Kennedy Alencar
Condenados a se odiar
A última "Pensata" terminou com a promessa de falar mais da relação entre PT e PSDB, ressaltando que tantas semelhanças entre os dois partidos sempre tornava pertinente perguntar por que não remavam para o mesmo lado. Segue uma tentativa de resposta.
Nas últimas quatro eleições presidenciais, PSDB e PT foram os finalistas. Os dois partidos são os grandes pólos de poder da história contemporânea do Brasil. Parecidos ao aplicar seus programas de governo, PT e PSDB são duas grandes máquinas a organizar interesses políticos, econômicos e sociais.
Em 1994, o Plano Real atropelou uma adiantada articulação de aliança entre tucanos e petistas. À época, Lula parecia imbatível, mas o controle da inflação elegeu FHC. Em 1998, houve a reconfirmação do tucano, que ainda surfava nos bons resultados da economia.
C hegou 2002. Após oito anos de poder, FHC amargava um final de governo difícil. Lula, o oposicionista-mor de três eleições presidenciais anteriores, derrotou o candidato da situação, o tucano José Serra. Lula beijou a lona com o mensalão em 2005, mas se recuperou rapidamente e, no ano seguinte, derrotou o tucano Geraldo Alckmin.
O Brasil deverá chegar a 2010 com o governo Lula bem avaliado, salvo um acidente de percurso no primeiro teste econômico de verdade do petista. Governos com boa avaliação tendem a lançar candidatos com bastante chance de vencer. FHC não elegeu Serra porque sua gestão estava em crise, resultado do apagão de 2001 e da turbulência econômica de 2002.
Em 2010, o PSDB tende a ser a única alternativa real de poder ao lulismo. Os postulantes tucanos poderão ser Serra ou o governador de Minas, Aécio Neves. Lula deverá embalar a candidatura de Dilma Rousseff, hoje ministra da Casa Civil. Não dá para prever o resultado. Mas dá para dizer que PT e PSDB terão candidatos competitivos.
A tendência, portanto, é um duelo entre tucanos e petistas. A força de cada pólo os afastará. O que seria necessário para um casamento político? Um acontecimento catastrófico, que exigisse uma união nacional? Nada aponta uma catástrofe a caminho. Pelo contrário. O Brasil navega relativamente bem no atual mar revolto da economia mundial.
Há ainda dois ingredientes que deverão contribuir para condenar petistas e tucanos a se odiar por mais tempo na política nacional. A provável saída de Lula do Palácio do Planalto com popularidade em alta. E a boa notícia de que duelos entre PSDB e PT são feitos por nossos melhores e mais lúcidos quadros políticos. Mas esses dois ingredientes serão abordados em futuras "Pensatas".
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Visão científica
Tem analista de pesquisa achando que o cenário conflagrado em São Paulo entre o tucano Geraldo Alc kmin e o democrata Gilberto Kassab abre a chance de que a petista Marta Suplicy conquiste a prefeitura no primeiro turno.
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CQD
"Agora é hora de pensar em vencer o PT. Em política, se você não vê mais longe, se não vê a estratégia, se fica só na coisa imediata, você perde", disse FHC, numa indireta para Alckmin, que tem atacado Kassab, apoiado veladamente por Serra e boa parte do tucanato. A frase combina à perfeição com esta "Pensata".
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Ponto fora da curva
Uma união entre PT e PSDB só seria possível se os dois lados tivessem um surto de estadismo e altruísmo, mas aí seria acreditar demais na natureza humana. Aécio Neves acena com essa possibilidade, exibindo a aliança tucana com PT e PSB na eleição de Belo Horizonte como evidência de que outra política é possível.
No entanto, como lembrou o leitor Warlley Andrade, a aliança em torno do candidato Márcio Lacerda está mais ligada aos "interesses pessoais" de Aécio e do prefeito Fernando Pimentel (PT) do que a um projeto político comum de tucanos e petistas em Minas. Há várias cidades no Estado nas quais as duas forças se digladiam.
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Kennedy Alencar, 42, colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre bastidores do poder, aos domingos. É comentarista do telejornal "RedeTVNews", de segunda a sábado às 21h10, e apresentador do programa de entrevistas "É Notícia", aos domingos à meia-noite. E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br |
