio, porque enfrentar problemas de frente tem lá o seu custo.

No primeiro mandato, FHC surfou numa bela onda de popularidade com um câmbio valorizado que foi essencial para domar a inflação, mas que se prolongou por tempo demais e gerou uma crise (desvalorização de 1999). Depois, vieram ainda o apagão de energia de 2001 e mais uma crise cambial no finalzinho do mandato, na transição para o petista Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula teve um começo de governo difícil. Não havia levado a eleição no primeiro turno e pairavam muitas dúvidas sobre a capacidade de tocar a economia. O presidente fez um duro ajuste fiscal e monetário. Apertou os cintos e ganhou fôlego. Ao mesmo tempo, os programas sociais tipo "amostra grátis" de FHC ganharam uma dinheirama nunca antes vista neste país.

Houve o susto de 2005, o mensalão. Lula diz até hoje que não sabe como sobreviveu politicamente àquele momento. Mas sobreviveu bem. Reelegeu-se. E ampliou muito os gastos no segundo mandato na comparação com seu primeiro termo presidencial.

Tudo vinha muito bem até surgir uma pedra no meio do caminho: a crise americana. Agora, há a tal crise de commodities (elevação do preço de produtos como petróleo e alimentos no mundo inteiro). A inflação importada chegou ao Brasil. E uma inflação interna, resultado da demanda aquecida e do crédito que se expande velozmente, está aí, para quem quiser conferir os índices mais recentes sobre a alta geral dos preços.

A inflação de 2008 ameaça ultrapassar o teto da meta oficial do governo. No atual modelo, a meta de inflação de 2008 é de 4,5%, mas há uma margem de dois pontos percentuais para cima ou para baixo a fim de acomodar imprevistos. No ritmo atual, a inflação ultrapassará com folga o centro da meta, objetivo perseguido pelo governo nos últimos anos com razoável sucesso.

Expectativas do mercado financeiro dão conta de uma inflação em 2008 que supera os 6% ao ano e caminha para bater no teto da meta oficial, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo).

Lula considera importante política e economicamente respeitar a meta de inflação, segurando-a até o limite do teto. Do contrário, o governo sinalizaria interna e externamente a chance de um cenário de descontrole de preços a dois anos do final do mandato do petista.

É a visita da velha senhora, tocando a campainha. Se ela entrar em casa, Lula passará aperto no final do mandato. Essa avaliação não é alarmista. O país tem mesmo mais condições econômicas de combater a inflação do que tinha no passado. Mas não convém brincar com a velha senhora. Ela pode complicar os planos de o país crescer a taxas robustas por um período longo. Seria muito ruim Lula terminar o governo legando ao sucessor uma queda no ritmo de crescimento, uma crise econômica ou uma bomba-relógio. Conta a favor do presidente o retrospecto de não hesitar na hora em que a onça quis beber água.

*

Parece implicância, mas não é

Se marcou entrevista formal, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, deveria responder com calma e objetividade a todas as perguntas. Mas o ministro respondeu na quinta-feira (19/06) a três questões e saiu arrastado por um assessor. Literalmente. Esse tipo de atitude só produz confusão numa área sensível, ainda mais num dia em que Lula reuniu a equipe econômica e conselheiros para discutir como lidar com a velha senhora.

Outro lado: para um colega de Mantega, ele apanha quando fala muito e apanha quando fala pouco.

Kennedy Alencar, 42, colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre bastidores do poder, aos domingos. É comentarista do telejornal "RedeTVNews", de segunda a sábado às 21h10, e apresentador do programa de entrevistas "É Notícia", aos domingos à meia-noite. E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br

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