Pensata

Kennedy Alencar

15/07/2008

O inferno são os amigos e parentes

Depois de ter sobrevivido à crise do mensalão, a mais grave de seus dois governos, Luiz Inácio Lula da Silva achou que a vida seria mais fácil no segundo mandato. Afinal, a antiga cúpula do PT caiu, ministros que se enrolaram em escândalos ou que se desgastaram politicamente deixaram as funções e todo mundo estava mais vigilante.

Ledo engano. O exercício do poder não dá trégua. Exige constante atenção. Quando o mar parece espelhado, calmaria completa, o tempo vira. O Palácio do Planalto já passou por três sustos neste ano. O desastrado episódio do dossiê anti-FHC e a participação especial de Roberto Teixeira no caso Varig tiraram umas lascas em Dilma Rousseff, a poderosa ministra da Casa Civil. Agora, a Operação Satiagraha, deu um tiro de raspão no mais antigo e importante auxiliar de Lula, o chefe-de-gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho.

Um traço comum de todos os escândalos e imbróglios dos anos Lula tem sido a presença de petistas e amigos como deflagradores das crises. Na Satiagraha, operação da PF (Polícia Federal) que prendeu o banqueiro Daniel Dantas, o advogado e ex-deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) pediu a Carvalho informações sobre eventuais ações do governo contra um cliente seu. Carvalho vacilou. Atendeu a um amigo que não era mais o deputado e militante do PT, mas o advogado pago por Dantas para atuar nas sombras do poder. No caso, tratava-se de um agente privado tentando obter favores de um agente público.

Em reunião na segunda-feira (14/08), Lula pediu aos ministros e a Carvalho que redobrem os cuidados ao tratar com "amigos, parentes e petistas, sobretudo com aqueles petistas que se deram mal na política", para usar uma expressão do próprio presidente. Greenhalgh é exatamente um desses petistas.

O chefe-de-gabinete de Lula se sentiu usado por Greenhalgh porque o amigo lhe vendeu a versão de que alguém se fazendo passar por pessoa da Presidência estaria perseguindo um cliente seu, inclusive com risco de sequestro. Em nenhum momento, na versão de Carvalho, Greenhalgh mencionou que o cliente era do esquema de Daniel Dantas.

Lula chegou a dizer que, se Greenhalgh tivesse conseguido falar com ele, provavelmente buscaria saber informações do GSI (Gabinete da Segurança Institucional) para transmitir ao ex-deputado. No caso, Carvalho, na atribuição de filtro presidencial, acabou tirando Lula de uma enrascada.

Greenhalgh queria mesmo era ter falado com Lula a respeito de Humberto Braz, ligado a Daniel Dantas. Em conversas reservadas, Carvalho disse que Greenhalgh abusou de sua amizade e confiança.

Lula avaliou que o episódio é mais um que serve de lição ao governo: cuidado com amigos e familiares que buscam agentes públicos para seus assuntos privados. O presidente, ministros e Carvalho deverão aumentar o nível de cuidados nas audiências e telefonemas aos quais dão retorno.

No governo do PT, os petistas, amigos e parentes são o inferno. Resta aos adversários assistir de camarote.

*

A visão de Lula sobre a Operação Satiagraha

Lula considerou a Operação Satiagraha "consistente do ponto de vista investigatório" e "positiva" para a imagem do governo. Mas fez dois reparos à operação.

Disse que o vazamento da prisão do ex-prefeito Celso Pitta para a Rede Globo, o que permitiu imagens dele de pijama, é um excesso da Polícia Federal que deve ser evitado. Pediu que o ministro Tarso Genro (Justiça) tome providências disciplinares contra os responsáveis. "Achei que isso já tinha acabado na PF", afirmou o presidente, de acordo com o relato de auxiliares.

Lula também julgou excessivo o uso de algemas e a exposição dessa imagem na operação. No entanto, reconheceu o caráter pedagógico de operações como a Satiagraha. Segundo o presidente, elas assustariam corruptores e corruptos.

Um ministro afirmou que a operação Satiagraha também tirou do noticiário um assunto negativo para o governo: caso Varig, no qual há suspeita de que o advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula, tenha tentando obter favores oficiais para os compradores da empresa aérea. Indagado se essa avaliação fora feita na reunião com Lula, ele disse: "Não. É uma constatação".

Resumindo: apesar dos reparos e do imbróglio Greenhalgh, Lula está feliz da vida com a Satiagraha.

Kennedy Alencar, 40, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.Também é comentarista do telejornal "RedeTVNews", no ar de segunda a sábado às 21h10.

E-mail: kalencar@folhasp.com.br

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